Tenho palavras debaixo da língua, aquietaram-se, acumulam-se, atafulhadas até ao coração, numa greve sem revolução. Como mortos sem guerra. Preciso dum beijo de navegar silêncios para as desprender, mesmo que nunca as diga.
terça-feira, 14 de março de 2017
segunda-feira, 13 de março de 2017
[ foto henri cartier-bresson ]
Ora, mais uma moedinha, mais uma voltinha... neste carrossel de dias à volta de si mesmos, numa sucessão de dias e noites, onde não sei onde sonho mais ou onde estou mais desperta dos sentidos que sentem.
Às vezes pergunto-me sobre que centro rodamos, e porquê, o que é imutável, o que muda e o que nos muda... e se sou só eu que me pergunto, ou se já é só sintoma de estar tonta...
sábado, 11 de março de 2017
Isto sim, parece-me uma promessa com pés e cabeça...
E braços e pernas e o resto tudo...muito bem misturado e aplicado.
Isto sim é uma promessa decente,
que cai sempre bem ao sábado de manhã, com sol ou com chuva,
ou à noite, com lua ou de céu fechado, e ao resto da semana e até ao resto dos nossos dias...
Isto sim, soou-me bem, completo, ou então sou eu que estou bem disposta, sei lá.
Às vezes acontece ;)
sexta-feira, 10 de março de 2017
"Talvez seja preciso teres amado e perdido; talvez seja preciso teres vivido da forma mais intensa, teres tido de escolher entre um maço de cigarros e três quilos de batatas para gastar o teu último dinheiro, e teres escolhido os cigarros, teres dormido em bancos de jardim, teres acordado em sítios sem saber onde estavas, teres vivido com uma mulher que não te queria foder, teres vivido com uma mulher que não querias foder, teres dormido numa cama de solteiro com outro homem uma quinzena inteira, teres ido a uma entrevista de emprego com um fato emprestado, teres fodido separadamente com três mulheres diferentes no mesmo dia, teres passado seis anos apaixonado pela mesma, sem nunca a ter sequer beijado; talvez seja preciso teres tido um filho nos braços, teres corrido com ele ao hospital, ter-te morrido alguém que amavas, teres deixado de amar alguém, que às vezes é uma forma de morrer; talvez seja preciso teres plantado uma árvore, criado um filho, escrito um livro, talvez seja preciso teres plantado uma árvore no lugar errado, teres tido um filho com a pessoa errada, teres escrito um livro sobre a coisa errada; talvez seja preciso; talvez seja preciso bater com o carro num lugar deserto, ganhar uma fortuna e gastá-la, escolher preto quando saiu vermelho. Talvez seja preciso ter errado em tudo para acertar só uma vez. E quando acertas, valeu (tudo) a pena."
Do Menino, aqui.
Falta-me muita coisa, mas a que mais me falta é valer a pena para tudo ter valido a pena... Sem ter pena de nada.
Falta-me muita coisa, mas a que mais me falta é valer a pena para tudo ter valido a pena... Sem ter pena de nada.
Falta-me ser festa e presente, e futuro que me prenda solta.
Com futuro presente dentro dos dias o passado passa de pena a pluma.
... e depois percebes que o teu grau de estupidez é de tal modo estratosférico
que a raiva, que te assola as entranhas e te contorce a alma do avesso,
dá-te vontade de arrancar a tinta das paredes com os dentes.
Até se conseguir ver a alma da parede, como se isso me arrancasse a estupidez da alma
que todos os dias se esquece de ser pintada. Protegida. Domesticada. Inteligente. Racional. Normal.
quinta-feira, 9 de março de 2017

aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir
e fingir
eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem
a não ser que te amem
Samuel Beckett
[e é verdade que isto é mesmo assim. aterroriza não voltar amar, aterroriza pensar em amar e não ser ele, enlouquece pensar ser amada e não ser por ele, como se o amor fosse um artigo com defeito que queremos deixar na prateleira, queremos livrar-nos dos empecilhos que nos enrodilham os dias à volta do coração. e ao livrarmo-nos dele perdermo-nos do coração que nos faz pulsar a cor na respiração dos dias. mas, depois penso, quem esteve - quem está - sempre a enfeitar a prateleira, sou eu. o defeito deve ser meu, o artigo defeituoso sou eu. então finjo que não sei que fingiu que me amou, finjo que a prateleira não é minha. que eu fui dele e serei de alguém - e não a fingir. dá-me vontade de fugir o fingir, mas se ao menos a fingir me tivesses tentado alcançar... se ao menos a fingir eu acreditasse não perder a melhor essência de mim junto com as memórias que quero despejar do coração para a vala comum dos desamores. despejar-me. depois onde me resto? de que me faço?]
A noite traz o céu tapado, as luzes tornam o tecto do horizonte alaranjado, a torre vejo-a ao fundo, como farol num mar por regressar, e tudo parece imóvel, sem vida, sem destino, como se nunca fosse mudar, como se nunca fosse chegar. Mas amanhã talvez destapem o céu, e as estrelas não se contem, não por estarmos cegos delas, mas apenas por os dedos não nos chegarem para tanto, nem os desejos infantis, de tão poucos. Eu, pelo menos, não tenho muitos, um cantinho desta janela de céu onde me encosto, coisa pequena e bem aproveitada, chegava-me. Hoje de manhã eram beijos, de todos os tamanhos e feitios, com tudo o que se pode viver de bom dentro de cada um, sem amarfanhar afectos, sem amarrotar a ternura com o desejo... Hoje foi assim, amanhã não duvido que também. Sou monótona de desejos e insistente de beijos.
Quando será que as estrelas deixam de ser cegas de mim?
quarta-feira, 8 de março de 2017
[uma das frases inesquecíveis do Rayuela (Julio Cortazar)]
Tenho saudades dos dias que vivia sem saber que iria ter saudades de os ter vivido.
Tenho saudades do tempo em que não sabia que há momentos, plantados nos acasos dos dias, que colhem eternidades depois de mortos. Depois de mortos. Muito depois de mortos, vivem ainda.
Tenho saudades de não saber que esses momentos nos matam os amanheceres à noite.
Que nos matam cada renascer.
A morte da inocência traz-nos eternidades.
Haverá eternidade antes da morte?... ou inocência depois dela?
E renascer sem inocência, será possível ou só um acaso?
terça-feira, 7 de março de 2017
segunda-feira, 6 de março de 2017
Os dias têm passado num instante, sempre com alguma coisa para fazer ou desfazer, a deixar pouco tempo para entreter as ideias nas mãos, as palavras na cabeça. E isso falta-me como uma parte de mim que se sente meio abandonada, meio negligenciada. Esta coisa de escrever é bom para desanuviar, para extravasar o que não se quer, ou não se consegue, conter, mas leva tempo e quase obedece a rituais, rituais de solidão, de sossego. Outras vezes não é tanto assim, aparece-me uma frase na cabeça, as vezes não se quer ir embora, como quem bate numa parede e faz ricochete para voltar a bater e bater, como frases latejantes que não querem deixar de ser sentidas até que sejam sangradas. Escrever é sangrá-las. Com o carrossel que têm sido estes dias não me surgem nem do nada, nem dos bocadinhos que roubamos ao tempo para nos darmos a pensamentos.... E agora esta frase parou-me, estacou-me... O que (nos) roubamos para dar é o que mais queremos, o que mais valorizamos. E é isso que damos. Se pudermos.
domingo, 5 de março de 2017
Aqui da minha cama, deitada, vejo a luz da varanda do vizinho. Uma luz ténue, amena, quase gentil. Ontem à noite adormeci com a luz a entrar-me no quarto pela janela, virei-me de costas para ela, a parede parecia iluminada de luar brando. Mas eu sabia que não era da lua, que era só o candeeiro da varanda do vizinho de trás. Gostei na mesma de ver a luz pintada na parede, como que me acalmou e guiou o adormecer, mas eu sabia que não era o prateado da lua que me banhava o quarto. Há quem depois de ver o candeeiro continue a dizer que é a lua, a negar a existência do candeeiro, a fechar os olhos à realidade. Eu não, eu gosto de ver a realidade, de saber as origens e os porquês, e depois gostar ou não. Da realidade. A luz do candeeiro do vizinho também é bonita na maneira como se desenha na minha parede, gosto dela, e gosto mais de saber que gosto dela, mesmo que não seja a mítica e apaixonada lua a entrar-me, perfeita, com os seus véus diáfanos de luz pelo quarto dentro. Gosto de saber que gosto da realidade, tenho um fraco muito forte pela verdade. Gosto de saber a verdade sempre, depois decido se gosto dessa verdade ou não, mas negá-la, disfarçá-la, escamoteá-la, menti-la, para me permitir gostar, não é gostar do que se tem ou vê, é gostar do que não se tem e não existe. É um desperdício vazio. Há quem vendo uma luz goste de saber donde vem, e também há quem goste tanto de dizer que é a luz romântica e doce da lua, que fecha os olhos a saber das suas origens, e se, por acaso, não os fecha a tempo e vê, finge que não. Que não viu, que não é. Dizer que é o luar que nos embala o sono parece muito mais bonito... A mim parece-me que não sabem gostar nem do luar que a lua vaidosa nos derrama, nem da simplicidade duma qualquer luz que nos aconchega o adormecer. Parece-me que misturar tudo, fazer como se tudo fosse o mesmo, enganar, falsear, é não saber gostar de luz nenhuma afinal. É não saber distinguir nem apreciar cada beleza. E não saber isso é não saber nada de beleza. Nem de verdade. Nem de gostar. A beleza é sempre uma verdade, mesmo que nem toda a verdade seja beleza.
E por causa do candeeiro do vizinho e disto tudo lembrei-me duma frase: " depois de se abrir os olhos nunca mais se consegue fechá-los da mesma maneira. Nunca mais é como antes de se ter aberto os olhos." Mas é mentira, há pessoas que depois de os dizerem abertos dizem a seguir que afinal nunca os tiveram fechados, fica tudo como dantes... Afinal o luar é tão bonito a estender-se na parede dos quartos, enquanto nos embala os sonhos que o sono nos cede quando fechamos os olhos.
quinta-feira, 2 de março de 2017
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
Talvez não seja o tempo,
A não ser, talvez, a certeza de não te esperar.
Mas as mágoas a indiferença o desamor
Que embaçam o teu rosto
Nas fotografias, que nunca tirámos,
Que eu guardei
Que eu guardei
Talvez agora, porque me embaçaste o amor,
no espelho também já não me veja a mesma,
no espelho também já não me veja a mesma,
Talvez deseje que algum espelho, desembaçado de mim,
te devolva o que és - mesmo.
Talvez...
te devolva o que és - mesmo.
Talvez...
Talvez espere que o tempo te dê o que mereces
Talvez já não te deseje
Talvez já não espere nada
A não ser, talvez, a certeza de não te esperar.
Hoje a alma saiu à rua descalça, só para sentir o chão, só para ter a certeza que tem chão, e que os pés são para pisar o chão dos caminhos, que nuvens não fazem caminho nem têm norte nos pés.
Hoje a alma saiu à rua por trás duns óculos escuros, não porque a luz seja demasiada e lhe engelhe os olhos pitosgas, mas porque as olheiras fundas encovam a vontade depois de ter enterrado o descanso há eternidades. Queria a alma poder dormir e não ter medo de luz, porque só a luz faz ter medo do escuro.
Hoje a alma saiu à rua ainda antes de sair de casa e do dia se me enterrar nos ossos, saiu antes de mim, adiantou-se, fugi-me.
Há uma sombra de mim no chão que não reconheço. Que não me conheço.
domingo, 19 de fevereiro de 2017
sábado, 18 de fevereiro de 2017
[foto de Robert Doisneau, La douche à Raizeux, 1949]
Dizem que choveu, que ainda é Inverno,
mas na minha varanda o sol de Verão só fechou os olhos.
Foram uns instantes.
Há instantes que duram invernos rigorosos e inteiros,
e eternidades que cabem num fim de tarde de Verão.
E tu, a que instantes fechas os olhos?
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