segunda-feira, 12 de junho de 2017




O resumo muito resumido do fim‑de‑semana.
... fartei-me de andar, apanhar sol, rir, dizer disparates, ouvir disparates de vários géneros (cheguei à conclusão que agora deve ser moda os desconhecidos pedirem beijos e acharem que se podem dar bem... e ainda me ri para dentro com isso)
... perdemos o primeiro concerto, tive bom feitio com'ócaraças,  dancei e tive (outra vez) uma boa desculpa para comprar um livro. 
... ainda pus o pé na areia e molhei os dedinhos, esplanei sem pressas, tal como comi sem horas marcadas... tudo ao sabor do momento, o que se viu viu-se o que não se viu ficou para ver doutra vez, mas tudo se fez sem correria, programa ou horário, só na espontaneidade e vontade do momento... e isso é coisa que me descansa o espírito, solta-me a disposição. 
...Tirámos fotografias giras, conversámos tontices e debatemos coisas que surgiam na mistura de tudo, mandaram-me calar porque alguém estava farta de ouvir o debate... 
...Gozaram comigo, recebi um telefonema a dizer que agora dou nós cegos a amigos dos meus amigos... lá me obrigaram a contar a história que não tem história... o que deu nos conselhos do costume: não podes fechar a porta, conhecer melhor alguém não faz mal nenhum, podem-te surpreender, etc etc... nem vale a pena tentar dizer que o moço não é moço para mim ou eu para ele. Cheguei. Acharam-me morena e eu achei-me bem disposta. 
E é isto. Devia fazer isto mais vezes para espairecer a cabeça e soltar o riso ao sol. Faz-me bem, afasta-me a cabeça e a alma do que quero bem distante do meu presente e do meu por dentro. Não tivesse eu de fazer contas tantas vezes, e havendo boa companhia que alinhasse, e eu arrumava o tempo nos lugares certos, arranjava espaço para o futuro e encontrava no tempo um recanto para o coração sarar.

sexta-feira, 9 de junho de 2017






Adoro a primeira destas músicas, mas detesto ouvi-la - daqueles paradoxos que a vida nos tece e ironiza. 
Há um anúncio de televisão que tem a música e eu sempre que a ouvia alternava entre um sorriso ácido nos lábios e o encolher do coração ao tamanho duma ervilha. Nenhuma das duas eu conseguia evitar, era uma reacção, um instinto, alguma coisa me ligava um botão que dava uma ou outra coisa. O que nunca me deixava era indiferente, a música puxava os cordelinhos da memória e eu respondia qual marioneta nas mãos duma qualquer crueldade requintada auto-inflingida e inconsciente... ressoam-me coisas... foi um concerto bom, muito bom, intimista, a que não fui nem fiz falta, como em tudo aliás. Quando pude ir ver e ouvir também não fui, iria estar demasiado presente onde nunca estive ou fui querida, recusei-me a ir e a bilheteira esgotar deu-me a desculpa ideal a quem perguntou se não queria ir... Não fui. Depois esta coincidência de passar a ouvir a música na publicidade, e eu ter esta mania estúpida de achar que o que custa recordar deve ser recordado à exaustão, até vencermos a dor pelo cansaço ou pela teimosia, recordar até não haver mais o que recordar ou a recordação de tanto escarafunchar a ferida ela simplesmente deixar de doer. Comprei há algum tempo o CD na net, e agora todos os dias o vou ouvindo a caminho do trabalho. Estas são as músicas que mais gosto. E aquela - a Nemesis -, talvez o nome tenha tudo a ver, talvez um dia possa haver uma justiça qualquer que equilibra tudo, que vinga tudo, em que todo o mal se transformará em bem e toda a dor e mágoa em felicidades que as apagarão, ou as tornarão apenas indiferentes à recordação. Essa será sempre a melhor vingança: o não precisarmos dela.

quinta-feira, 8 de junho de 2017


O tempo corre-me tão depressa como a este homem aqui sentado, sem saber que o tempo passa enquanto segura uma senha na mão à espera que chegue a sua vez (esperamos todos). Só o esperar já traz tempo dentro, mas ele não sente porque o tempo só conta se trouxer coisas dentro para guardar nos bolsos de dentro da alma. Quando dos dias nada resta para guardar não se sabem contá-los: pode ser uma semana, um ano, uma década (o que aconteceu no último ano?? não faço ideia...). Não há senha que nos dê vez. 
Eu com a senha numa mão, escrevo com a outra, mas espero enquanto entretenho as letras do tempo. Espero a minha vez.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

...stá!! 
ehehehhe
(as coisas de que se lembram bbbalhamedeusss!!)

[foto @pickledgoose]

Ando com a cabeça ocupada, parece que me fujo, que não me quero pensar. Tenho a sensação estranha de estar a viver a minha vida pelo lado de fora, quase uma espectadora, que vai desempenhando, mecanicamente e sem alma, sem por dentro, o papel a que assiste. Como se um qualquer botão, que liga o por dentro ao por fora, tivesse sido desligado. Como se me tivessem despido da minha pele.
Se sempre fui metade razão e números e outra metade alma e palavras - com todo o caos que esse equilíbrio desequilibrado em metades que pouco se tocam, e às vezes se repelem, traz -, agora há metade de mim que parece adormecida. O fiel da balança não hesita, como se tivesse sido esmagado pelo vazio duma metade. Digo adormecida porque espero que não morta, espero sem certezas, como todas as esperas se vestem.
Tenho pouco para dizer, e quero dizer pouco ou nada, mas falta-me essa magia das palavras em que se paira, mergulhando em mim como mãos que me vão buscar ao fundo da inexistência, ou desta existência regular, repetida e mecânica. Às vezes parece que estou longe de tudo - não distante, mas longe - como se a luz do dia me iluminasse, mas a visse apenas percorrendo um longo túnel, como se a visse cravar-se quente na pele, sem que a sinta por dentro. Entedio-me com quase tudo, não me apetece quase nada. Vou fazendo a manutenção dos alicerces que mantém a vida como quem respira sem saber, sem querer. Mergulho a atenção nas coisas como se o oxigénio me asfixiasse, e só submergindo pudesse continuar a respirar sem a dor de saber que não sinto o ar, que já não sinto. Às vezes, sem saber como ou porquê, num momento qualquer que suspende o tempo, emerjo e respiro fundo o peito cheio de ar, saem-me palavras sob pressão como quem se desenrodilha por jacto. É quase um instante, e logo me afundo outra vez. Esqueço-me que sequer precisei de ar, volto à mesmice sem sentido, onde o mundo é líquido e a pele se dissolve - nunca chego a perceber porque precisei de ar. Apago-me outra vez.
Ainda agora, quase me obriguei a abrir isto, a começar uma frase que sei que se a começo algo sempre se desenovela. A primeira frase é só a ponta do fio que puxa o resto. Não sei porque me obrigo, talvez para me lembrar que tenho de querer respirar e sentir, que não me quero deixar morrer adormecida, queria adormecer só quando morta, que não me quero só metade de mim, mesmo que às vezes ache que bastaria, tanto como o nada que me chegam as duas - afinal, por viver fica exactamente o mesmo... Tudo um esforço inglório roubado ao sono, tentando não deixar adormecer em mim a fina réstia de vida que me trazem as palavras que desenterro da alma e espalho como quem desenha a sua pele. Estes bocadinhos de noite são os únicos onde procuro estar comigo, onde as palavras cosem o por fora ao por dentro e me fazem pele, onde sou fronteira de mim mesma e me contenho, extravasando-me.

terça-feira, 6 de junho de 2017

[foto @_georgemayer]


Quando os olhos pousam as mãos virgens 

no seu primeiro arco-íris de vida 

acordam cores que nunca sentimos.



(abraçar com as mãos o rosto de quem se ama é uma viagem assim, 
poder enche-lo de beijos é o tesouro no fim do arco-íris - aquele que dizem que não existe.)

... há dias em que acredito que sim, em que respiro recomeços sem regressos, 
que talvez venha a ter tudo, outra vez, mas doutra forma,
 diferente mas boa e com outro fim... ou melhor ainda sem fim.
...nos outros acredito que sou só parva nos dias em que acredito.
...entre uns e outros vou sendo eu todos os dias, entre mim e eu.


não me fales mais
dessa solidão de papel

eu ainda tenho a sede das oliveiras
a paciente sede
dos rios que nunca chegam
dos rios avistados
que não se podem tocar

eu ainda tenho a dor da terra queimada
a fortíssima dor
das chuvas que não voltam
das raízes que morrem
sem poder gritar

o teu nada
é só mais um perfume!

e eu
eu tenho sangue na voz
tenho no peito o grito do lobo
a imensa tristeza de uma lua
que o céu não quis

gil t. sousa

[a minha solidão não é de papel, como eu não sou de papel, sou de pele aquecida de sangue quente, que esquenta e ferve, esse sangue que me mata e asfixia porque corre e corre por ordem do coração - esse lobo solitário que em noites de luar uíva a tristeza de que não se desprende, do sangue que esquenta, ferve, mas não estanca. quando estancar morreste. morreste-me, e não sei se me morrerei também, não sei o que de mim sobreviverá. o que restará sem ponta de sangue, de calor, de luar? Eu não serei de certeza, será alguém que te acena um cumprimento, mas não te reconhece. Um fantasma apenas. Uma lua de papel.]

(e tornou-se verdade o que escrevi numa outra vida " alguém que te acena um cumprimento, mas não te reconhece". do papel da lua não sei, parece-me apenas um papagaio da lua que me banhava corpo e alma de vida, lembra-me sempre certos fantasmas que se esqueceram de crescer)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

[foto @moniblanco]

A realidade tem a mania de mudar sem nunca nada ter mudado, como uma luz que deixa de iluminar, deixando os olhos cegos para tudo o que permanece igual, assim como o seu contrário - quando a luz incide sobre o que estava oculto sob o manto da escuridão. Tudo permanece igual, só nós vemos diferente. E se às vezes a escuridão traz o medo pela mão, outras é a luz que nos faz temer. O conforto é sempre uma ilusão de ausência de confronto com o que não esperamos. 
Escrevo isto e percebo que ganhei medos por um dia se terem iluminado partes de mim que não conhecia, não o poderia esperar, para depois se terem de conformar com uma nova escuridão: esquecermos o que fomos, o que tivemos, o que sonhámos, até aquele dia em que despertámos. Nesse dia acordamos a perguntarmo-nos se sempre fomos assim e não sabíamos, ou se só somos assim pela luz de alguém que nos ilumina e nos dá sentido. Mas se for assim, então como podemos nós perder uma parte de nós que não é nossa? Que nunca foi? Como é que nos falta uma parte de nós que nunca fomos nós? Que é território estranho a que se chega só por alguém que é ponte para uma margem de nós.
Continuo a ter perguntas que só se vergam ao cansaço, aos vários cansaços que me vestem e isolam a pele, acumulo-os como se acumulam os anos no olhar, na desesperança no sorriso, na solidão dos dias. É curioso como no fim de contas é o cansaço que me salva de mim. De tudo o que já não sou.
Eu já fui outra e não mudei, apenas me apagaram a luz.
[foto @kat_in_nyc]

E se o tecto for feito de nuvens 
vamos subir ao telhado descalços 
e enfeitar o cabelo com grinaldas de chuva 
que escorrem sonhos de azul 
pela pele arrepiada de sorrisos beijados. 

(As nuvens a salpicar o azul do caminho fazem-me chover palavras nas mãos. às vezes temos de parar o dia para sentirmos - como agora tive de parar para escrever esta frase que me fez cócegas - e é nessa altura que o tempo avança, que o tempo não faz tempo, de resto são só ponteiros a rodar em falso, a darem horas mas a tirarem tempo. 
É quando o tempo pára que o tempo verdadeiramente conta, ainda que não o sintamos passar. É nos instantes em que ficamos suspensos no tempo que o momento cristaliza, eterniza-se. O tempo é uma qualquer variável paralela à vida que nos acontece dentro, os pontos de tangência são esses.)

domingo, 4 de junho de 2017


Miguel de Carvalho, in Neste estabelecimento não há lugares sentados

Duas páginas seguidas que me deixam presa no meio delas, a pairar entre as respostas para as ausências e o silêncio como cartografia de lugares imaginários que se revelam ponto de fuga para desencontros inconfessadamente desejados.

... e hoje acordei assim. 
Quer dizer acordei com esta vontade, ninguém me fez o pequeno-almoço, o que é pena,  porque - bolas!! - eu até merecia... mas pronto, tenho a minha varanda, uma brisa meia rebelde, cereais com iogurte (adoro e só descobri há pouco tempo), ovos mexidos e torradas, uma salada e morangos. Depois duma bela noitada nada como o dia a começar assim. Melhor só mesmo que me fizessem o pequeno-almoço/almoço, mo levassem à cama e ajudassem a comer. E nem precisam de acrescentar flores, como parte do quadro matinal, só beijos. Isso é que era!
[há qualquer coisa de promessa num dia que me começa assim, mesmo que não seja... acho que era isso que eu queria dizer]
Bom dia!

sábado, 3 de junho de 2017


[foto @_georgemayer]


Mulheres que se vestem de sombras 
para melhor se despirem.
Gosto.


O tempo corre tão veloz como a força da luz de um holofote que deixa na memória, a contraluz, intacto, o perfil perfeito e nítido, da felicidade apenas sonhada. A luz contorna-a tão perfeitamente que as arestas mais cruas de escuridão poderiam cortar a solidão. Mas se é sonhada, imaginada, irreal, como enfrenta o tempo e vence? Ou será por isso? O tempo não é a peneira da realidade? Ou é só peneirento de manias?
O tempo corre, mas contorna a memória, e só me dizem que a esbate e cura tudo.
Quero trocar o meu, a quem me queixo?

quinta-feira, 1 de junho de 2017


porque a loucura

deve ser rasgada por dentro

com as mãos cravadas numa ponte

acesa ao abismo



gil t. sousa

[... e não são todas as pontes por explorar um abismo? Um desconhecido da outra margem?... Uma loucura, ou um sonho, a rasgar por dentro, com medo mas com vontade? Se por dentro a vontade não ganha, o medo não perde - se ganha dizem que é loucura, se perde a vida não muda.
Loucura, o rasgar e ir.
Não ser feliz e não tentar rasgar o desconhecido, abri-lo com as próprias mãos, não será a loucura mais perigosa? Na outra margem do abismo pode estar o que queremos, se nesta, onde estamos, não estiver. Aqui, onde estou, não está.]


[foto @deinha_natali]

"O mundo há-de ser aquilo que se vê daquela janela para fora."

Tenho o péssimo hábito de anotar no telemóvel as palavras que o movimento do carro, das paisagens, das pessoas nos carros por que passamos, da música que nos vai brincando nos ouvidos e no corpo, me traz. É péssimo porque é perigoso, claro está, e é péssimo porque muitas vezes com o corrector automático em acção, chego ao fim da viagem e quando vou tentar ler o que escrevi, perdi metade, porque a atenção estava obrigatoriamente mais no caminho que no andar escrito das palavras. 
Li o post do Impontual antes de arrancar mas aquela ultima frase ficou-me a fazer cócegas ( ou qualquer coisa do género, cócegas não, senão não dava para conduzir ou o que fosse, não me podem fazer cócegas que me desarticulo completamente). Quando cheguei aqui o que consegui recuperar, ou o que resta dos gatafunhos do corrector foi :

O mundo é o que está da janela para fora, visto pelo que temos da janela para dentro. Por isso há tantas realidades para os mesmos factos e tantas janelas para o mesmo mundo, que nunca é o mesmo para cada um. Talvez gostemos, ou não, das pessoas pelo mundo que vêem, que nos apresentam, que nos mostram, visto da sua janela. 
Talvez nos apaixonemos por paisagens.


E agora fiquei a pensar que há coisas estranhas que me podiam parecer coisas que na verdade não podem ser, que não haveria maneira de poderem ser, nem lógica, nem razão, mas fica-me uma sensação estranha, como em tanta coisa fica mas que não é nada, que depois passa e leva a estranheza na correnteza dos dias. Aprendi a não querer pensar nelas, ou ando a aprender. Porque não são estranhas, estranha sou em estranhá-las, por de repente me lembrarem outras que já morreram, mas que, mais vezes que gostaria, me surpreendem em saudades do que sei que nunca existiu. Do que existiu mesmo -  da realidade que se me cravou na pele até à alma -, não tenho saudades. Talvez tenha saudades do sonho e de o sonhar, como de uma droga que nos mata mas nos extasia de vida, que sabemos sugar-nos em dobro do que dá.
Hoje o cansaço e as chatices vergaram-me, nem a varanda me puxa, e o cigarro já me mora nas mãos enquanto a bicha me habita os pés, como todas as noites enquanto me sento aqui. Talvez o dia, tão acelerado e amargo, me tenha levado as palavras, ou talvez eu fuja delas por comodismo, não sei. Sei que quero dormir e com o fechar dos olhos desligar do dia, de mim, de tudo o que não chega a ser nada. E depois percebo que tudo é nada, todos os dias.

quarta-feira, 31 de maio de 2017


Estou capaz de matar alguém só com o mau feitio com que me deixaram... irra que raio de dia mais custoso, o telefone não pára de choramingar problemas e desgraças. 
Acho que a bem da paz social da empresa devia pôr esta foto na porta do meu escritório... pelo menos não poderiam dizer que não foram avisados...
( estou precisada dum por-do-sol tranquilizante e reparador, ou isso ou uma vacina contra a raiva... vá-se lá saber...)

terça-feira, 30 de maio de 2017

"Sagitariano é assim
Um desastrado apaixonado
De coração doce
Mas grito forte

De alma sincera
Mas é uma fera
se lhe provocam

Ama de verdade
Se entrega sem regras
Para o amigo fazer sorrir

No seu coração a mágoa
Não faz casa…
Briga fácil,
Perdoa mais fácil ainda

Às vezes, ele é insano
Outras vezes, todo zen
Tenha um sagitariano por perto
E verás a alegria que a vida tem."
( daqui )

[não sei se isto é tudo verdade, mas eu não me importava que fosse. encaixa muita coisa em mim, ou eu parece-me que sim, mas melhor diriam os outros acerca disso... Uma coisa é certa, não me importo de ser desta tribo. gosto desta gente...]
... a lembrar-me as relações que não quero ter. Até dão para fazer piadas mas que os próprios não acham graça nenhuma, nem às piadas, nem um ao outro... mas pronto é o que se arranja e assim se ficam.
Prefiro andar a pé...

Bom dia!


[foto @leokrumbacher]

Nem sempre o sossego vem com o cansaço, há dias em que vem desta brisa da noite, deste enrolar as palavras e as pernas em mantas debaixo dum céu almofadado de nuvens, como este. Quando já sucumbimos ao cansaço e os ossos parecem feitos de espuma enquanto os ombros parecem amarrados ao pescoço por ferros, os sons da rua parecem um marejar distante num mar despido de lua. O espírito vagueia com a brisa e, distraído, nem tirita de frio, ou então é a manta que o distrai. Ao frio. Finalmente há uma certa paz que acomoda o silêncio, e as palavras saem da tímida escuridão em conversa de fazer conversa e tempo, porque tudo isto faz parte do ritual de chamar o sono, de embrulhar as mãos para esquecer o tempo que sopra o hoje e o amanhã. Encher as mãos de pequenos nadas para não nos lembrarmos que não há nada a esquecer e não nos esquecermos que a memória é uma promíscua que se vende fácil ao primeiro sonho.
Recosto-me neste cadeirão, já usado em lides mais despertas, e fecho os olhos como quem ouve música, e oiço a brisa passar como as vidas que não são minhas. Algumas arrefecem-me, outras nem me tocam. Às vezes parece que nem a minha toco ou me toca, e se esquece que me tocou, naquele tempo que mar e rio tinham prata de luar na pele. Depois lembro-me que não há nada para esquecer. Não há nada. E o melhor para olhar o nada é fumar um cigarro, o último do dia, no pensamento vazio do amanhã, o farol do sono que me naufragará.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

[foto de Lucile Fergesson  (@spirit_capture)]

"Espero curarme de ti en unos días. Debo dejar de fumarte, de beberte, de pensarte. Es posible. Siguiendo las prescripciones de la moral en turno. Me receto tiempo, abstinencia, soledad.

¿Te parece bien que te quiera nada más una semana? No es mucho, ni es poco, es bastante. En una semana se puede reunir todas las palabras de amor que se han pronunciado sobre la tierra y se les puede prender fuego. Te voy a calentar con esa hoguera del amor quemado. Y también el silencio. Porque las mejores palabras del amor están entre dos gentes que no se dicen nada.

Hay que quemar también ese otro lenguaje lateral y subversivo del que ama. (Tú sabes cómo te digo que te quiero cuando digo: «qué calor hace», «dame agua», «¿sabes manejar?», «se hizo de noche»... Entre las gentes, a un lado de tus gentes y las mías, te he dicho «ya es tarde», y tú sabías que decía «te quiero»).

Una semana más para reunir todo el amor del tiempo. Para dártelo. Para que hagas con él lo que quieras: guardarlo, acariciarlo, tirarlo a la basura. No sirve, es cierto. Sólo quiero una semana para entender las cosas. Porque esto es muy parecido a estar saliendo de un manicomio para entrar a un panteón."

Jaime Sabines - Yuria


Receito-me saudade, abstinência, tempo - três coisas que não quero, três coisas que soçobram onde só eu sobro, eu e a fogueira ateada pelas palavras que ficaram por queimar os lábios em beijos que não te disse, nem de tudo o que te disse nos interstícios suaves das palavras banais - como aquele "olá" que rompia o correr do tempo, que recomeçava tudo como se nunca tivesse sido interrompido. Como se connosco o tempo não tivesse saltos de ausência, porque até a ausência, de tão presente, era sermos juntos. Ou era eu ser. E talvez esse tenha sido o problema - eu ser e só eu ser, eram dois problemas, afinal. 
Uma semana. 
Uma semana, prescreve esta receita, talvez seja tempo a mais para esquecer-te se nunca exististe meu, se nunca te habitei a camada profunda do ser que a pele esconde e revela quando é amor.. Mas não, é tempo que não te darei mais. Sim, talvez seja a receita para sair do manicómio ou para melhor o manicómio me habitar, não sei. 
Dá-me uma semana e dir-te-ei. Com silêncio - como todas as tuas respostas - porque numa semana curo-me de ti, de nós e já nem sei que perguntas, que pergunto.
Eu, que já nem pergunto nada, doida de interrogações.



Há dias que tenho muita vontade de não fazer nada. Espreguiçar-me em vénia ao sol e ficar  só a vê-lo passar... com a sorte que tenho, nesses dias acontece muitas vezes não haver sol...
Com vontade ou sem ela, com sol ou sem, hoje há muita coisa para fazer, espera-se a comparência da vontade...
Bom dia!

domingo, 28 de maio de 2017


[foto @boudoir.photography]

Gosto de sentir os lençóis na pele. Faz-me sentir a pele, como se fosse tocada. Tenho saudades de me sentirem a pele, de sentir outra pele, de agarrar e de ser agarrada, de encostar à parede, e ser encostada, com a força faminta do desejo, de dar as mãos encostada a outro corpo numa ternura apaziguadora. Tenho. Às vezes parece que há pouca pele para tanto calor guardado, outras que a pele é demais para tão pouco calor. Sinto os lençóis nas pernas, na barriga nas costas, como se estivesse mergulhada em mim, e penso que me apetecia que alguém mergulhasse em mim e me sentisse toda devagar. Que sentissse que me queria sentir como quem acorda, quase emergindo dum desmaio, ao chamamento duma voz doce, ao toque que nos faz suaves. Agora. Apetecia-me.
Como será sentir-me amada como já amei?
Como se sentirá na pele quando é verdade?





sábado, 27 de maio de 2017


[ nuno rocha morais, in Galeria]
Olha Eros... nem de propósito ;)


Aperitivo na espera das tapas, de tapa fome, duas prendas, uma que me ofereci, outra que o meu amigo Miguel me ofereceu... o dia começou bem... só a foto do passaporte não me leva a lado nenhum (e fiquei a saber que agora na foto de passaporte tem de se mostrar as orelhas !!?!?!?... tirar os brincos e não mostrar os dentes... valhamedeus o mundo está louco ou eu sou muito esquisita...)
E a sangria chegou e a Anouk está aqui à minha frente a ver-me petiscar os livros com cara de quem olha uma anti-social Eheh ...

[imagem @aaa.abbi]


Sento-me aqui e cheira a queimado. Alguma coisa ardeu, alguma coisa ardida paira no ar e traz coladas cinzas da minha memória. Ninguém me chamou como numa madrugada ardida pelo tempo, quando disseram que estava tudo em chamas e nada fazia sentido sem mim, que acordasse do meu sono porque me chamavam e me queriam nesse fogo onde as almas se encontram e reconhecem.
Nada ardia além do tempo, nada queimava senão o chamamento. Ardeu tudo na falta de sentido de não haver sentido sem mim. Tempo ardido, perdido num fogo que não chegou a ser ateado... agora cheira a queimado, a tempo reduzido a cinzas, ardido numa chama sem razão, num chamamento sem intenção. 
Houve quem nunca acordasse, mas não eu. Falta-me agora adormecer os sentidos acordados sem sentido, queimados sem fogo. Alguma coisa ardeu, restou a memória no ar. Faltou alma onde o fogo soçobrou e não ardeu. Só queimou.

sexta-feira, 26 de maio de 2017


[foto @bird.ee]


"ela encontrou-o à beira de se afogar
e ensinou-o a respirar debaixo de água"

Explicou-lhe que estava a tentar sobreviver ao contrário.
Ele entendeu-a.
...das possibilidades mágicas das vidas comuns, 
ainda que esta magia seja tão rara quanto sublime.

As improbabilidades têm algo de divino, ou de caótico.



(o furacão chamado Amor)
Esse sítio em que fomos
Quem nunca chegámos a ser
Talvez como esse sítio 


quinta-feira, 25 de maio de 2017

[foto @jojo_mars]
Sinto-me longe de tudo, parece que não me sinto - o que sendo bom por um lado, é mau. Sinto-me longe até de mim, é uma sensação estranha. Os dias têm passado tão preenchidos e corridos, que mal consigo pensar no que não seja trabalho. O tempo corre tanto que não me deixa sequer agarrar o que sinto nos pensamentos que se agarram à pele por dentro, mais de uns segundos que logo me fogem.
As palavras para nascerem algures entre o osso e a alma, precisam de solidão, de silêncio, de sossego e uma incerta inquietação de alma. Não tenho tido nada disto e não tenho feito por ter, talvez porque vá sempre ter a esquinas de mim mal dobradas, aqueles cantos donde ouvimos dizerem-nos "tens de andar para a frente"... coisa que não entendo porque todos os dias acordo e me levanto e faço o dia, ou deixo-o fazer-me, e nunca encontrei uma porta com uma tabuleta a dizer "Passado", e se encontrasse nem sequer batia - ainda que saiba que é habitada por gente de raízes fundas -, continuava pelos dias onde oiço dizerem-me "tens de andar para a frente". Concluo que nem todos andamos da mesma forma, nem todos temos o mesmo peso de caminhos passados nos passos. Acho que ainda me falta caminho para que esses caminhos não me pesem o caminhar, mas é a minha forma de andar. Para a frente, parece-me, para trás não conseguiria nem que quisesse, e não quero. Só cheguei aqui por esse caminho, não há como negá-lo ou desfazê-lo, é o que me fez do que fui e o que sou. Não quero desfazer-me ou refazer-me, quero apenas ser, sendo-me. Como sempre.

quarta-feira, 24 de maio de 2017


Pequeno almoço na varanda, começar o dia assim, a sentir a brisa nas árvores e na pele. Regar as plantas, pensar no dia que se avizinha. Reunião importante, potencial cliente, cadeia de hotéis espanhola com nome curioso... dou por mim a pensar o que vestir e que os homens não têm esse problema. Não gosto de ver mulheres que em trabalho quase parecem homens, no trato e na aparência, mas abomino a ideia de usar a condição de mulher em vez de profissional ( e acerca deste assunto muito poderia ser dito acerca de quem usa quem e como, quem muitas vezes é vítima e quem se faz de vítima vezes demais, quem nunca se queixa e quem se queixa por tudo...). Ouvi algumas vezes ainda a estudar, para exames, ou já a trabalhar quando tinha reuniões importantes, "leva uma mini-saia e sorri, que vais ver que corre bem". Nunca o fiz e sempre me irritaram esses conselhos... detesto essa ideia e detesto ainda mais pensar que precisaria disso para um bom resultado... seria muito humilhante para mim. Já perceber que pensavam que eu precisaria, ou aceitaria, esse tipo de recursos era só triste e decepcionante.
A primeira imagem que fazem de nós conta, e a imagem conta para nos levarem a sério, disso não há dúvidas. Se noutros contextos dizerem que pareço uma miúda pode ser bom e até elogioso (cada vez mais até, isto a partir dos quarenta até parece música...) no contexto de trabalho, se estamos do lado de fornecedor não é bom... já de cliente ou parceiro que parece que não sabe o que anda a fazer, às vezes é bom subestimarem-nos, mas isso são outros quinhentos... agora tenho mesmo é de me despachar...

terça-feira, 23 de maio de 2017


a pele, essa grande
porta
onde todos esperamos
pelo sim
ou pelo
não.

gil t. sousa


[pelo sim pelo não, 
não esperar nada.
a pele envelhece 
da espera como quem não espera. 
não se enruga por mergulho prolongado
em falsos desejos de amor, de cuidado, de ternura.
tudo o que é falso apodrece e contamina, 
vê-se no cheiro do olhar duma pele que nunca desesperou]

segunda-feira, 22 de maio de 2017


[foto @gabrielerigon]


Enfio-me na cama outra vez. Acho que ela só deixa que me vá embora com a promessa de voltar em meia hora, o tempo de enfiar uma roupa levar a miúda, voltar, arrumar o stress desarrumador de cozinhas da canídea por ficar quinze minutos sozinha, limpar o que houver para limpar, comer qualquer coisa e desenfiar a roupa como quem engaveta começos sempre adiados. Volto, sem roupa, e encosto-me a ele, quase acabado de entrar na cama, mas já quente dele. Fico-me a olhá-lo e a sorri-lo, a pensar o que sonha, se me sonha também, se a vida dele também é minha.  Passo a ponta dos dedos por aquele pescoço, sempre adorei aquele pescoço, pendurar-me nele, encher de beijos, passear os lábios ou os dedos devagar... os dedos fogem com vagar para os ombros que começam os braços que, se acordados, quero à minha volta... sinto-lhe, por dentro dos dedos,  a pele e a perdição. Sinto saudades e sinto sentido. Na ponta dos dedos, nos sonhos, na cama, no encostar-me, na perdição e no adiar começos, porque aqui estou bem. Estou tão bem, mudar o quê, para quê? Começar o quê, se aqui cada instante é vida que não se quer mudada? Sair desta cama só quando tiver de ser, quando o dia for inadiável, quando as obrigações forem ditadoras. Mas vou com a promessa de voltar. Voltar para o calor, para esta pele, para este sonho que sonho antes de voltar a fechar os olhos por uns instantes e adiar este dia só mais um bocadinho. Fingir-te aqui só um sonho mais.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

[foto @diego_durden]

... a tentarem comprar-me que seja assim :)))

- fica tão sexy quando se chateia e começa a refilar... há qualquer coisa de agri-doce em si... é que fica assim brutinha mas sexy como'caraças!!!
- ahahahah...olh'agora o moço a querer dar-me tanga a esta hora!!!... olhe que dizer essas coisas não o vai safar, não!!... não apaga a asneira que fez!!!... mas, vá teve a sua piada...
- está a ver?? Eu não digo... 

(Dias de trabalho com gente que já se tornou conhecida, ao fim de tantos dias de trabalho ao longo dos anos... dias bons para as vistas e para o ego... e a tentarem comprar-me, realmente, que seja com elogios assim, não vão lá de qualquer maneira, mas ao menos já gargalhei hoje... valha-me isso e o bom humor... mas fico-me a pensar se estas coisas costumam colar... a mim só dá para rir, e já não é pouco nos dias que correm.)

A rapariga não se convence que já não cabe no cesto da roupa... bem tentei explicar-lhe de debaixo do chuveiro, de ouvi-la as voltas com aquilo, que não ia caber, que depois não ia conseguir sair daquela embrulhada... não me quis ouvir teimosa que nem um burro pintalgado... dou por mim a pensar que as minhas pessoas são todas teimosas de fugir... e agora, pelos vistos estende-se até a esta meia leca de tracção às quatro (até na teimosia é quatro por quatro)... é preciso muita paciência valhamedeus...
Bom dia!

quinta-feira, 18 de maio de 2017


[foto @lolitita]

Hoje a casa não me dói, essa que me doía porque não tinha os pilares nos meus ossos, a parede na minha pele, as janelas nos meus olhos. A luz nunca foi minha, o lar o meu abraço.
Hoje não me doem as ausências de casa, desta casa povoada de lugares por ocupar onde não cabe ninguém. Hoje doem-me as dobradiças do tempo, emperraram por falta de uso, já não deixam abrir ou fechar, respirar ou devorar, mas rangem, rangem pesadas, em palavras que o silêncio escreve pelas minhas mãos enrugadas de juventude encardida.

(enquanto faço o jantar sem receita, as palavras recitam-me as entranhas nas entrelinhas)

Diz-me um segredo
qualquer coisa inacessível
dessa tua alma

alguma coisa
que eu possa ainda fingir
que não sei

gil t. sousa

[gostava de sentir que alguém no mundo me conhece do avesso e por dentro, e mesmo assim, mesmo assim, me sentir amada, deve ser o sentimento mais confortável do mundo. saber que alguém nos conhece os defeitos, as partes menos recomendáveis, tudo o que já fizemos, o que já fomos, e ainda assim aceitar-nos, receber-nos, sem mácula, no amor que nos têm (se tiverem). nunca ninguém me quis conhecer assim, alguém que me quisesse escavar a alma até aos segredos de que tenho medo, de tão pouco segredo que são, e de tão pouco ter que contar, afinal. esse é talvez o meu maior e único segredo, não tenho nada para contar, sou simples simplesmente, a minha vida, se a alguém importasse, contar-se-ia em dois minutos, e dois minutos sem sobressaltos, ou anseios de suspense, nada. ainda assim ninguém nunca o quer saber, e se calhar ainda bem, não quererem saber o que não tenho para dar a saber. não há nada inacessível da minha alma, e ainda assim, ninguém a sabe, ou quer saber. se calhar é isso que eu finjo que não sei.]

(com o mote da revisitação, do reler esta poesia, ficou-me o gosto insistente...)

quarta-feira, 17 de maio de 2017


True.
Nunca verbalizei a coisa assim, mas é assim que sinto. 
Quem precisa ser convencido não quer indubitavelmente...
...E a mim as dúvidas não me servem, nem me chegam, não nisto. Nunca nisto.


[foto @moniblanco]

Eu já não sou o teu chão, tu já não és o meu céu.
Foste-te embora, fechaste a porta de mansinho rumo ao teu futuro estrondoso. Deixaste-me preso às mãos o passado, trancada num presente sem portas, só paredes altas que tentei subir, escalar, saltar, desinventar... Escorreguei todas as vezes, nada me agarrava, eu nada agarrava... as mãos ocupadas que estavam com o passado que não larguei, que protegi do frio e das quedas, e até de ti. Não me deixaste portas nem janelas, levaste o céu, fechaste-o com um telhado emoldurado. Tanto me arrastei e esfolei e gastei, me reinventei mentida vezes sem conta, que agora esse telhado é chão, e o tecto estrelas carregadas de noite, nuvens esfiapadas de dia. Aqui, onde estou, vejo o passado mais longe, e o futuro mais a caminho de ser caminho. O que vejo mal, aqui de cima, é o presente, parece que não sabe cair, que não sabe onde estar. Não me assenta nas mãos, escorrega-me por entre os dedos desaprendidos de agarrar.
Sei que aqui já não és o meu céu, sei que tectos pintados de céu não vêem as nuvens mexer, mudar de formas, trocar de sentido, colorir o tempo, são uma mentira de céu que já nao me mente. Deixei de ser o chão pisado do teu caminho para longe mim. Não reconheço mais os teus passos como já não conheço as tuas mãos. As minhas já não conhecem as cores que procuram pelos céus não emoldurados que me chovem nos cabelos. Fecho os olhos para melhor ver as cores que tacteiam os dedos. Às vezes parece que as sinto. Cheiram ao que antes guardavam as mãos que não guardaste.
Tu já não és o meu céu, eu já não sou o teu chão.
Tu já não és céu, eu já não sou chão.
Falta-me céu, falta-me chão.

terça-feira, 16 de maio de 2017



Hoje acordei com fome de Alentejo e de todos os meus sinónimos dele: as conversas lentas aquecidas ao sol, bem servidas de um vinho fresco que nos brinca no copo entre os dedos e um prato bem recheado de sabores. Tive saudades dos brincos de Verão, pendurei-os de manhã nas orelhas para me sentir mais longe daqui, lá onde estou mais perto de mim, onde me sou mais e quero mais e sinto  sentir-me mais. Quero fugir daqui para os braços da minha alma em sossego, que se enche quando enche a vista de pores do sol que se entranham em nós, tanto que esse calor que  nos convence que a vida cresce quando se está bem e que os sorrisos nos caem bem, quando nos achamos mais perto de nós, mesmo que estejamos sozinhos, ou com quem nos deixa estar tão bem como quando se está sozinho sem solidão. Sinto falta disso, desse estar, sendo. E dos almoços prolongados no Sacas ou no Tranquitanas, e daquelas cores de por de sol que me fazem pairar na linha de horizonte como se o horizonte fosse só o meu olhar, ali ao alcance da mão, por o sentir aquecer-me o coração, congelado pelos dias onde mal me vejo e nem me quero sentir. 
Hoje acordei assim -  com vontade de lonjuras para me trazer por perto.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

eram tão simples
as nossas mãos

ainda tão simples
e prontas
quando
nos procurávamos

como se tudo
nos faltasse

gil t. sousa

[e só nos faltava faltar alguma coisa, 
agora falta-me tudo,
 faltam as mãos a procurar 
o que, afinal, 
nunca antes tiveram de procurar]

(para aguçar a vontade da Laura que não conhecia e para a ana que partilha este meu gosto pela poesia deste senhor :) que agora voltei a ter muita vontade de procurar e reler) 



Mood do dia.
Sábias palavras... 
E tambem há vezes que são só coincidências parvas... Ou decisões do destino impensadas, sei lá. Interessa não pensar nisso. Isso sim é uma excelente decisão: não pensar.

domingo, 14 de maio de 2017


...mais uma caminhada... estava tão cansada que quando a mandei sentar à espera do semáforo, na última estrada por atravessar, ela deitou-se... como agora, já na mesa e já deitadinha. A mim faz-me bem o exercício, o caminhar, o soltar os pensamentos ao compasso dos passos, que não se querem apressados nem corridos, ao ritmo de passeio que divaga e deixa divagar...
 Só espero que agora no regresso não chova, o dia não caminha lá muito seguro... e tem o seu direito às inseguranças, como toda a gente, eu é que seguramente queria fazer o caminho a seco... vinte minutos é uma molha valente...

sábado, 13 de maio de 2017

[foto @hairmanstyles]

A modos que acordei assim: com os dias despenteados na cabeça, sem modos nenhuns, incapaz de entender a vida... ávida de não querer entender nada, mas de me conseguir pentear sem perder o cabelo todo...
Bom dia!

sexta-feira, 12 de maio de 2017


...Há deslizes e deslizes...
e depois há quem tropece. Irremediavelmente. 
É uma chatice, não se sai do chão...
mas pode-se aproveitar para deslizar na mesma

[@bertrandlivreiros]

... mas há noites em que os fecho
 como se já fosse demasiado tarde, 
e as asas já não saibam voar para longe, lá, 
onde me deixo para sonhar sossegos.

quinta-feira, 11 de maio de 2017


E já há algum tempo que não... qualquer dia faz-me falta...
uma asneira ou outra...

(hoje apetece-me acabar o dia assim com disparates bem dispostos... há qualquer coisa a saber-me bem no dia... acho que é a sensação de me testarem e darem com as trombinhas na própria estupidez, fazerem braço de ferro, armados em homenzinhos, e partirem... ladram muito mas mordem pouco e só onde eu deixo... e agora vou-me pirar que realmente é uma boa deixa para deixar no ar...)

True Love Waits - Radiohead (A Moon Shaped Pool) from Finn Callan on Vimeo.


Talvez se embalarmos baixinho o passado ele adormeça e nós possamos acordar-nos o presente do agora - pensava eu, e procurei música com os dedos para me acalmar por dentro dos ouvidos, talvez para embalar... mudei para o cd sem saber qual estava lá dentro, saiu-me isto:


"I'm not living, I'm just killing time
Your tiny hands, your crazy-kitten smile

Just don't leave
Don't leave

And true love waits
In haunted attics
And true love lives
On lollipops and crisps"



Tirei-o para comprovar: está escrito a marcador preto, pela mão dum passado que ainda me treme e contrai, nalguns instantes, diversas eternidades ("alguns", penso que dizer agora "alguns" é uma vitória arrancada a muitas noites e dias em que me arranquei de mim para sobreviver-me... e ecoa-me a música... "I'm not living, I'm just killing time" ) .
Tive vontade de o atirar janela fora, mas mudei só para rádio outra vez, não sou moça para isso - para atirar coisas pela janela do carro, entenda-se...

(e se calhar para o resto também não... mas há dias em que as ganas me assomam as atitudes...)

Começou a chover, ouvia-se do sofá, vim para a varanda. Estou aqui enrolada na manta e sentada no degrau... oiço a chuva a refilar, ela a dizer mata o vento a dizer esfola, e as goteiras assustadas parecem tinir o medo dos inocentes. Sento-me mais para trás, mais dentro de casa, porque há gotas mais atrevidas e querem chegar a todo lado, e já me chegaram ao nariz e à maquineta que trago nas mãos a escrever. Gosto destes sons, gosto de ver a cortina de gotas gordas e frias a contraluz no candeeiro de luz quente da rua, gosto da chuva a cair, a lavar os dias do chão, a cair pesada, a arrastar o que já caiu. Devia haver uma chuvada assim na minha vida. Devia. Mas provavelmente só apanhava uma pneumonia, como os desgraçados que andarem por aí ao sabor da música da noite... 
Vou acender um cigarro, apertar-me mais dentro do calor da manta e apreciar a sinfonia... e o calor de encontro ao frio, como um privilégio; o seco em vez de ensopado como uma benção, os sons sem arranharem o silêncio como um sorriso que não precisa de rir. Coisas assim, que temos sem saber, que se sentem sem pensar. Coisas boas.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

[foto @fran_dominguez]


Há olhares que nos despem 
e olhares que nos fazem despir.
E destes, há os que nos deixam confortavelmente nus. 
Só quero esses.

terça-feira, 9 de maio de 2017

[...este também é importante...]


Que toda a tua refilice se transforme em ganas para defender os que amas e te amam
Que aprendas a questionar sempre e a valorizar a verdade
Que a tua teimosia se transforme em convicção que sustente a luta pelo que acreditas e queres
Que não sucumbas aos muros que se erguerem aos teus olhos e nunca duvides de ti
Que saibas, sem ter que pensar, que é importante chegar, mas nunca mais importante de como se chega, porque há vitórias que podem ser derrotas e derrotas a que só se sobrevive com a dignidade de ser.
Que nunca te esqueças que a beleza que encanta os olhos dura apenas um instante que se esquece, mas que os instantes bonitos por dentro são eternos e tornam-se raízes.
Que todas as desilusões não te transformem os sonhos em ilusões
Que os teus passos mais doridos não absorvam a vida que irradias
Que as perdas não te derrotem a alegria
Que a vida nunca te amargue o brilho desse olhar doce
Que saibas crescer como um ser humano digno, justo e sensível
... e que nunca largues a minha mão.
Que cresças, mas não deixes de ser a minha pequenitates, que há anos me fez mãe e passou a noite de olhos esbugalhados, a olhar para mim espantada com o mundo.
Palavras sábias do Menino.


Conta, mais que tudo, os que ficam, os que nos são, sempre e apesar de tudo.
Tudo o resto desconta-se da vida que um dia contaremos.
Espero.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Das homenagens singelas que não se escapam por entre as palavras não ditas, e me adoçam a existência dos dias. Bolachas de manteiga ou uns quaisquer biscoitos. Importa é que cheirem a mãe, que nos lembrem a sensação de casa, carinho, protecção: o último sítio seguro e o primeiro que lembramos quando precisamos de fugir do mundo e de colo. Andamos a vida toda a procurar outro onde nos sintamos, assim, acarinhados e seguros. De que façamos parte sem estranheza alguma.
Recordamos sempre os pequenos pormenores que fazem as histórias grandes, ou os afectos, que é quase o mesmo. 

sábado, 6 de maio de 2017

... Depois fica ali, a esvair-se em oportunidades perdidas, 
numa sobrevivência vã.