Será que os olhos esgotam a beleza? Como se a sorvessem do prato estendido na paisagem?
Será que depois de muito saborearem aquela beleza, todos os dias ali à mão do olhar, enjoam? Deixam de se nutrir dela? Deixa de ser bela?
Será que um dia, se esta beleza me inundar os olhos todos os dias, eu vou deixar de sentir o dourado das searas a pentear-me os sentidos?... e as sombras das árvores já não vão parecer fugir-lhes dos pés, esticando-se lânguidas e vagarosas - como duram os momentos saborosos -, rastejando-se, sempre rasas ao horizonte, no final do dia como quem se abandona devagar para mergulhar na essência da noite, tão absorvente?
Será que o olhar se habitua à beleza como à luz ou à escuridão?... até mal dar por ela, até já não saber que é bela?
Será que estamos condenados ao cansaço de tudo o que gostamos? Será que um dia olhamos e já não vemos nada que nos acorde a alma, que nos desperte vida, como um dia se sentiu olhando exactamente a mesma paisagem?
Não quero. Quero apaixonar-me por alguma coisa a vida inteira. Alguma coisa que na minha vida possa ser paixão inteira.