terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"Dá-me o prazer de entrar e sair nas pontas dos pés."

(podes entrar e sair nas pontas dos pés, mas já perdi a conta às vezes que topo que o fazes  para não notarem o que usurpas de outros...)

Há uma coisa que não suporto.... a desonestidade, o copiar, o usurpar aquilo que é dos outros e fazer parecer seu... Odeio, deixa-me os cabelos em pé, e não não é só quando as coisas são minhas, é quando vejo que é roubado, seja a quem for. Já percebi roubos de coisas que não eram minhas, por três vezes, em situações diferentes, duas delas foi a mesma criatura que usurpou coisas que não eram dela e as quis fazer passar por suas num caso e noutro apenas retirar-lhes a origem e a autoria. Essa criatura erudita e da mais fina flor da delicadeza, das últimas vezes que constatei aprendeu alguma coisinha e agora até a autoria das fotos põe (coisa impensável nela antes desses episódios..) quando tem acesso à origem (parece-me pelo menos). Fico contente, aprendeu alguma coisa!! E aprendeu comigo... o que lhe ficou muitíssimo bem, já que só sabia dizer mal... inclusivamente dizer mal de trocadilhos que me criticava, apelidando-os  de"pseudo-intelectuais", que agora usa para - espantem-se, soube há bocado... - levar a "pseudo" exposições... a vida tem cada coisa... Outra vez fui plagiada por uma página do facebook, que na altura roubou imensas frases de outro blog que tinha, ou partes de posts, e, ao que ao que percebi, fez o mesmo com pelo menos mais um blog que eu seguia e reconheci os textos/frases. Avisei a blogger em questão e penso que tiraram os posts... não, não se retrataram, apenas apagaram os posts... essa página do facebook, parece que me encontrou outra vez.... irra que há gente que não aprende, tem a desonestidade entranhada... É que podia ter um papel de divulgação dos bons sítios onde se escreve bem (já que se gaba de ter milhares de seguidores, o que é verdade), pessoas que, ainda que sob nicknames e anonimato, escrevem com direito à autoria do que lhes sai dos dedos... isso sim era um trabalho com valor e uma página de referência para divulgação de autores anónimos ou mais ou menos, ou nada... um sítio onde se tomava conhecimento de blogs ou sites na net onde se podem ler coisas boas, ou só giras, ou o que for... agora usurpar? plagiar? roubar?? Sou só eu que acho que isto é muito reles, muito desonesto, muito feio?? Só eu? 
Original aqui ( neste até tiraram as aspas... Do melhor a sério)



[entretanto apagaram os meus comentários todos, mas puseram a autoria Olvido ainda que sem link, mesmo com o botaozinho aqui tão à mão para linkar... Mas pelo menos já não parece que é de quem não é...]


... É isto.  Sem perguntas. 
Bom dia 

Só não o senti debaixo dos dedos, já não me lembro de como era senti-lo debaixo dos dedos, da ponta dos dedos, terminações da alma. Vi-o à minha frente, à distância que não tínhamos quando me sentava no seu colo, o meu pequeno reino, onde nunca fui rainha, mas me sentia eu. Passei-lhe as pontas dos dedos por aquela linha do queixo que o fazia arrepiar-se e encolher-se menino, segui a linha do maxilar, subi até as sobrancelhas que penteava por vocação e devoção, uma e outra vez, contornava o olho que sempre me olhava quase semicerrado, entre o ronronar lento e a malandrice sempre desperta, que eu adorava. Apanhava-o a olhar-me muitas vezes, acho que nunca ninguém me olhou tanto... Mas sigo o meu passeio pela ponta dos dedos, mapeando o reino que nunca foi meu, onde nunca tive trono ou sequer cadeira, onde calcorreei o tempo descalça sem nunca me cansar, passo pelas têmporas mal tocando a pele, tão ao de leve como o esboço duma intenção, para as maçãs do rosto, duma ossatura que conhecia tão bem, que se me colou ao esqueleto como uma outra costela minha, certamente roubada à nascença e que eu nem sabia que me faltava... das maçãs do rosto chegamos à boca, desenho-lhe os lábios devagar já desenhados por baixo dos dedos, a boca perfeita de beijos - de beijos que me eram perfeitos. Dum canto ao outro, percorro-a devagar, ganha vida num beijo que me poisa nos dedos. Raras as vezes em que os meus dedos, fazendo aquele caminho, não eram beijados numa ternura doce dum calor meigo. Vi tudo isto há bocado, no silêncio dos carris a serem percorridos - a lembrar-me outros carris que tanto brincava de falar -, enquanto os dedos poisados no vidro frio, buscando horizonte na paisagem em vez de pele quente como chegada, denunciavam já não terem memória destes passeios, mas as imagens, essas, tenho-as todas, guardo-as ainda. Para quê? Porquê?... Estou agora a ver aquele pedacinho que me deu, que declarou meu, bem no meio dele, dentro do peito, a pouca distância de onde deveria ter o coração todo meu, vejo-o perfeitamente à luz da rua que nos entra pelas janelas sem invadir o espaço que guardamos para nós, onde nada mais parece entrar. Nem a luz entra entre nós, mas ilumina-nos, e é sob essa luz que lhe vejo o peito, que o gravo para buscar agora e ter à minha frente, debaixo de mim, enquanto passo devagar, ao de leve, os meus dedos pelo que me deu sem nunca ter sido meu. Levanto os olhos e olha-me. Nunca ninguém me olhou como ele, nunca ninguém me olhou tanto como ele. Nunca ninguém, como ele, viu tão pouco em mim. Tenho a ponta dos dedos tão gelada... 

sábado, 28 de janeiro de 2017


Disse poucas vezes que amava alguém. Tive muitas vezes vontade de dizer que amava alguém. Houve alturas na minha vida em que o podia dizer, e disse, das vezes que tive vontade de dizer, necessidade de o dizer, mas foram poucas. Das muitas vezes que tive vontade de o dizer, necessidade mesmo, quase física, tranquei-o por dentro da boca, cosi-o por dentro do peito, deixei-o sair em todos os gestos que podia, gritei-o em todos os silêncios onde o amor era tão denso que quase me cobria a pele, quase que o sentia tocar-me, ser-me, alimentar-me e, paradoxalmente, calar-me. Nunca o pronunciei em nenhuma dessas vezes. Confessar-se o amor a quem se ama precisa da vontade de o dizer e de vontade de ser ouvido. De ser ouvido de braços abertos, precisa doutro coração onde se aninhar uma confissão tão intensa, gritada baixinho dum coração em brasa. Dizê-lo, sussurá-lo, ou até gritá-lo, para o vazio não aconchega esse amor, o eco não o reproduz, o eco é o vazio a devolver-nos palavras, as nossas palavras, talvez o nosso próprio amor (próprio), nada mais. Ainda que pronunciado doutra boca. Nunca quis eco, nunca disse para ouvir o retorno em vazio. Mas só o disse quando acreditei que o sítio onde se aninhavam essas palavras ouvidas era também onde guardavam as palavras que me queriam dizer do mesmo amor - quando as bocas eram diferentes, as palavras, os gestos, as vozes, mas o amor tinha um mesmo tom. O eco so não é vazio quando é devolvido doutra boca no mesmo tom de amar, ferido dum igual amor. Sem isso mais vale trancar as palavras para não se gastarem no vazio. Para não chegarmos a perguntar-nos... "Dizer que nos amamos? Para quê?"
Quando será que as pessoas deixaram de acreditar no certo ou errado, quando será que deixam de o saber distinguir? Quando será que deixa de importar o certo e o errado, e só importa o que dá mais jeito fazer e ter? E fazermos disso o certo, mascarando tudo, porque dá mais jeito? A quem dará jeito não amar? Ou dizê-lo apenas para ouvir um eco de onde ressalta um "amo-te" dito porque dá jeito que isso seja o certo de se fazer? De se dizer. Mesmo que a vontade não tenha qualquer necessidade de o dizer? 
Quando é que as palavras deixaram de falar para apenas calarem o vazio da falta de retorno? 
Não há retorno, não há troca, há partilha dum mesmo amor pronunciado a duas vozes sob uma mesma vontade, ou então, não há nada. Nada que esteja certo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Gostava de ter cabelo ruivo e olhos pretos
ou então,
 gostava de ter olhos verdes e cabelos escuros.
gostava de qualquer uma das coisas, mais sardas.
Gosto do ar catraio das sardas, ainda que já tenha ouvido alguém dizer que sardas a partir dos trinta nunca!! ai jesus, que nem pensar!!... eu gosto, e tenho quase quarenta, devo estar fora de moda.
Tenho algumas, aparecem por altura do sol quente e hibernam como os ursos pardos, ou parvos. 
Faltam-me os olhos da cor que o meu irmão tinha, dum verde que brincava nos cinzentos, herdei tudo o que não faz falta, nem diferença; 
falta-me o feitiço do ruivo para enfeitiçar de feitiço quem um dia me enfeitiçou; 
falta-me o ar catraio, cabreirinho que me diziam que tinha e não sei onde o escondi, ou se o perdi;
 falta-me gostar de olhos pretos, cabelo escuro, e sardas de ursa menor.
Falta-me sempre alguma coisa.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017


O menino de cabelos de oiro que viravam prata debaixo do brilho do luar empoleirava-se, todas as noites de lua bicuda, à janela. Olhava com os seus olhos grandes, redondos e ávidos cada recanto do céu, até encontrar num qualquer canto do céu a lua que o fazia abrir um sorriso de marulhar traquina. Quando a encontrava contemplava-a quieto de silêncio e procurava um fio de luar para agarrar. Quando apanhava um fio, que descia da ponta da lua, acarinhava-o entre os dedos, quando se tornava macio e malabarista, brincava de desenhar com ele os sonhos do dia na parede do quarto. A cada desenho desfiava mais um pouco a lua, como quem a desenovela, precisava de mais fio de luz mágica para traçar histórias na escuridão. A cada puxão ela ia descendo no céu e fechando a noite, enquanto se desfazia em sonhos feitos pelas suas mãos, imaginados pelos olhos postos na parede cheia de fios de luar que amarravam sonhos à noite cerrada. Tantos sonhos por desenhar, por lhe brotarem das mãos em imagens que tinham vida enquanto a lua não apeasse na linha do horizonte, cada vez mais pequena, cada vez mais fina, até ser só uma pestana que se lhe fechava nos olhos em sono doce. Quando adormecia a lua soltava-se. O menino, com cabelo de prata em fios de luar, sonhava que ela passeava pelo mundo inteiro agarrada à sua mão pelo fino fio que o sono lhe roubava. De manhã encontrava as mãos vazias e a parede sem mágicas histórias de encantar a noite já adormecida. O menino, então, esperava pela noite, quando os seus fios de cabelo se tornavam prata, para de novo desfiar os sonhos do dia. Enquanto sonhasse a lua aparecia sempre. Enquanto a lua morasse no céu da sua janela ele sonharia sempre,  e refaria de cada dia, todos os dias, os sonhos de oiro do sol para encantar a noite.

"No sé tu nombre, sólo sé la mirada con que me lo dices"

Mario Benedetti

...porque há nomes que se chamam sem falar, e chamamentos que se sentem sem terem de ser ouvidos. Porque há conversas em silêncio numa língua que ninguém fala e poucos entendem. Conversas onde não há ruído ou mal-entendidos, onde nada se entende com a razão e tudo se sente percebido. Tudo se percebe sentindo - sabe-se porque se sente, só.

[escrevi isto a meio da noite, porque não me largava, como não me larga a contradição de saber isto, sentir isto, e saber que o que se sente saber muitas das vezes está errado. pelo menos é o que me acontece a mim, mas sei que é possível - se eu o sinto, mais haverá que o sentem, que o sabem por sentir, e se entregam assim, apenas por sentir. Espero que nem todos se reduzam a cacos como eu. Ainda assim, faria tudo de novo. Há cacos que são relíquias e há cacos que são lixo para descartar. Eu prezo as minhas cicatrizes, lembram-me o que vivi, o que deveria ter aprendido, as lições que não aprendi logo, que desafiei arriscando mais cicatrizes, dores e mágoas. Descobri ilusões no sítio das verdades, que viraram cacos e cicatrizes de alma.. Todos as temos, há quem as negue, as esconda, as tape, eu rego-as para algo florescer no meio da tristeza. Um dia algo há-de nascer, algo para além destas palavras que me nascem dentro e saem dos dedos, algo para além de passado, de futuro ausente, órfão de presente. Um dia terei um presente presente, cheio de futuro dentro dum olhar poisado num horizonte que dá as mãos. Se não tiver, não foi por ter fugido dele. Também não o persigo, porque há coisas que só podem ser fruto de um encontro, de um olhar recíproco, que não se procura e não se persegue. E isso eu posso perdoar-me, fugir não. ]