quinta-feira, 9 de março de 2017





aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir

e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem

a não ser que te amem


Samuel Beckett

[e é verdade que isto é mesmo assim. aterroriza não voltar amar, aterroriza pensar em amar e não ser ele, enlouquece pensar ser amada e não ser por ele, como se o amor fosse um artigo com defeito que queremos deixar na prateleira, queremos livrar-nos dos empecilhos que nos enrodilham os dias à volta do coração. e ao livrarmo-nos dele perdermo-nos do coração que nos faz pulsar a cor na respiração dos dias. mas, depois penso, quem esteve - quem está - sempre a enfeitar a prateleira, sou eu. o defeito deve ser meu, o artigo defeituoso sou eu. então finjo que não sei que fingiu que me amou, finjo que a prateleira não é minha. que eu fui dele e serei de alguém - e não a fingir. dá-me vontade de fugir o fingir, mas se ao menos a fingir me tivesses tentado alcançar... se ao menos a fingir eu acreditasse não perder a melhor essência de mim junto com as memórias que quero despejar do coração para a vala comum dos desamores. despejar-me. depois onde me resto? de que me faço?]
A noite traz o céu tapado, as luzes tornam o tecto do horizonte alaranjado, a torre vejo-a ao fundo, como farol num mar por regressar,  e tudo parece imóvel, sem vida, sem destino, como se nunca fosse mudar, como se nunca fosse chegar. Mas amanhã talvez destapem o céu, e as estrelas não se contem, não por estarmos cegos delas, mas apenas por os dedos não nos chegarem para tanto, nem os desejos infantis, de tão poucos. Eu, pelo menos, não tenho muitos, um cantinho desta janela de céu onde me encosto, coisa pequena e bem aproveitada, chegava-me. Hoje de manhã eram beijos, de todos os tamanhos e feitios, com tudo o que se pode viver de bom dentro de cada um, sem amarfanhar afectos, sem amarrotar a ternura com o desejo... Hoje foi assim, amanhã não duvido que também. Sou monótona de desejos e insistente de beijos.
Quando será que as estrelas deixam de ser cegas de mim?

quarta-feira, 8 de março de 2017

[uma das frases inesquecíveis do Rayuela (Julio Cortazar)]

Tenho saudades dos dias que vivia sem saber que iria ter saudades de os ter vivido. 
Tenho saudades do tempo em que não sabia que há momentos, plantados nos acasos dos dias, que colhem eternidades depois de mortos. Depois de mortos. Muito depois de mortos, vivem ainda.
Tenho saudades de não saber que esses momentos nos matam os amanheceres à noite. 
Que nos matam cada renascer.
A morte da inocência traz-nos eternidades.
Haverá eternidade antes da morte?... ou inocência depois dela?
E renascer sem inocência, será possível ou só um acaso?

terça-feira, 7 de março de 2017


A última frase - 
"Vontade é a prova de que quem quer dá um jeito." - podia ser eleita o meu mantra de vida. Sem tirar nem pôr... Se houver vontade.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Os dias têm passado num instante, sempre com alguma coisa para fazer ou desfazer, a deixar pouco tempo para entreter as ideias nas mãos, as palavras na cabeça. E isso falta-me como uma parte de mim que se sente meio abandonada, meio negligenciada. Esta coisa de escrever é bom para desanuviar, para extravasar o que não se quer, ou não se consegue, conter, mas leva tempo e quase obedece a rituais, rituais de solidão, de sossego. Outras vezes não é tanto assim, aparece-me uma frase na cabeça, as vezes não se quer ir embora, como quem bate numa parede e faz ricochete para voltar a bater e bater, como frases latejantes que não querem deixar de ser sentidas até que sejam sangradas. Escrever é sangrá-las. Com o carrossel que têm sido estes dias não me surgem nem do nada, nem dos bocadinhos que roubamos ao tempo para nos darmos a pensamentos.... E agora esta frase parou-me, estacou-me... O que (nos) roubamos para dar é o que mais queremos, o que mais valorizamos. E é isso que damos. Se pudermos.

domingo, 5 de março de 2017


[foto @1davidmiranda]


Aqui da minha cama, deitada, vejo a luz da varanda do vizinho. Uma luz ténue, amena, quase gentil. Ontem à noite adormeci com a luz a entrar-me no quarto pela janela, virei-me de costas para ela, a parede parecia iluminada de luar brando. Mas eu sabia que não era da lua, que era só o candeeiro da varanda do vizinho de trás. Gostei na mesma de ver a luz pintada na parede, como que me acalmou e guiou o adormecer, mas eu sabia que não era o prateado da lua que me banhava o quarto. Há quem depois de ver o candeeiro continue a dizer que é a lua, a negar a existência do candeeiro, a fechar os olhos à realidade. Eu não, eu gosto de ver a realidade, de saber as origens e os porquês, e depois gostar ou não. Da realidade. A luz do candeeiro do vizinho também é bonita na maneira como se desenha na minha parede, gosto dela, e gosto mais de saber que gosto dela, mesmo que não seja a mítica e apaixonada lua a entrar-me, perfeita, com os seus véus diáfanos de luz pelo quarto dentro. Gosto de saber que gosto da realidade, tenho um fraco muito forte pela verdade. Gosto de saber a verdade sempre, depois decido se gosto dessa verdade ou não, mas negá-la, disfarçá-la, escamoteá-la, menti-la, para me permitir gostar, não é gostar do que se tem ou vê, é gostar do que não se tem e não existe. É um desperdício vazio. Há quem vendo uma luz goste de saber donde vem, e também há quem goste tanto de dizer que é a luz romântica e doce da lua, que fecha os olhos a saber das suas origens, e se, por acaso, não os fecha a tempo e vê, finge que não. Que não viu, que não é. Dizer que é o luar que nos embala o sono parece muito mais bonito... A mim parece-me que não sabem gostar nem do luar que a lua vaidosa nos derrama, nem da simplicidade duma qualquer luz que nos aconchega o adormecer. Parece-me que misturar tudo, fazer como se tudo fosse o mesmo, enganar, falsear, é não saber gostar de luz nenhuma afinal. É não saber distinguir nem apreciar cada beleza. E não saber isso é não saber nada de beleza. Nem de verdade. Nem de gostar. A beleza é sempre uma verdade, mesmo que nem toda a verdade seja beleza.
E por causa do candeeiro do vizinho e disto tudo lembrei-me duma frase: " depois de se abrir os olhos nunca mais se consegue fechá-los da mesma maneira. Nunca mais é como antes de se ter aberto os olhos." Mas é mentira, há pessoas que depois de os dizerem abertos dizem a seguir que afinal nunca os tiveram fechados, fica tudo como dantes... Afinal o luar é tão bonito a estender-se na parede dos quartos, enquanto nos embala os sonhos que o sono nos cede quando fechamos os olhos. 

quinta-feira, 2 de março de 2017


[foto @atoshh]

Durmo abraçada aos meus ossos para não me fugir a alma que guardam. 
Durmo, fecho os olhos e não sonho. 
Sonhar desenjaula a alma, perdemo-la para histórias de gente de olhos fechados, que dorme até acordada. 
Não quero sonhar, quero a alma abraçada ao que tenho.