sexta-feira, 14 de abril de 2017

...então boa Páscoa. 
... mas vejam lá, não cansem demais o(a) coelhinho(a)...
;))


Clarice Lispector, in Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

Adoro isto.
... Talvez fosse bom experimentar essa silenciosa alma animal.

"Ter uma inteligência mas não entender"; "ter loucura sem ser doida"...
E sempre que se pensa que se entendeu algo, usando a inteligência, então, entendemos errado. Quase sempre. Compreender é sempre errado, não ousar entender é ousar nunca errar. Adivinhar, pressentir, sentir saber pelas sensações sem qualquer razão, adivinhar, é uma espécie de curto-circuito, como um amor correspondido para Beckett... É raro, mas não será impossível. A vantagem do impossivel é que nunca se prova. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017


Se precisas de um beijo hoje para que a tua realidade pareça inteira,
 hoje é o teu dia.
Se beijas para que os dias te sejam inteiros,
todos os dias são teus.


[e se alguém se perguntar o que raio faz esta foto a ilustrar um post no dia do beijo (dizem que é internacional o dia e tudo...), eu só posso alegar, em minha defesa, que há coisas que não se explicam; se alguém não as entende sem explicação, não há explicação possível que os faça entender que há olhares que nos beijam de tal forma que a alma resplandece em sorrisos assim, como o da foto: a que não tem beijos.]

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Jean-Luc Godard (une femme mariee)


"Sabes, ainda vejo.
Aquele indicador esticado, a enrolar e a desenrolar, o cabelo negro, enquanto lês O. Wilde no sofá, a mostrares as pernas, dobradas, com a minha camisa vestida.

Sabes, ainda vejo.
Aquele olhar, verde, penetrante, cortante, as pupilas dilatadas, as pestanas ainda maiores, que só acabava no quarto, com um suspiro.

Sabes, ainda vejo.
O morder do lábio, em gesto nervoso, sedutor, de quem me quer falar, confidenciar, um pensamento ou um desejo.

Sabes, ainda vejo.
O sorriso, maroto, terno, em busca da minha indignação porque não sabes comer esparguete.

Sabes, ainda vejo.
A pasta dos dentes aberta, porque tu nunca, mas mesmo nunca, a fechavas.

Sabes, ainda vejo.
E sinto. As tuas mãos no meu rosto, quando eu definhava, e tu, fria e assertiva, me gritavas "viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe.", do teu querido O. Wilde.

Sabes, ainda vejo.
Os dias que eu nada dizia, ou quando por tudo, ou por nada, tu vias-me, tu sabias adivinhar o meu pensar, e fazias gala nisso.

Sabes, quando o teu cabelo passou a negro brilhante, o verde dos olhos ficou maior. Sabes, só de olhar-te, a dormir, como dormem os deuses, eu tinha tudo.

Sabes, é claro de sabes. Afinal dei-te tudo.

Sabes como sei? Porque não esqueço, que o que escrevi, disseste-me tu ao ouvido sobre mim, no dia que partiste.

É curioso. Sabemos que estamos perante uma das mulheres da nossa vida, como amiga, ou amante, quando lhe reconhecemos as pequenas coisas do dia-a-dia, e gostamos dos seus pequenos gestos e trejeitos.
Sabemos da importância de alguém, quando esse alguém, nos olha, e sabe, sem nada dizermos, o que se passa cá dentro, o que nos corre no íntimo, sem ser água ou sangue."

conta corrente (aqui), in como olho e as vejo
(lá saiu dos rascunhos, CC)


" só de olhar-te, a dormir, como dormem os deuses, eu tinha tudo"...
...mas sabes, nunca tive nada. Nada de ti, nada teu, nada que me quisesses dar, a não ser o lugar de alguém que tinha tudo só de olhar-te dormir, não tendo nada, não querendo mais nada.

Sabes, estou forrada de memórias de pequenas coisas, em que cada uma é maior que eu, cada uma dessas pequenas coisas, mal me cabe se as recordo,
...mas sabes, nenhuma és tu, nenhuma é tua, nenhuma é sequer pedaço de ti, são todas minhas, em que te imaginei do tamanho dessas pequenas memórias que me forram e transbordam, em que a mais pequena mal me cabe de tão inteira - ou de tão inteira me fazer.

Sabes, eu sempre te disse que fui tua, que desde que tu és tu para mim, sempre fui tua,
...mas sabes, não fui, eu fui de quem me entreguei sem saber, quem me foi tomando o olhar e a pele sem licença, e sem dar conta de não ser precisa licença para me invadires - porque de tão meu, deixei-te entrar como se fosses. Meu. Como eu.

Sabes, o tamanho das coisas que vemos está no nosso olhar, e os meus olhos a ti viram as tuas pequenas coisas com a imaginação do que nunca foste, nem fizeste, nem quiseste fazer,
... mas sabes, fizeste-me sentir - o avesso escondido dos teus pequenos gestos, das tuas pequenas  doces sombras, foram-me sempre enormes, avassaladoras de vida. Foram-me tudo o que tu me eras. Agora já não sinto que sinto.

Sabes, às vezes, ainda sou dessa imaginação, ainda sou uma das mulheres da tua vida, aquela de quem notavas os pequenos jeitos e trejeitos, como eu ainda vejo aqueles que em ti imaginei,
...mas sabes, disseste-me que podia ter sido a mulher da tua vida, podia... se podia, falhaste em imaginar o mesmo que eu, não me sentiste como te senti, como se tu  já fosses parte de mim antes de nós, e sempre continuasses a ser, porque não havia depois. Não havia depois de nós. Não havia, mas houve, mas há.

Sabes ainda me pergunto o que imaginavas tu, quando, no silêncio, eu imaginava que te adivinhava  e me adivinhavas só por nos olharmos,
...mas sabes, o que vemos é do tamanho do nosso olhar e tu nunca me chegaste a ver. 




Quando vi isto e guardei, lembrei-me do Moon... Hoje passei outra vez por ela e deixo-a aqui.

Se a alma hoje me viesse para o lado de fora eu estaria coberta de tempo que passou, muitas camadas diferentes de tempo - os passados são tantos e voltam tanto. Muitas texturas diferentes porque eu sou muitas, eu sou tantas e todas essas que sou me trazem passados que se multiplicam como feridas que abrem na pele de fora para dentro. Abrem, e há dias que crescem.
Hoje o sol não me aquece, a luz não resplandece. Não encontra eco em mim, ainda que toda eu seja paredes.
Hoje vim a viagem em silêncio, cheia de vontade de música. Daquela música que nos dá vontade, vontade de ter vontades, que faz o corpo começar a ondular, o sorriso a dançar e os pés a gargalhar, sem a cabeça dar conta. Hoje queria que a cabeça não desse conta de nada. Que a alma se colasse à pele, que que se colou à música que dançou sem saber... Mas não havia música. Queria que a alma ficasse quieta por trás da lua que não se vê, até ao dia em que se veja o brilhante da lua e o seu avesso, tudo ao mesmo tempo, tudo a um só tempo, como uma só. Como se só houvesse agora.

... Mas isto não era para nada disto, era só para dizer que me ainda bem que o Moon voltou :).... o resto escapou pelos dedos do tempo que me escapa pelos dedos.


terça-feira, 11 de abril de 2017


[foto @olheosmuros]

Isso!...
E mandem os currículos para aqui, sim?
(Que a falta de experiência não seja motivo de acanhamento, será providenciada logo logo...)
  

segunda-feira, 10 de abril de 2017


[Auto-retrato de Almada Negreiros]

"Encontrar sem buscar é coisa difícil e rara: achar aquilo que se busca é cómodo e fácil; ignorar e buscar (aquilo que se ignora) é impossível." - a frase que me fez tirar a fotografia, diz hoje tudo o que eu não consigo dizer  (acho que também faria parte do meu auto-retrato de sempre  -se o tivesse-, mas dos últimos dias, especialmente. O auto-retrato não são só traços de fisionomia, como me parece que este ilustra tão bem.)

domingo, 9 de abril de 2017


... Engraçado como a lua parece trazer a clarividência fria do que está (ou estava) oculto. E, no entanto, já houve tantas luas antes desta. Talvez eu ainda estivesse demasiado quente.

sábado, 8 de abril de 2017


Eheheh...
... E que belo dia para isso!!
(o sol é provavelmente o melhor antidoto para a melancolia...)

sexta-feira, 7 de abril de 2017


Irra que estão grandes!!.. As duas! Devia haver uma cláusula de proibição de crescimento a partir dum momento escolhido por nós... A patuda daqui a uns três meses está quase no tamanho adulto, a pezuda daqui a cinco anos começa a apresentar-me namorados (só tem autorização a partir dos quinze por isso só mos apresentará a partir daí...), vai começar a namorar primeiro que eu, já dizia um amigo meu cheio de sabedoria... Bahhh
E ainda por cima estão de férias a curtir o jardim inundado de sol... E eu entre quatro paredes... Buaaaaa... É injusto...
O que de mim destila
escorre em formas de ti
Tu vazas secura
Para que não sou vaso
Não guardo nada de ti
Escorres-me em palavras
Num rio
De que já não és mar
Palavras a que já não chegas
Dum lugar onde sempre fui partida
Nunca chegada
Nunca destino
Já cheguei onde não estás.
Ainda que me habites,
Já não te procuro onde não estou.
Escorres-me em palavras, só.

quinta-feira, 6 de abril de 2017


Dou por mim a pensar que a minha capacidade de síntese equivale à capacidade sprint dum caracol que não se babe (suponho que ainda andem menos depressa que os outros, né?...). Até na resposta aos vossos comentários escrevo várias vezes (muitas) várias linhas... espraio-me nas palavras como quem estende a toalha na areia dourada duma praia cheia de tempo e de caminhos e de conversas solarengas à sombra das palavras já ditas. Umas palavras - as vossas - trazem ideias e outras palavras agarradas, e, depois, não sei, juntam-se e parece que se multiplicam, e eu, de nada, escrevo parágrafos inteiros... não sei bem como nem porquê, acontece só, como quem desenovela o que já está estendido...  Não é normal, as pessoas normais só têm uma ou duas linhas de comentário. Acho que não sei comentar. Mas não digam a ninguém, que na ignorância desta minha incapacidade nós vamo-nos  entendendendo, sim?

      [imagem @trechosdelivro]

Há tantas metades em mim
Sou meia em tanta coisa
Meia doida
Meia racional
Meia destravada
Meia lógica
Meia complexa
Meia simples
Sou demasiadamente feita de metades
para me voltar inteira. 

E no meio de tanta volta
Pouco me mudo.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Dias há em que é uma bênção ter números por perto, estar rodeada de números cheios de papeis, ou papeis cheios de números cheios de razões e outros tantos erros escondidos à espera que os descubra. Como hoje. Dias em que os números me cercam os pensamentos e cerceiam os sonhos, não os deixam vadiar pelos momentos que se arrastam a pairar em vidas enterradas. Há dias como hoje em que adoro mergulhar nos números para asfixiar as palavras que me enrolam o coração, porque os números batem certo, entendo-os, mesmo que não goste do que dizem. Têm lógico, têm um fio condutor, se o soubermos seguir descobrimos erros e descobrimos a verdade. As palavras não têm verdade que não a do seu dono, e mesmo essa tem dias... dias como hoje.
A verdade é que esta hora, em que a luz vai poisando nas coisas, lânguida e vagarosamente, é um convite descarado e atrevido a conversas e silêncios de tons quentes e sorrisos abertos. A verdade é que é sempre uma hora que suspende o tempo em momentos. Os números desvanecem-se entre os dedos do sol que vão deslizando pelo céu até descansarem no colo do horizonte, onde dormirão quentes, até amanhã. E eu sonho com um horizonte feito colo, em tons de pôr do sol e silêncios atrevidos...
... mas acordo,de volta aos números (quase lado a lado não ao colo...), que há coisas para acabar... 

??? Is there?

Limpo o pó ao coração para dentro duma nuvem branca pendurada na janela para que às visitas pareça que a casa está limpa, cuidada, quase imaculada.
Escondo as feridas debaixo do manto da noite para o dia não as ver por sarar. Quando a noite foge para longe de mim entretêm-se com a poeira das estrelas enquanto entretenho as visitas.
Às vezes à pele colam-se-me resquícios de memórias de que me esqueci.

segunda-feira, 3 de abril de 2017


... Das coisas (parvas) que eu sinto falta... não de que me batam no rabo, que detesto, prefiro que agarrem em vez de bater, é menos bélico e muito mais interessante, digamos. Mas o que sinto falta mesmo é de responder a uma frase destas com um "hum. Acho bem!!" e um sorriso enorme por dentro, e com alguém, a essa altura, por dentro dos braços... Também sinto falta daqueles abraços de corpo inteiro, de braços e pernas e tudo o que der, em que apetece ser polvo para ter mais braços com que envolver o que queremos não deixar escapar, o que apetece apertar para fazer nosso... Outro género de cartas de amor que não deixam de o ser. Também gosto das outras, desde que verdadeiras, espontâneas e que falem uma "nossa" língua, como estas coisas, assim.

domingo, 2 de abril de 2017


Primeiro café desta primavera tomado na minha varanda. Primeiro café tomado com a patuda ao sol, na varanda que lhe estava interdita porque ainda cabia nos espaços que dariam para um mergulho no nunca. 
Fico-me aqui, na preguiça vestida de pijama a ouvir os sons das imediações. Há pássaros que chilreiam, carros que passeiam, bombos e vozes que cantam ao fundo (??? O que será?), esquinas que se fazem surdas ao tempo, passos desaparecidos que nunca olharam para trás. E eu aqui, a olhar em frente,  a ver gente dobrar esquinas e descer ruas que não se sobem. Já não se sobem, o tempo nunca se dobra. 
Às vezes colecciono palavras, ponho-as alinhadas na mesa que há dentro da minha cabeça, tem tampo de madeira ruiva a minha mesa montra de palavras. Disponho-as e disponho-me a lê-las, não as letras, a alma das palavras, deixo-as conversar com as minhas. Arar os sentidos para chegar à essência - provavelmente a minha, e só a minha, através da delas. Hoje saltaram-me à vista as palavras raras como as pessoas consistentes, à prova de contrário,  direito à prova de avesso. Rompem a ilógica lógica do avesso, do sentido oposto ao certo que assim não é errado. 
As palavras dispostas, bem dispostas alinham-se em mera aparência de desalinho, e eu aprumo o sorriso na trama que tramam:

ana
ama
ara
seres

ele
ala
ata
saras

ses

Gosto de palavras, gosto destas palavras, porque são espelhos de si mesmas, simétricas e fiéis; porque se as partirmos ao meio restam-se em metades iguais. Gosto de algumas palavras sem razão de gostar, gosto só porque sim, vejo-as junto ao canto da mesa quase a cair em si de mim... gosto da palavra desejo, de como soa, de como a boca o diz, de como anda como se desfilasse, de como corre e ganha terreno debaixo dos pés, por dentro da pele; como gosto de ensejo, como quem arqueja e flameja à ideia duma ideia, como quem estende os braços para o devir e sente poder fazer acontecer o que ainda não se vê, o que ainda ninguém viu; como gosto da palavra sussurro por ser meiga e falar baixinho cheia de açúcar arrastado, como me aquece o conforto passar pela palavra aconchego que se me enreda no calor da pele, e apego por não querer largar e quem não quer largar quer alguma coisa que tem medo de perder, mesmo que não tenha coragem de o dizer nem a arrogância de se impor,  como gosto da palavra alma que me aparece como cor, como véu diáfano que envolve sem tapar, que deixa ver sem mostrar, dum azul esverdeado acinzentado, não tão simplesmente azul nem sequer verde reluzente de vida, nada cinzentão de apático desmaiado, mas sim como os olhos do mar... adoro a palavra mar, evoca-me amar, chama-me pela boca e leva-me pela mão, salga-me a pele e adoça-me os lábios, leva-me no prefixo perfeito que completa a imensidão que liga tudo...  que ondula, que tem marés, que se revolta, que engole tudo em tempestade, mas que em maré nenhuma deixa de lamber a pele da praia. Consistência e persistência, mesmo que tenha ondas, vagas, marés e tempestades, o seu lugar não deixa vaga - é um sítio inteiro.
Subo do mar ao rio, rio-me com a escalada nas palavras. Mar e rio: uma é filha da outra e nenhuma tem contrário falta-lhes o avesso para saber o direito. Quando não há avesso, haverá direito?...Pergunto-me enquanto arrumo a mesa e lhe desembaraço os cabelos ruivos de feiticeiras palavras... E as letras emaranhadas nas mãos continuam a tagarelar-me... O mar tem mãe, mas o rio é filho do céu, que tem todas as cores da alma. O mar reflecte-as. 
Sem ses. 
Ama. 
E quem ama tudo sara.

sábado, 1 de abril de 2017


E hoje é dia de vacinas desta terrorista, e devia ser o dia de cortar o pelo, mas o meu. Também devia ser dia de sol para arranjar a minha varanda e fazer as últimas exéquias às plantas que o inverno levou... Mas mesmo, mesmo, é dia de preguiça, de sentar no sofá sozinha e olhar para a bichinha a saltar em modos cabrita, a atirar os bonecos ao ar para os ir apanhar como se não soubesse onde caíram, dia de ir catar coisas que eu não sei que tenho em casa e trazê-las nos dentes com aqueles olhos "mas o que é que foi agora? De que reclamas tu?" Enfim... É dia de ronha. Até o sol anda a fazer ronha, esta mania de ficar sempre, tímido, no banco ao fim‑de‑semana não pode ser, prejudica a assistência ao fim‑de‑semana ...  Acho que fora a vacina, vai ser dia de café com a terrorista ainda ao colo, trocar umas compras (que provavelmente com esta vontade toda, vou adiar...) e depois cinema de sofá... É a vantagem de ter uma amiga cinéfila que me vai dando bons filmes para ver no sofá, compra todos os que gosta para ficar, depois empresta-me... 
Eu sou tão preguiçosa que ronha devia ser o meu nome índio ... 
Bom dia.