quarta-feira, 5 de julho de 2017


[foto @kat_in_nyc]


A lua está grande e meia amarelada, baixa, quase a bater nas luzes quentes da cidade alta. Ouve-se uma mota ruidosa ao fundo da avenida e pessoas na conversa no Avenida. Aqui, vejo e oiço o que os olhos e ouvidos me dão e, como com tudo o resto, nada faço com isso, sou um corpo condutor de coisas do mundo - passam por mim e não ficam  (ainda que algumas me fiquem... dou por mim a sussurrar-me entre os dedos das palavras que aqui calo). 
Onde está a minha voz e o meu grito no meio do ruíudo surdo do mundo? Onde está o grito se a alma já não fala nem cala, se desaprendeu a respirar na asfixia das noites trémulas de luar? Onde está a luz, se os olhos já não vêem e a lua não grita na pele?... Até o cigarro já se calou.


terça-feira, 4 de julho de 2017

[foto @olheosmuros]

... nope.
 Foi.
 Já não é. 
Há que manter a dieta.

segunda-feira, 3 de julho de 2017


[foto @parkwaydrive9]

Procuro-me nos postais de paisagens óbvias de desertos que já foram oceanos, perco-me na névoa dos dias claros como quem entra num labirinto à procura dum mapa. Sei onde quero ir, não sei por onde chegar. E não chegando não me sei. Sei que o mapa sou eu e o labirinto sou eu, mas não sabem um do outro e eu não sei onde pus a chave dos dias que trazem no horizonte os versos que os sobrepõem e me destrancam para o que sempre fui. O reverso do verso é a poesia dos dias que me escorre por entre os dedos.
Onde é que está aquela camada de instantes que nos contém e estende ao mundo? Que é pele que sente o por fora e fala por dentro? 

domingo, 2 de julho de 2017


Do mood que se quer domingueiro, com cores assim, tranquilas, leves... ainda que nem sempre seja assim, só de olhar para isto sossega-me o olhar.
(Não encontrei autoria)
Bom dia :)

... depois, às vezes, uma pessoa até fica tentada a acreditar que realmente deus existe... ... valhamedeus... e se existir que se manifeste (também) assim. Amén.

sábado, 1 de julho de 2017



"Mas como é que uma pessoa pode abrir os olhos quando os olhos já estão abertos?"
Paul Auster, Homem na escuridão 

[... Sim, como? Disseram-me muitas vezes que depois de ter aberto os olhos era muito difícil voltar a fecha-los para a realidade que se viu, como se nada se tivesse sabido e visto (mas até isso foi, também, mentira), mas e como despertar o espírito quando já vimos o que havia para ver, mas isso não parece fazer-nos acordar para essa realidade como realidade?]


...isto deve ser para me lembrar que devia ter ido trabalhar hoje à tarde, mas deu-me a inevitabilidade da preguiça aliada à susceptibilidade da procrastinação... a modos que peguei na tracção às quatro e viemos tomar café à esplanada das leituras... dois kms para cá, daqui a bocado mais dois para lá. Entretanto, entre a vinda e a ida, o café continua sem açúcar. Não há nada como as decisões não serem decididas, aparecerem-nos por dentro, simplesmente como evidências. Assim são tão naturais que não custam. Às vezes parece incrível... porque não é com tudo assim? Com todos os açúcares?

sexta-feira, 30 de junho de 2017


Lua

Habita o sonho
Desabita a vida

Habituada a ver
Desabituada de tocar

Tão dentro da alma
Tão longe da pele


quinta-feira, 29 de junho de 2017


... acredito pois... às vezes a razão é sermos estúpidos...
Há fases más e outras não... pior é quando já estamos no ponto de não distinguir umas de outras... algo vai mal, já não é uma fase é o quadro todo...
[foto @me_and_orla]

Chegou a casa com o sol a debruçar-se sobre o horizonte, poisa as chaves, a carteira e a pasta carregada de papéis, desce dos saltos - primeiro um, dois passos à frente o outro. Descalça encaminhou-se para a porta de vidro que lhe pareceu mais pesada que em qualquer outro dia. Lentamente correu-a e a brisa logo caminhou pela sala levando parte do peso que lhe curvavam os ombros desde manhã. A madeira do alpendre, debaixo dos pés, ligeiramente aquecida pelo sol que insistiu em embrenhar-se durante todo o dia, criava um conforto mono a cada passo. Sentou-se no cadeirão e poisou o olhar no horizonte, procurando deixar-se lá. Fechou os olhos, tentando abandonar-se, evadir-se de pensamentos, esvaziar-se de quotidiano, e vazia deixou-se ficar na escuridão das pálpebras descidas, ouvindo apenas a sua respiração e o chilrear dos pássaros que não via. Deixou-se estar, tentando saborear uma paz que lhe era sempre fugidia de tão ilusória. Lembrou-se da frase que lhe surgira durante o dia enquanto os saltos calcorreavam a calçada na correria a que ultimamente se dedicava, "pensas logo existes", e ela, num curto circuito de palavras, apanhou um pequeno choque quando o contrário se iluminou: quem pensa não tem tempo para existir: existe menos. As existências não pensadas existem melhor, e mais. E agora, ali descalça, de olhos fechados, queria apenas existir não pensando. Reduzir a existência apenas à essência de ser, se pudesse ser. Um sorriso pareceu assomar-lhe os lábios, como a brisa que levemente remexeu as folhas da árvore que lhe invadia o alpendre todas as primaveras, mas de que mal se dava conta. A respiração pareceu distrair-se, já não dava por ela, e nesta distracção surpreendeu-a o pulsar do coração fora do sítio... sentia o coração nas mãos, aliás, na ponta dos dedos, algo lhe palpitava por dentro e sentia-o nos dedos que terminavam as mãos vazias. Houve um enrugar da testa que alguém se teria apercebido se a observasse. Depois o coração sentiu-o nos joelhos, numa espécie de formigueira ritmado que parecia um coração, algum coração perdido de si, seguiu-se o pescoço e o colo, e foi então que instintivamente levou a mão ao coração, para lhe tomar o pulso, e não, não estava lá, não sentia nada. O coração havia desaparecido, não batia no sítio, espalhou-se pelo corpo, perdeu-se. Sentiu chegar-lhe uma ansiedade sem razão, como um pressentimento de algo que estaria para chegar sem ser anunciado, ou algo essencial que fugiu sem razão conhecida. Só se lembrava de se sentir assim de todas as vezes que àquela mesma hora fazia tempo para esperar pelo amor que não seria nunca da sua vida, mas que foi. Aí ainda tinha o coração no sítio, agora parecia ter desaparecido e sentia-o apenas ao longe, espalhado pelo corpo, a palpitar à ressonância de um coração que ela não trazia no peito. Abriu os olhos, viu à sua frente, muito parado, um pequeno pássaro a olhar para ela. Ficaram assim não sabem quanto tempo, num instante que parou o relógio, a perscrutarem-se pelo olhar, até que ele bateu asas rumo ao anoitecer que já se instalava. Deixou de sentir aquela ansiedade, o coração a palpitar onde lhe faltava colada outra pele que lhe levou o coração do peito havia muito tempo... respira fundo, pesado, e de entre os lábios houve um sussurro que ficou por ouvir "Existe melhor quem não pensa, vive melhor quem não sente. Viver é aprender a bater asas."

segunda-feira, 26 de junho de 2017


Recado ao próximo amor.
Nós fazemos - fabrico próprio, receita caseira.
Cumprimentos,
A Gerência

sábado, 24 de junho de 2017




... vamos lá pescar o São João no sítio das raízes dos ossos... dos meus ossos de ser.

[foto @ryanmuirhead]

As palavras que existem 
não chegam para te amar em palavras.
Se inventasse outras tantas
ficaria ainda outro tanto a faltar.

(...e eu que já não te amo... mas as palavras ainda não sabem, 
amam-te como dantes, soçobram agora, como dantes o meu amor)


[foto @bird.ee]

Talvez não nos faltar ninguém na vida seja só não acreditar em ninguém, não acreditar que há vida que rompe a pele de fora para dentro. 
Como é que se pode viver uma vida que não se sabe se existe? 
Do lado de fora da pele não se sabe nada, só se sabe o que se sente por dentro da nossa pele. Só o que é nosso tem existência real. Só o que é nosso é que podemos saber, do resto só desconfiar. E convém desconfiar bastante. 

sexta-feira, 23 de junho de 2017


... o sol atrás das grades.
É perigoso soltá-lo.
Ou soltarmo-nos.
Melhor tomá-lo as fatias
Ou sermos inteiros.
[a ilustração perfeita... e até me faz rir, sempre se aproveita alguma coisa..]

É engraçado quando num dia já esgotado de todos os tipos de pachorra de que já sou pouco munida de nascença, alguém que é um fornecedor, nos diz "ah pois mas pelo que vejo a empresa da senhora precisa muito mais de nós que nós da sua empresa"... gosto muito, acho até inteligente dizer isto aos clientes... isso e depois de muito andar à roda e de me cansar em conversas redondas, se sair "se a senhora tem tempo para escrever cartas destas..." e então uma pessoa rematar " pois tenho, não tenho e para conversas redondas como esta, já perdi tempo a escrever a carta, não vou perder mais ao telefone com o senhor, por isso se quiser responder responde, se não quiser não responde, nós actuaremos em conformidade. Muito boa tarde." e pronto, isto tudo para dizer que tenho de voltar a tomar o café com açúcar... irra!! Ou eu ando muito amarga ou o mundo anda muito estúpido, ou as duas coisas... é capaz de ser as duas coisas e em vice-versa também... para mal dos meus pecados.

e tu,
sempre tu
num prodígio de luz
a enlouquecer-me
as sombras

gil t. sousa


... e eu que pertenço às sombras,
à escuridão onde sempre me escondeste
e me encontravas.
e nesse encontro nunca dei por falta de luz,
nunca dei pelas sombras.
aninhava-me na luz do teu olhar,
que era a minha luz e o meu calor,
era o meu caminho e a minha casa,
mas era de sombras que tudo era feito,
e de ilusões
à sombra do meu amor que era poeira
duma vida maior que eu,
duma vida que não era minha





terça-feira, 20 de junho de 2017

[foto @keslertran]

"Caí no silêncio há vários dias. Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas as aves que ninguém sabe de onde partiram."

Vasco Gato

...ou que destino têm.
como eu, aqui... aqui ou em qualquer lado. a todos lugares pertenço e de nenhum sou pertença - ou assim o sinto nestes dias. coisa estranha essa, de querer falar e não saber de quê, não saber por quê, só esta aflição asfixiada na vontade de algo que me tire o peso de dentro - não de cima, de dentro, é o por dentro que me pesa e me encolhe, encarquilha o respirar -  este peso que não sei onde se esconde ou porquê, mas cresce e esmaga a esperança a cada esquina que não valerá a pena dobrar,  a cada palavra que se cala sem saber o que cala, a cada suspiro que não expira cansaços de alma... a minha solidão, por exemplo. essa ave que não sabe para onde voar ou donde é. das penas que a cobrem voaram as raízes, o ninho é onde se quer chegar, e quanto mais se quer chegar mais estranhos são todos os sítios onde paramos pelo caminho. nunca pertencemos na esperança de um dia pertencermos a um sítio que chamaremos nosso, que seremos nós. sítio, não lugar. lugar ocupa-se, vaga-se e reocupa-se, sítio é onde estará sempre parte de nós, onde somos ou fomos, mas permanece numa geografia temporal que não se move em nós, de nós. fica. como este sítio onde este peso me converge e chama a minha solidão de sua.

sábado, 17 de junho de 2017


[@paradoxos, poemografias de Heduardo Kiesse]


"Não ponhas palavras na minha boca, põe beijos"

... a não ser que beijo seja só uma palavra na boca.
A minha boca não é para qualquer beijo, 
nem para todas as palavras.
Há beijos que não me cabem nas palavras 
e beijos que me soçobram 
na alma do que não se diz,
e que disse nos beijos que não dei.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

[foto @s_fantine]

Às vezes dou por mim a escrever sobre as coisas como se ainda fossem reais, como se algumas vez tivessem sido, como se não houvesse recantos da memória que se inventam e reinventam sem nunca terem nascido na curva dum dia que se viveu, que foi. É (também) nessas alturas que as palavras desprezam a realidade e correm soltas para onde querem, mesmo onde nunca estiveram. Dou por mim a pairar sobre pensamentos e rastos de memórias, donde avisto algumas histórias como tendo servido ao menos para isso: para encantar as palavras e ser-lhes musa e mote, ponto de partida onde nunca se chega ou chegou, mas sempre algo que me vai acompanhando. Mesmo que eu me pareça cada vez mais distante, estou ainda terrivelmente perto, como um quadro por que passamos todos os dias... nuns paramos e admiramos, noutros quase o veneramos, noutros a pressa e o resto da vida asfixia qualquer encantamento ou contemplação. Qualquer que seja o dia o quadro está perto, mas tão longe que nunca faremos parte, nunca seremos ou fomos o quadro, mesmo que esteja na nossa parede... Tão perto que se alcança todos os pormenores, tão longe que as mãos não podem tocar. Talvez tudo isto seja parecido. Estou longe, mas, ao mesmo tempo, é esse o único encantamento interior que bebo, que me nutre e me afoga, em que me refugio e em que me perco, que me toca sem me aflorar. Reinvento-me a cada dia em palavras filhas de memórias que não inventei (tenho a certeza que não) mas que, aparentemente, não chegaram a ser reais. Um grande amor, forte, à prova de tempo e de todas as provas, é feito e vivido a dois. Eu sempre o vivi sozinha, sei-o agora... então quanto de realidade tem esse sonho? Não sei, mas vou-o escrevendo como sinto que o vivi, indiferente a qualquer outra realidade, ou talvez, à realidade... terá sido só uma realidade sonhada, ou um sonho mal vivido que corrijo escrevendo, o que vivendo, não chegou a realidade... mesmo que o tenha saboreado... e haverá diferença? Qual será a verdadeira diferença entre o realmente sentido e o vivido que nos submerge a pele num sonho que se sente?