quarta-feira, 17 de maio de 2017


True.
Nunca verbalizei a coisa assim, mas é assim que sinto. 
Quem precisa ser convencido não quer indubitavelmente...
...E a mim as dúvidas não me servem, nem me chegam, não nisto. Nunca nisto.


[foto @moniblanco]

Eu já não sou o teu chão, tu já não és o meu céu.
Foste-te embora, fechaste a porta de mansinho rumo ao teu futuro estrondoso. Deixaste-me preso às mãos o passado, trancada num presente sem portas, só paredes altas que tentei subir, escalar, saltar, desinventar... Escorreguei todas as vezes, nada me agarrava, eu nada agarrava... as mãos ocupadas que estavam com o passado que não larguei, que protegi do frio e das quedas, e até de ti. Não me deixaste portas nem janelas, levaste o céu, fechaste-o com um telhado emoldurado. Tanto me arrastei e esfolei e gastei, me reinventei mentida vezes sem conta, que agora esse telhado é chão, e o tecto estrelas carregadas de noite, nuvens esfiapadas de dia. Aqui, onde estou, vejo o passado mais longe, e o futuro mais a caminho de ser caminho. O que vejo mal, aqui de cima, é o presente, parece que não sabe cair, que não sabe onde estar. Não me assenta nas mãos, escorrega-me por entre os dedos desaprendidos de agarrar.
Sei que aqui já não és o meu céu, sei que tectos pintados de céu não vêem as nuvens mexer, mudar de formas, trocar de sentido, colorir o tempo, são uma mentira de céu que já nao me mente. Deixei de ser o chão pisado do teu caminho para longe mim. Não reconheço mais os teus passos como já não conheço as tuas mãos. As minhas já não conhecem as cores que procuram pelos céus não emoldurados que me chovem nos cabelos. Fecho os olhos para melhor ver as cores que tacteiam os dedos. Às vezes parece que as sinto. Cheiram ao que antes guardavam as mãos que não guardaste.
Tu já não és o meu céu, eu já não sou o teu chão.
Tu já não és céu, eu já não sou chão.
Falta-me céu, falta-me chão.

terça-feira, 16 de maio de 2017



Hoje acordei com fome de Alentejo e de todos os meus sinónimos dele: as conversas lentas aquecidas ao sol, bem servidas de um vinho fresco que nos brinca no copo entre os dedos e um prato bem recheado de sabores. Tive saudades dos brincos de Verão, pendurei-os de manhã nas orelhas para me sentir mais longe daqui, lá onde estou mais perto de mim, onde me sou mais e quero mais e sinto  sentir-me mais. Quero fugir daqui para os braços da minha alma em sossego, que se enche quando enche a vista de pores do sol que se entranham em nós, tanto que esse calor que  nos convence que a vida cresce quando se está bem e que os sorrisos nos caem bem, quando nos achamos mais perto de nós, mesmo que estejamos sozinhos, ou com quem nos deixa estar tão bem como quando se está sozinho sem solidão. Sinto falta disso, desse estar, sendo. E dos almoços prolongados no Sacas ou no Tranquitanas, e daquelas cores de por de sol que me fazem pairar na linha de horizonte como se o horizonte fosse só o meu olhar, ali ao alcance da mão, por o sentir aquecer-me o coração, congelado pelos dias onde mal me vejo e nem me quero sentir. 
Hoje acordei assim -  com vontade de lonjuras para me trazer por perto.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

eram tão simples
as nossas mãos

ainda tão simples
e prontas
quando
nos procurávamos

como se tudo
nos faltasse

gil t. sousa

[e só nos faltava faltar alguma coisa, 
agora falta-me tudo,
 faltam as mãos a procurar 
o que, afinal, 
nunca antes tiveram de procurar]

(para aguçar a vontade da Laura que não conhecia e para a ana que partilha este meu gosto pela poesia deste senhor :) que agora voltei a ter muita vontade de procurar e reler) 



Mood do dia.
Sábias palavras... 
E tambem há vezes que são só coincidências parvas... Ou decisões do destino impensadas, sei lá. Interessa não pensar nisso. Isso sim é uma excelente decisão: não pensar.

domingo, 14 de maio de 2017


...mais uma caminhada... estava tão cansada que quando a mandei sentar à espera do semáforo, na última estrada por atravessar, ela deitou-se... como agora, já na mesa e já deitadinha. A mim faz-me bem o exercício, o caminhar, o soltar os pensamentos ao compasso dos passos, que não se querem apressados nem corridos, ao ritmo de passeio que divaga e deixa divagar...
 Só espero que agora no regresso não chova, o dia não caminha lá muito seguro... e tem o seu direito às inseguranças, como toda a gente, eu é que seguramente queria fazer o caminho a seco... vinte minutos é uma molha valente...

sábado, 13 de maio de 2017

[foto @hairmanstyles]

A modos que acordei assim: com os dias despenteados na cabeça, sem modos nenhuns, incapaz de entender a vida... ávida de não querer entender nada, mas de me conseguir pentear sem perder o cabelo todo...
Bom dia!

sexta-feira, 12 de maio de 2017


...Há deslizes e deslizes...
e depois há quem tropece. Irremediavelmente. 
É uma chatice, não se sai do chão...
mas pode-se aproveitar para deslizar na mesma

[@bertrandlivreiros]

... mas há noites em que os fecho
 como se já fosse demasiado tarde, 
e as asas já não saibam voar para longe, lá, 
onde me deixo para sonhar sossegos.

quinta-feira, 11 de maio de 2017


E já há algum tempo que não... qualquer dia faz-me falta...
uma asneira ou outra...

(hoje apetece-me acabar o dia assim com disparates bem dispostos... há qualquer coisa a saber-me bem no dia... acho que é a sensação de me testarem e darem com as trombinhas na própria estupidez, fazerem braço de ferro, armados em homenzinhos, e partirem... ladram muito mas mordem pouco e só onde eu deixo... e agora vou-me pirar que realmente é uma boa deixa para deixar no ar...)

True Love Waits - Radiohead (A Moon Shaped Pool) from Finn Callan on Vimeo.


Talvez se embalarmos baixinho o passado ele adormeça e nós possamos acordar-nos o presente do agora - pensava eu, e procurei música com os dedos para me acalmar por dentro dos ouvidos, talvez para embalar... mudei para o cd sem saber qual estava lá dentro, saiu-me isto:


"I'm not living, I'm just killing time
Your tiny hands, your crazy-kitten smile

Just don't leave
Don't leave

And true love waits
In haunted attics
And true love lives
On lollipops and crisps"



Tirei-o para comprovar: está escrito a marcador preto, pela mão dum passado que ainda me treme e contrai, nalguns instantes, diversas eternidades ("alguns", penso que dizer agora "alguns" é uma vitória arrancada a muitas noites e dias em que me arranquei de mim para sobreviver-me... e ecoa-me a música... "I'm not living, I'm just killing time" ) .
Tive vontade de o atirar janela fora, mas mudei só para rádio outra vez, não sou moça para isso - para atirar coisas pela janela do carro, entenda-se...

(e se calhar para o resto também não... mas há dias em que as ganas me assomam as atitudes...)

Começou a chover, ouvia-se do sofá, vim para a varanda. Estou aqui enrolada na manta e sentada no degrau... oiço a chuva a refilar, ela a dizer mata o vento a dizer esfola, e as goteiras assustadas parecem tinir o medo dos inocentes. Sento-me mais para trás, mais dentro de casa, porque há gotas mais atrevidas e querem chegar a todo lado, e já me chegaram ao nariz e à maquineta que trago nas mãos a escrever. Gosto destes sons, gosto de ver a cortina de gotas gordas e frias a contraluz no candeeiro de luz quente da rua, gosto da chuva a cair, a lavar os dias do chão, a cair pesada, a arrastar o que já caiu. Devia haver uma chuvada assim na minha vida. Devia. Mas provavelmente só apanhava uma pneumonia, como os desgraçados que andarem por aí ao sabor da música da noite... 
Vou acender um cigarro, apertar-me mais dentro do calor da manta e apreciar a sinfonia... e o calor de encontro ao frio, como um privilégio; o seco em vez de ensopado como uma benção, os sons sem arranharem o silêncio como um sorriso que não precisa de rir. Coisas assim, que temos sem saber, que se sentem sem pensar. Coisas boas.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

[foto @fran_dominguez]


Há olhares que nos despem 
e olhares que nos fazem despir.
E destes, há os que nos deixam confortavelmente nus. 
Só quero esses.

terça-feira, 9 de maio de 2017

[...este também é importante...]


Que toda a tua refilice se transforme em ganas para defender os que amas e te amam
Que aprendas a questionar sempre e a valorizar a verdade
Que a tua teimosia se transforme em convicção que sustente a luta pelo que acreditas e queres
Que não sucumbas aos muros que se erguerem aos teus olhos e nunca duvides de ti
Que saibas, sem ter que pensar, que é importante chegar, mas nunca mais importante de como se chega, porque há vitórias que podem ser derrotas e derrotas a que só se sobrevive com a dignidade de ser.
Que nunca te esqueças que a beleza que encanta os olhos dura apenas um instante que se esquece, mas que os instantes bonitos por dentro são eternos e tornam-se raízes.
Que todas as desilusões não te transformem os sonhos em ilusões
Que os teus passos mais doridos não absorvam a vida que irradias
Que as perdas não te derrotem a alegria
Que a vida nunca te amargue o brilho desse olhar doce
Que saibas crescer como um ser humano digno, justo e sensível
... e que nunca largues a minha mão.
Que cresças, mas não deixes de ser a minha pequenitates, que há anos me fez mãe e passou a noite de olhos esbugalhados, a olhar para mim espantada com o mundo.
Palavras sábias do Menino.


Conta, mais que tudo, os que ficam, os que nos são, sempre e apesar de tudo.
Tudo o resto desconta-se da vida que um dia contaremos.
Espero.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Das homenagens singelas que não se escapam por entre as palavras não ditas, e me adoçam a existência dos dias. Bolachas de manteiga ou uns quaisquer biscoitos. Importa é que cheirem a mãe, que nos lembrem a sensação de casa, carinho, protecção: o último sítio seguro e o primeiro que lembramos quando precisamos de fugir do mundo e de colo. Andamos a vida toda a procurar outro onde nos sintamos, assim, acarinhados e seguros. De que façamos parte sem estranheza alguma.
Recordamos sempre os pequenos pormenores que fazem as histórias grandes, ou os afectos, que é quase o mesmo. 

sábado, 6 de maio de 2017

... Depois fica ali, a esvair-se em oportunidades perdidas, 
numa sobrevivência vã.

sexta-feira, 5 de maio de 2017


roubado à ana 

...roubado há vários dias e guardado até hoje nos rascunhos... não, não sei porquê hoje, mas foi hoje que em deambulações vim parar à distância pela mão da ana.
Lembro-me de a dada altura na minha vida chegar à conclusão que a distância não se mede em Kms, mas em saudades. Agora dou por mim a pensar que dizer isto não diz tudo. À primeira vista, depois de dizer-se isto, parece entender-se que quanto maior a distância, maiores as saudades.
E é agora, é este o ponto da minha vida, em que acho que isso não só não diz tudo, como pode dar uma explicação torta. Este é o ponto onde eu me debato sozinha com as minhas próprias definições e maluquices solitárias, onde vejo as ideias tão emaranhadas como uma meada de lã por endireitar redondinha num novelo com ponta por onde se pegue.
Dou por mim a pensar que na verdade saudades sentem-se quando duas coisas não se conjugam na mesma distância. Sendo essas duas coisinhas o estar perto do coração e da pele. Se estiver perto do coração e da pele não há saudades nem distância. Se não estiver perto do coração nem da pele, também nem nos lembramos de ter saudades, e se não lembramos, então não existem. Só nos lembramos, só emerge do nada o que nos existe por dentro. Quando os dois estão perto não há saudades, quando os dois estão longe, não há por que ter saudades... estão de acordo... Depois temos as dissonâncias, os desatinos, as desafinações de vida, e isso dá-se quando estando perto do coração, a pele não se consegue tocar senão em pensamento, ou quando a pele está ao alcance fácil do toque, mas no coração nada toca aquando esse toque. Aqui há lugar a saudades, saudades de alguém, ou saudades de sentir alguém que nos faça sentir.
Isto tudo porque o título que precede a frase da ana é "distância" e isso fez-me navegar entre as minhas distâncias e as minhas saudades e todos os caminhos entre elas.
Quando a distância é um caminho que se pode percorrer então é de espaço entre corpos que se fala, mas não de almas; quando a distância são caminhos de alma sem volta, é de espaço entre almas que se trata, e este não se consegue percorrer encurtando o espaço entre corpos.

...fiquei a pensar que distância seria aquela da frase da ana... mas sei que eu queria aquela. 

Digam o que disserem, não me apetece levantar. Quero ficar aqui. Está quente, está confortável, está longe do mundo. Quero dormir até não poder mais, porque só assim a cabeça, de vez em quando, consegue descansar de si mesma, ainda que nem sempre. Pouca coisa no mundo lá fora me puxa, me dá vontade de sair daqui. Ontem e hoje está pior, não sei porquê, ou talvez saiba mas se penso nisso apetece-me adormecer outra vez, fechar os olhos como quem não ouve chamar. Se um dia ficar sem o que fazer ainda vou ficar pior, não sei o que me arrancará da cama e dos confortáveis e fortes braços de Morfeu, que apagam a memória, que nos deixam num sítio sem passado e sem futuro - onde o tempo não é eixo, e eu um excêntrico sem-fim.
Tenho de me levantar e não me apetece. Nada. Nem percebo para quê... O mundo é sempre tão injusto, para quê tentar alguma coisa? Para quê se nunca me choverá felicidade na pele? Para quê se estou melhor aqui longe da existência, onde não existir é seguro e confortável. Não me apetece nada de coisa nenhuma. Levantei-me cedo para levar a miúda à escola, agora não tenho razão suficiente para contrariar todas as forças da natureza que me derrotaram e deixaram aqui, deitada, exangue de vontades, preguiçosa de sobreviver.
Olho para a janela e gosto da luz, da maneira como a luz direita se torna ondulante, insinuante do que esconde mostrando, da cor que o cortinado lhe dá, da transparência que deixa ver mas domestica a luz... gosto disso tudo, mas nem isso me apetece escrever, e tudo o que me ponho a pensar, só por olhar, dava um texto, mas não tenho vontade, escrever já não é uma ponte, é onde fica cada uma das minhas coisas não ditas. Não me apetece escrever a beleza das coisas, como se não tivessem onde chegar as palavras, e não é suficientemente avassaladora para precisar escrevê-la porque me extravasa, porque me compromete as costuras do quotidiano mediano, porque simplesmente não me cabe. Então olho só e penso. Mais ou menos como a vida: sobrevivo só, e respiro. Como se isso chegasse.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

["Não me canso a negar-te, canso-me a esquecer-te. Brotas-me até do esquecimento, como se nunca te tivesse esquecido ainda." - kms feitos e as palavras a perseguirem-me as mãos. Condescendo. Desta vez. E como detesto a palavra condescendência e todas as da família... Mas condescendo e paro o carro antes de ir para casa, como não fazia há tempos, depois de voltas à cidade a entreter as mãos como se as mãos me contivessem inteira, e se fosse assim eu estava nas minhas mãos. E talvez esteja. Só me parece que não.]

Não tenho mais palavras
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda parte)
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão,
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo que te dizia...
Agora, somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a paz na teimosia.

Miguel Torga

Gastei as palavras, gastei, mas nunca a negar-te. Não me gasto a negar-te, seria negar-me.
Tento que as minhas palavras sejam sempre filhas da minha verdade e a minha verdade nunca foi mentir-te em mim, porque mentir-me seria. Nunca. Gastei as palavras, verdade que gastei, gastei-as a amar-te, gastei-as a entender-te, gastei-as para que entendesses as minhas verdades em ti. Agora estão gastas, as verdades e as palavras, faltam-me, rolam-me para dentro da boca, caem no vazio que me tornei, caem para dentro de mim, onde tudo se perde e eu tudo guardo. Resvalam como pedras lisas e macias que a água amaciou e agora escorregam quando não as agarramos firmes, com vontade de as ter nas mãos. Nunca as oiço bater no chão, nunca, não sei onde páram, mas oiço-as ainda, às vezes, quando o silêncio me invade... Estranho não é? ouvir palavras no silêncio? e não deixar de ser silêncio?... Como uma companhia que não nos afasta da solidão. 
Agora não quero as palavras fora de mim, não essas, as gastas, as tuas, as que me chamam com o teu nome. Quero-as engolidas pelo vazio com que fiquei. Percebo que então as palavras somem, fogem-me de debaixo da língua para a escuridão da asfixia sem mãos - sem passar pelas mãos, sem passar por as dizer. E sem as desdizer. Gastas apenas. Cansadas de ti. Ainda não aprenderam outro caminho até às minhas mãos, estas mãos que as negam vezes sem conta.

Nas costas da minha cozinha há uma janela onde escorrem pela vista deliciada os cabelos de uma laranjeira. 
Bebo a minha chávena de café com leite e penso como invejo aquelas flores, esse florir a cada primavera, e a cada vez, e sempre, com uma beleza virgem, pura, inocente, como se o tempo não passasse e aquela fosse a primeira primavera. O olhar fixa-se nas flores que enfeitam os ramos verdes num proliferar fresco e simples, de gaiata sorridente. Gosto daquela simplicidade despretensiosa e penso que para cada flor aquela primavera é única, é a única. Dará fruto e morrerá a seu tempo - cada ciclo é um tempo a que não sobrevive, onde se morre apenas uma vez. Na próxima primavera outras flores, outros frutos. Por isso a primavera é sempre tão fresca, tão cheia de vida, feita de flores novas, imaculadas, e cores espantadas de existir. A árvore... A árvore sobrevive, vê nascer e morrer, alimenta e deixa cair, a pele é dura e a cor é escura, como a cara da sobrevivência, como as camadas de tempo que acumula sem esperar uma primavera diferente. Mas a cada primavera nos seus braços nascem com a mesma força, com a mesma beleza, com a mesma pureza, flores que darão fruto, como se aquela primavera fosse a primeira, a única. 
A chávena está vazia e o olhar, por florir, mais invejoso.


espelhos
circuitos fechados
em si mesmos

Desabridos ao mundo

não quero que me espelhes
quero um espelho do meu amor
fechado, completo

eu e tu
amor fechado
aberto ao mundo
os meus olhos nos teus
o teu corpo no meu
as bocas na palavra não dita
dum beijo
que nos desfaz num só 
simétrico de afectos.
não quero que me espelhes
quero que espelhes amor
percebes?

Se conseguisses perceber
Percebias que não se explica
O que saberias sem entender

quarta-feira, 3 de maio de 2017

[@iheartintelligence]

...e mostram, principalmente mostram-me. 
Ainda me denunciam, escancarada, no fundo negro dos olhos escuros que me despem da pele, tudo o que tranco a sete segredos dentro destas paredes do ser. 
Ainda gritam na escuridão desse negro fundo sem fundo, o que não posso sequer sussurrar. Vestem-se os olhos para que não me dispam das máscaras de sobrevivência ao mundo... Essa pele que virou carapaça de selvagem acossado de razão.
Há bocado a lua estava linda no vidro da janela, parecia sorrir de esguelha. Dei por mim a inclinar a cabeça para ficar direita e a rir-me com a estupidez da cena, pensei escrever alguma coisa mas não me apeteceu ir buscar os ferros para desenterrar palavras do luar que me ficou no sorriso, fiquei-me pelo sorriso que me arrancou. E agora, aqui sentada no degrau da varanda, queria arrancar daqui e nao me apetece.. E amanhã o dia vai ser corrido, e eu sem vontade nenhuma de correr. Gostei das caminhadas destes dias vagos, fazem-me bem e ando a precisar de andar, de me mexer. A patudinha faz sucesso por onde passa, acabo sempre por trocar meia dúzia de vezes meia dúzia de palavras e alguns sorrisos com desconhecidos, e gosto disso. Talvez esteja menos bicho do mato. Talvez. Mas certeza tenho do sono que vou ter amanha, isso tenho, entre outras que já não discuto. Talvez precise mesmo de me dar paz, de discutir menos comigo. Escrevi isto e percebo que devo parecer esquizofrénica... Valhamedeus...

terça-feira, 2 de maio de 2017

Vi e lembrei-me dos corações apelidados de desguarnecidos pelo Impontual... 
... muito a propósito...
O cheio é limitado, 
o vazio por preencher pode ser infinito.

Tenho de voltar a ler o livro*. Há qualquer coisa naquele livro de inacessível na primeira leitura, algo á que não cheguei, não consegui ir ao fundo de todos os pensamentos, é intrincado e tão interior. Tive de me levantar e vir fumar um cigarro, alguma coisa mexeu comigo. Sei que tenho de voltar a lê-lo, daqui a uns anos, terei de voltar a lê-lo. É o segundo livro que leio e que me deixa esta sensação, o outro li três vezes e arrumei-o no Verão passado - está a fazer um ano, curiosamente, como outras coisas aliás - depois de o ler três vezes, e até achar que o li todo. Também neste fiquei com a ideia de que há camadas a que não fui, apenas as vislumbrei sem consciência nos olhos, e esta sensação inquietante e aterradora de que muito ali me é familiar. Reconheco, reconheço-me. Há coisas que ela descreve que eu sinto às vezes, ou que senti, ou que penso, sem saber que estou a pensar. Como ela diz, há coisas que nos vêm como resultado intuitivo do que já pensámos muito racionalmente. E isso acontece-me. Muito. Depois tenho de parar e escalpelizar cirurgicamente cada ideia dessas, cada pensamento, cada ideia que me sai baralhada por nao saber identificar donde veio, ou como me chegou, para poder entendê-la, cosê-la com uma linha que se consiga prender, seguir, ler, entender. As últimas páginas são absorventes, o culminar do acordar para a existência consciente, para a vida, para o eu. E como tudo se mistura. Só chegamos a nós mesmos através do amor, mas só atingimos o amor sendo nós mesmos; é um espelho de aproximações ao mesmo objecto em sentidos trocados, porque se trocam, porque há uma troca, um dar e receber. Quanto mais for eu mais amo, mais tenho capacidade de amar e ver o outro, e sou cada vez mais eu quanto mais amar. É como chegarmos a nós através duma porta que só podemos abrir do lado de lá. Mas abrimos. Se do lado de lá estiver uma parte de nós no outro. E é essa parte que nos acorda em nós o que não sabíamos ter, o desabrochar como ela escreve, e assim há uma plenitude de parte a parte...Talvez seja por isso a frase "nós somos amor". Porque só assim, pelo amor, chegamos a conhecer inteiro o verdadeiro eu, a ter consciência de nós, do que somos e do que podemos ser. Só quando não temos medo do outro, do que ele veja - só aí os nossos olhos abrem para tudo o que temos dentro. E depois de nos vermos assim, não temos mais medo que os outros nos vejam ou como vejam. 
Tenho de voltar a ler o livro, não tenho dúvidas. Agora tenho de fumar um cigarro. Alguma coisa neste livro me alvoroçou. Me fez sentido. Me encontrou num desencontro qualquer.

* Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, Clarice Lispector 

domingo, 30 de abril de 2017

Caminhadas de sossego...

Sentada num muro onde o sol 
desenha as últimas sombras do dia

Enquanto enquanto a patuda fareja os carros que passam
 numa bolina longe da nossa vagareza.


sábado, 29 de abril de 2017


Gosto quando as pessoas abraçam a paixão que têm. Quando dedicam o seu tempo ao que gostam e fazem-no com simplicidade e inteligência, sem mais razões a acrescentar. Finalmente convenci a moça a fazer da sua paixão também um hobby de que mais gente possa partilhar. Para quem tem o cinema por paixão, sem falsas erudições e pruridos, acho que irá gostar de conhecer esta cinéfila inveterada... Eu gosto.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

[foto Laura Williams]


És o único mar da minha cartografia.
Mas talvez haja uma ilha que te fenda
Um continente que te feche
Um terramoto que te afaste
Um oceano que te engula

Só se mapeia o que se conheceu
Mas nos pés trago viagens por calcorrear
Paisagens por pintar
Risos por gargalhar
Chuva por lamber 
Sol por aquecer
Vida por beber a passo firme

Mesmo que não chegue 
a cartografar o destino
no desatino de o não encontrar
Levo o mapa no bolso
Só para o caso de ter de te corrigir 
De te pôr no lugar
E deixar o meu coração no sítio, 
perdido dos sítios que se perderam

Li aquilo e desliguei a luz à espera de fechar algo em mim. Mas a escuridão  bailou-me nos olhos abertos durante muito tempo. Quando os fechei, sem dar conta, entregue ao cansaço, mergulhou-me na alma, e ainda não saiu de lá. A tristeza tem-me submersa. 
Tenho de aprender a respirar outra vez para querer emergir, para precisar emergir para respirar.
Hoje é igual a ontem - podia dizê-lo, não é mentira, mas não diz a verdade; uma especialidade de artistas que manipulam luzes e sombras, verdades e mentiras que não o são, sendo-o. 
Está tudo igual, tudo continua na mesma, no entanto, tudo mudou. Por dentro, no avesso de tudo que nos acontece, que nos respira e tem a nossa história, lá, onde não se vê, mas onde se vive ou morre, tudo mudou.

quinta-feira, 27 de abril de 2017


Uma cadeira pode estar vazia, mas não deixar de ser o sítio de alguém.
O lugar na cadeira pode ser ocupado, mas o sítio não.

Lugares podem ser ocupados e variar, podem ser substituídos na sua ocupação. Os sítios não são lugares, as coordenadas -  a haver -, podem não ser sequer geográficas.
Sítio é uma pertença sem lugar.
Um lugar sem pertença é só um espaço a preencher.
Acho eu.
[foto @kat_in_nyc]

"É que o carinho entre os casais não são jantares fora nem fins de semana na praia – isso são banalidades da classe média, são agradáveis, mas não são carinho.
E a intimidade não é ver séries juntos – isso é amizade, proximidade, cumplicidade até, mas intimidade é outra coisa.
Carinho e intimidade é encostar a cabeça no ombro, é deixar pôr a mão dentro da roupa, é cheirar a pele, é apalpar a mama só porque é bom, tocar com o dedo aqui ou ali porque sabe bem, sentir a tesão do outro, mesmo que seja só para ter tesão.
Depois disso pode ser que haja mais coisas, ou então não. E não importa: já se deu a essencial."

A intimidade pela mão  do Menino como se fosse pela minha, mas muito melhor.

Não, a intimidade não é viagens ou jantares fora, é acima de tudo jantar juntos, rir juntos, sentir o silêncio juntos se sem dar pelo silêncio, é a pele não ser estranha ao diálogo, à brincadeira, é saber que juntos não é medido pelo espaço entre os dois ou pela falta dele, é uma comunicação que não se cala, é uma presença que é e não que está - é um ser juntos em vez de, apenas, estar juntos.
É um "juntos" que não é estar perto, é ser de dentro, é essência.
É ser parte do nosso essencial.
É sublimar-nos.
A essência é sempre sublime, como a intimidade.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, Clarice Lispector

"Parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente"
"Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida toda." - às vezes perder algum tempo com a pessoa certa é perder o resto da vida toda. Fica hipotecado o futuro com um pedaço de passado...
"Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregues à nós mesmos, pois isso seria o começo duma vida larga e nós à tememos." - os sonhos que se acalentam, se os vemos a erguerem-se do chão, onde temos os pés, temos medo, fugimos a sete pés de termos o que sempre quisemos com o medo de não ser o que queríamos, o que vamos querer sempre. Prefere-se não começar uma vida entregue a nós e ao que desejamos porque falhar é catedral maior a desabar-nos nas costas, no peso a suportar. Prefere-se nada se fazer do que falhar sonhos, antes falhar realidades, que é o quotidiano de todos, a morte quotidiana e comezinha, das dores menores, com medo de suportar a dor maior - a do sonho falhar e deixar de ter o que sonhar...
"Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que a nossa indiferença é angústia disfarçada." - grande frase esta última, o mundo parece-me demasiado cheio disto. Fingir amar para disfarçar a angústia de não amar. Penso que será ainda mais angustiante fingir depois de se ter amado, mas espero não vir a comprovar. Não gosto de disfarces nem de disfarçar e para angústia basta-me a de não saber se voltarei a amar, dispenso o fingir amar para maquilhar indiferença pura, só para não estar sozinha com a angústia duma incerteza de entre tantas...

... O passeio já não chegou a tempo para as pernas, mas os olhos ainda se passeiam nas cores-promessa do calor futuro que há-de colar-se à pele. 
Talvez amanhã. 


...era um daqueles sorrisos, que se tivesse dentes, mordia.
Sorriso franco.
Sinceramente irónico.
Inocentemente sarcástico.
Bonito, mas perigoso... talvez por isso.
Daqueles sorrisos que nos levam
e, sem sabermos,
nunca mais nos regressamos. Nem queremos.

(Aparecem-me frases, assim, sem mais, algumas não sei o que lhes fazer, não parece que sirvam para nada, vou guardando... Como migalhas no fundo do bolso ou palavras estendidas na corda à espera de serem vestidas por um fim de tarde qualquer, a seguir a uma reunião chata...agora apetece-me casa, despir o vestido, enfiar umas calças de ganga, umas sabrinas e ir aproveitar um passeio com muita pinta aos últimos raios de sol se chegar a tempo de ainda os apanhar... e é o que vou fazer. Já.)

terça-feira, 25 de abril de 2017

...acordar com um telefonema de trabalho, 
do lado de lá o riso solto agarrado a um "ahhhh voz de cama...", 
desligar, 
ler meia dúzia de páginas que falam a minha língua, 
desligar outra vez, 
agora o mundo, e voltar a dormir.
 Ahhh dormir.... coisa tão boa!!...
Acordar com uma dois pares de patas, cheia de pinta,  a lamber-me a cara... E começar o dia assim,
 com a música dos pés a acordarem o corpo pé ante pé, ao ritmo do respirar da pele.
Assim. 
Bom dia!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

[foto @diego_durden]

Onde a desconfiança rasga, 
a intimidade quebra
Onde a cumplicidade definha, 
a mentira cresce 
Onde a distância se acomoda
a proximidade incomoda
Onde o frio se instala, 
o amor estalou há muito

Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, Clarice Lispector

Será real, possível, escolher-se a mediocridade por se ter medo da felicidade?? Será que isto existe mesmo? Será que se consegue escolher a infelicidade? Escolher mesmo, em consciência? Isso não será contra todo o instinto de sobrevivência? Contra toda a essência?
Ou à sobrevivência chamam a intenção de evitar uma dor insuportável, que é a de conjugar a felicidade no passado e ainda lhe sentir o gosto doce a apodrecer na boca? E por isso preferir a mediocridade, desculpando-se com a sobrevivência. E essa mediocridade não será insuportavelmente dolorosa? 

[Não acredito, acredito que por sobrevivência, em tendo escolha, se escolhe sempre o que achamos fazer-nos mais felizes.]

domingo, 23 de abril de 2017

[foto @tinorenato]

De que serve o céu ser imenso 
se só vimos o que os nossos olhos alcançam?
Para que é que o mar une todas as terras 
se os nossos braços não o conseguem atravessar?
Por que é que o sol é tão forte 
e a pele sedenta tão frágil?
Por que é que o amor é infinito se os seres são tão limitados?
..., ou será por isso?

(Perguntas perguntas perguntas, e a vida não responde, acho que quando não sabe, combina com o tempo e muda-nos as perguntas...e nós fingimos que esquecemos, ou esquecemos mesmo?)

sábado, 22 de abril de 2017


[foto @kat_in_nyc]
... Onde me levas? É sábado de manhã todo o dia, lembras-te?
- vou-te levar a almoçar.
- não podemos almoçar na cama?... Humm?
- não, está sol, vou-te levar a almoçar fora!
-bahhh... Não quero, quero ficar aqui contigo, comer qualquer coisa e continuar a manhã...Entao e vais-me levar assim ao colo?
-sim, a varanda é perto... 
Riu-se e meteu o nariz entre o braço dela e o pescoço dele, cheirava a fim de semana, a ronha doce e a um dia só deles, só com coisas deles, ridículas como um dia de sol desperdiçado...

[as coisas parvas que me ocorrem por me pôr a ver fotografias...]

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Há pessoas com uma tal cara de pau, que o creme de barbear deve ser óleo de cedro, só pode (e eu não sou especialista em óleos... Nem em cremes de barbear, já agora). É o que me apraz dizer a caminho de casa a esta hora, com a espinha vergada ao cansaço e os nervos emaranhados de irritação... 
... Às vezes o ódio está a uma faísca de distância, outras incendeia sem darmos pela faísca.



Almoço com escapatória na vista. 
Escapar de quê?
Escapar para onde?
Tenho de voltar a apaziguar-me depois de tantas constatações e clarividências e sonhos reveladores de verdades sabidas e não sentidas até agora. Tenho de voltar ao antes com os olhos do depois, com que agora olho tudo. Tenho de voltar a arredar sentimentos com a força do pensar, e arredar pensamentos na força do sentir, como se arredam móveis para limpezas mais fundas, para apagar as provas do tempo que passou e se esqueceu de ser, de nos ser.
Ocupar a cabeça, limpar anos inteiros e afastar palavras antigas embrulhadas em papel de rebuçado, que afinal são doces baratos para todas as mãos. Mas não é novidade. Nada é novidade. Não há novidades que se aproveitem nos dias. Nao, não posso dizer isto, é injusto, algumas novidades vão sendo boas, por não piorarem nada, por serem bons sinais e nos deixarem poisar e respirar um pouco. Há coisas boas. Que há. Pena haver ainda tantas más agarradas ao sangue que sente e circula vezes sem conta por dia, pelo corpo acima, pela alma abaixo. Precisava de purgar a vida disto tudo. Ou talvez ela mesma o faça. As palavras só já não chegam, precisava de mais, de muito mais, que é tão pouco.

Tenho medo do vento. Não sei voar. Descasquei as feridas das asas que me descalçaram, e não nasceram mais. As asas não eram minhas, nunca soube voar. Tenho medo das mãos de vento e dos corações de corrente de ar. 
...e  a minha companhia patudinha para esta sinfonia do vento tem tanto medo como eu, parece-me. E qualquer dia não cabe no caixote. Eu já não caibo há muito tempo e ainda tenho medo. Preciso dum caixote maior, para ela e para os meus medos. Eles também já não cabem no caixote. Mas disso já não tenho medo, sei que eles se moldam para caber, ajeitamo-nos a disfarcar a falta de espaço, porque livro-me de poucos... Mas tenho cada vez menos medo que me descubram, que me saibam, e cada vez mais medo de me descobrir e de me saber como não me quero, como não gosto. Os outros importam-me cada vez menos, aqueles que não são meus e de quem nada sou. Dos meus tenho cada vez mais medo que descubram que me falta tudo o que gostam em mim. E isso cabia no caixote.

quinta-feira, 20 de abril de 2017


A noite está boa, de quase Verão. Há coisas que não faz mal serem quase, outras que se forem quase, não chegam a ser nada. As vezes o quase é estar tão perto que nunca se chega, outras o quase é já ter chegado a algum lado, mas não exactamente onde se quer. Às vezes é difícil saber se isso é alguma coisa - se nos serve de alguma coisa, e ao que queremos realmente, à nossa felicidade. Se quase servir não é. Quando não se sabe o que se quer, qualquer coisa serve e não chega a ser quase. Não serve de nada para nada. É um quase nada. 
Como isto que escrevo, que me surge do nada por quase nada, numa noite de quase Verão, com o último cigarro nos dedos quase fumado. Quase não tenho frio, mas ainda tenho.

quarta-feira, 19 de abril de 2017


Quando passo por fotos como esta que me lembram sessões de cinema, lembro-me daquela vez em que me saiu - sem filtros - a frase "apetecia-me ir ao cinema, mas não ver filme"... houve quem tivesse achado piada à frase, quem se tenha rido e a tenha sentido (penso eu), mais do que entendido, como eu a senti sem pensar, quando me saiu. Pela piada que lhe achou ou pela semelhança de ideias, não sei, guardou-a na algibeira das conversas para a ter sempre à mão para me dar de troco. E deu, várias vezes, acompanhado dum sorriso que me endividou a alma.
Ainda me lembro. Mas já quase não.
Agora lembrei-me, mesmo não sendo dia de cinema, mas apetecia-me. Não o filme.
(é melhor sair destas quatro paredes enquanto há luz e sol e não fazer mais filmes... nem dizer mais disparates, ou tentar)

...pois eu só há um e mais nenhum, autocarros é o que há aqui mais... 
ehehhehe

Bom dia


Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, Clarice Lispector

"Parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente"
"Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida toda." - às vezes perder algum tempo com a pessoa certa é perder o resto da vida toda. Fica hipotecado o futuro com um pedaço de passado...
"Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregues à nós mesmos, pois isso seria o começo duma vida larga e nós à tememos." - os sonhos que se acalentam, se os vemos a erguerem-se do chão, onde temos os pés, temos medo, fugimos a sete pés de termos o que sempre quisemos com medo de descobrir não ser o que queríamos, o que vamos querer sempre. Prefere-se não começar uma vida entregue a nós, e ao que desejamos, porque falhar é catedral maior a desabar-nos nas costas, no peso a suportar no caminho que faltar andar. Prefere-se nada se fazer do que falhar sonhos - antes falhar realidades, que é o quotidiano de todos, a morte quotidiana e comezinha das dores menores - com medo de suportar a dor maior, a do sonho falhar e deixar de ter o que sonhar...
"Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que a nossa indiferença é angústia disfarçada." - grande frase esta última, o mundo parece-me demasiado cheio disto. Fingir amar para disfarçar a angústia de não amar. Penso que será ainda mais angustiante depois de se ter amado, mas espero não vir a comprovar. Não gosto de disfarces nem de disfarçar e para angústia basta-me a de não saber se voltarei a amar, dispenso com a força da vida que me resta nas veias, o fingir amar para maquilhar indiferença pura, só para não estar sozinha com a angústia duma incerteza de entre tantas...

segunda-feira, 17 de abril de 2017


Estou eu a fazer o meu jantar com alguém aos meus pés ( o que poderia ser um bom augúrio... não fosse o jantar ser só para mim e o ser aos pés ter quatro patas e pêlo a mais...) como já é hábito e lembro-me de aqui há uns dois anos alguém me dizer "Ah e tal porque é que não arranjas um cãozito?"... E eu responder... "Irra ainda não estou assim tão encalhada!!...acho que esse deve ser o último reduto... Eu ainda só estou encalhadita, vá... "
E, pronto, é isto... tenho a pintarolas enrolada nos pés. Valha-me o rir-me das minhas próprias parvoeiras...


Irrita-me já não escrever como dantes, dói-me como se me tivessem arrancado um bocado de dentro de mim à dentada, e a frio. Irrita-me porque sei que não escrevo assim porque já não é para ele que escrevo, já não é para ninguém que escrevo, escrevo para me falar, só. Não para me dizer a alguém. Só para mergulhar em mim e chegar-me a sítios onde não me chego se não estiver fechada dentro duma folha em branco com palavras. Uma dimensão de mim que agora só existe em palavras, em sons, em sorrisos por dar e palavras guardadas por dizer. Um a dimensão de mim que morreu e respira pelas palavras e suspira entre virgulas, agarra-se às reticências como a uma cura por vir não prometida.
Às vezes vou passear por outras vidas, vidas minhas que já não são, vou ler-me e surpreender-me com o que dantes me saía dos dedos da alma, e há uma revolta daninha no peito que me esmaga por já não saber escrever assim, de já não sentir assim, de já não ter a quem entregar as palavras para me saírem assim. Leio-me no passado e espanta-me terem saído de mim, e entristece-me que tudo tenha sido para ele, dele, e que nunca nada tenha sido suficiente. Se o melhor de mim não chegou, se não chega nunca a ninguém, para que sirvo eu? E agora ainda mais, amputada de sentires e de palavras, que se não as tenho sem ele, eram dele. Se não fossem dele não desapareciam com ele - e a revolta esmaga-me o peito ao ouvir-me por dentro, por sentir, por perceber isto; revolta que não se domestica nem acalma. Se fossem minhas as palavras, ainda as tinha a lavrar os dias como quem lavra o vento, incessantemente, pelas velas enfunadas da alma. 
Fecho-me dentro de palavras antigas e vejo que havia uma parte de mim arrendada, ou talvez tomada de assalto, invadida, que era dele, era ele em mim antes de o saber ou conhecer, habitava-a  e habitava-me, e eu que pagava a renda, religiosamente, todos os dias com amor, com ternura, com desejo, e ainda assim fui despejada. Despejada de mim, despejada por ele, sou devoluta de mim mesma. Quero habitar-me, devolver-me, apropriar-me de mim e das palavras que me espelham, que me são, que sou. Quero ser casa própria em todas as assoalhadas. Não quero ninguém em mim que me seja mais eu do que eu.



Se calhar a simplicidade mais pura, mais feliz, é quando se está sozinho. Estava a pensar nisto quando à tarde num passeio a seis patas pelas redondezas me deparei com esta frase da fotografia. Faltava-me aquele bocado... quando se está sozinho sem inquietação. Sem solidão. A solidão é a falta de alguém, de alguma coisa, e toda a falta que corrói é o espaço duma inquietação. 
Se calhar a simplicidade mais pura, mais feliz, é quando se está sozinho em paz.

[fiquei a pensar que àquela frase só falta o "n" em reinventar, mas que, de resto, está lá tudo. Agora quando a pus aqui fui pesquisar a autoria da frase (quem teve a indecência de a pôr lá, teve mais decência intelectual que muito pseudo-intelectual erudito por aí, que não põe aspas no que não é seu..) e descobri que é de Vergílio Ferreira, no livro "Alegria Breve", que não li. Gosto muito do que escreve, um dos volumes do seu "conta-corrente", é meu livro de cabeceira, para reler às vezes numa página aleatória, há vários anos, porque faz-me pensar. Como esta frase acabou, completou, o que vinha a pensar no silêncio doce dum passeio de domingo vagaroso a seis patas e muito sol.]

domingo, 16 de abril de 2017


A danada a roer-me uns chinelos...
A danada apanhada, já sem o chinelo nos dentes...
A sacaninha com ar quase arrependido...
... Mais um domingo de manhã, daqueles domingos com aquelas manhãs que duram até quisermos, duram quase até à noite. 
Há dias em que só me apetece ver o sol passar da minha varanda. Eu passeio os olhos pelo passeio dele e ele passeia-se-me na pele. E durante estes passeios, às vezes, consigo não pensar em mais nada... E então a alma descansa, domingueira.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

...então boa Páscoa. 
... mas vejam lá, não cansem demais o(a) coelhinho(a)...
;))


Clarice Lispector, in Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

Adoro isto.
... Talvez fosse bom experimentar essa silenciosa alma animal.

"Ter uma inteligência mas não entender"; "ter loucura sem ser doida"...
E sempre que se pensa que se entendeu algo, usando a inteligência, então, entendemos errado. Quase sempre. Compreender é sempre errado, não ousar entender é ousar nunca errar. Adivinhar, pressentir, sentir saber pelas sensações sem qualquer razão, adivinhar, é uma espécie de curto-circuito, como um amor correspondido para Beckett... É raro, mas não será impossível. A vantagem do impossivel é que nunca se prova.