segunda-feira, 16 de janeiro de 2017



Há dias em que se acorda com vontade de dançar, e há dias em que se acorda com vontade de adormecer, de tão adormecidas andam as vontades, de tão apunhalada de mera sobrevivência se caminha. Depois há aqueles dias em que, depois de nos arrastarmos da cama, a música nos acorda a vontade e dançam-nos, no sono acordado, realidades que nem sequer sonhamos, mas que nos brincam no corpo, que o agitam de uma espécie de encantamento. A música conhece-as, a dança ri-se com elas, sorri em movimento, leva o corpo, levita-o, esquece-se que tem pés, que tem braços ou pernas - tudo é música quente e ritmos e realidades que sonham, dançando sem chão na língua do que não se sabe dizer ou pensar, apenas nos mexe, nos fala, nos acorda... dança-nos à flor do que sempre fomos por baixo da pele.
A vida dum tango nem sempre precisa de dois para se dançar, para se viver o salero nas veias, para nos bailar no olhar, para o corpo nos dançar de alma. Como este. Como hoje.

[...caramba o que seria de mim sem música, acho que só a música me sabe descoser parte das costuras da tristeza que me deixa depois virar a disposição do avesso, há uma qualquer raíz em mim que é regada com música. que floresce no corpo que dança sem dar conta que já se mexe e sorri. há dias que é a única coisa que é capaz de me fazer acordar, não os olhos, mas o olhar da vontade.]

domingo, 15 de janeiro de 2017



[Foto de Peter Lindbergh para a Vogue Italia]

"And those who were seen dancing 
were thought to be insane 
by those who could not hear the music."

Nietzsche

[era esta, fui à procura. adoro a ideia da frase, 
a verdade dela que me toca aos ouvidos...]

sábado, 14 de janeiro de 2017



Tocas-me num afinado desatino
Ou num atino desafinado?
Tocas-me com alma, de olhos fechados,
Ou de olhos postos na pauta que os dedos não sentem?
Tocas-me onde me emudeceram
Ou onde ensurdeci?
A música é o teu amor,
Ou o teu amor é música?
Sabes tocar,
Ou não sentes música?
Tocas-me a música
Que me toca dentro?
Tocas-me?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Às vezes é este mundo que me salva, este das letras, das pessoas que sabem sorrir e fazer-me sorrir por palavras, por imagens, por fazer-me sentir - por fazerem-me sentir, também e muito, eu!... Com as lamechices do calimero, das tristezas enroladinhas no muro de lamentações que suporta o peso do que não digo, sim, mas também com a vontade imensa de ainda agarrar a vontade de rir, de não deixar nunca morrer o sentido de humor, o sarcasmo, a ironia. Afinal se a vida não esgota as suas ironias, o seu sarcasmo, o seu eterno sentido de humor retorcido, como hei-de eu deixar de o apreciar? E apreciá-lo é - um bocadinho - tê-lo, melhor ou pior. 
Há dias em que tenho de ocupar a cabeça, quando não a ocupo no trabalho, engalfinhando-me com números e debatendo-me com dúvidas existenciais decisórias, as palavras, as cenas, as imagens  metralham-me sem piedade ou descanso.... Aiiiiii quando terei o meu alpendre com quadros de pinceladas a cores quentes em todos os pontos cardeais? Quero Alentejo e paz e um céu imenso que me possa abraçar, onde caibam todas as minhas palavras, onde as afogue para eu conseguir respirar, vazia. Finalmente vazia. Não de um vazio ocupado, cheio, atulhado, sem espaço para respirar novo ar e nova vida, mas dum vazio que possa encher de coisas novas, de espaço por ocupar, de vida com vontade de viver. De dias como a promessa florescente duma página em branco à luz do sol, com toda a incerteza, improbabilidade e impossibilidade por refutar, por arriscar, por teimar, por provar - por viver com vontade da vontade de viver.
A felicidade será uma incerteza, uma improbabilidade ou uma impossibilidade, pergunto-me agora... sem grande vontade de saber.

[foto @oskarone1]
A força da beleza, no seu fino caule, 
suporta o peso do mundo.

(...das coisas em que quero continuar a acreditar)
Bom Dia!

Ao longo das horas a lua vai descendo pela noite que forra o negro fundo tripartido da minha janela, vai-se chegando ao chão, vai desfazendo a linha do horizonte cheio de ilusões de distância, mas a realidade é ser só longe do sonho - ser longe, não distante. A distância come-se, a lonjura devora-nos. Quando está quase a desaparecer, quase escondida debaixo dos telhados de que não precisa abrigo, parece prestes a incendiar, cora no seu sorriso aberto. Talvez antes de tudo acabar haja sempre um pequeno incêndio que nos cora a N alma, que se desfaz num sorriso quente, mas condenado; que se torna tão perto de longe numas horas tripartidas de tempo que se esqueceram de esquecê-lo. A lua mudar de vidro relembra. 
O tempo é movimento, é mudança, senao não há tempo, nao sabemos se o tempo passou.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


Lê-se no Menino (sim, voltou a escrever mais, outra vez, e ainda bem) sobre Rayuela (não gosto da tradução para português, lamento) de Córtazar, livro que comecei a ler e depois, a meio (sendo que o meio aqui é difícil de definir porque não nem o livro nem a leitura é linear), por alguma razão, deixei -o e nunca cheguei a saber o final, ou experimentar outras ordens para lê-lo. Agora, depois de ler isto e de me voltar a lembrar de Maga e de Horácio, fiquei cheia de vontade de lhe pegar de novo e de reler alguns parágrafos do já lido. Assim que acabe o que estou a ler, que me faz pensar mas não sentir, que me abre os olhos mas não o coração, voltarei a ele, talvez me abra a porta para uma profundidade para que deixei de ter pé. 

"Não é invulgar estarmos convictos de algo até termos termos de comparação, a igreja da nossa aldeia é sempre a mais alta que vimos até termos visto outra qualquer. E, depois de termos visto, tudo muda. Para Horácio, já se sabe, isso foi a Maga. A Maga não sabe tudo, embora saiba muitas coisas, mas faz coisas, faz acontecer coisas, participa em coisas, fala com pessoas, é o foco de muita gente. A Maga, acima de tudo, acredita de uma forma tão límpida na vida e nas pessoas que isso o desarma. Não é ingénua, embora chegue a parecê-lo. A Maga vê é as coisas a direito, até ao fundo. Para a Maga tudo é transparente, parece transparente, ela sabe o que fazer, e fá-lo. E isso, para Horácio Oliveira, é fascinante.

Horácio nunca recuperará deste encontro, da presença da Maga na sua vida. Apaixona-se de uma forma tão plena e tão intensa que desafia descrição e compreensão. Depois da Maga, nada mais será como antes. E, ao perdê-la, Oliveira perde-se a si mesmo, para nunca mais se reencontrar. Passará a vida a ver a Maga em cada rosto, em cada esquina, até isso se lhe tornar impossível. Depois de se encontrar e se perder o que não se sabia que nos faltava, não é possível voltarmos a sentir-nos completos.
(...)
A Rayuela* é a história de uma vida e é a história de um amor, de como um amor se torna o centro de um homem, se torna a sua própria vida. É, ao mesmo tempo, um ensaio sobre o presente, sobre os diferentes rumos que as vidas tomam, sobre a redundância das coisas, sobre os múltiplos caminhos que os passos tomam se os olhares no presente, no agora, e não como coisas passadas.
Mas, mais que isso, a Rayuela é a história de mulheres como estas, mulheres que destroem ou que salvam, que mudam os homens, que nunca mais são os mesmos depois de as terem. Depois delas, mulher alguma bastará, todas serão, mesmo que ninguém o saiba, tentativas de reencontrar a Maga.

A Rayuela é, mais que um romance, uma obra experimental cujos capítulos, como a a vida, podem ser lidos por uma ordem não estritamente sequencial. Cortázar convida-nos a ler a mesma história de outra forma, por outra ordem, mantendo-lhe o final e o sentido.

Para Cortázar, Rayuela significava a experiência de uma vida e a tentativa de a levar à escrita. Para quem lê, a Rayuela é um aviso sobre os amores que só acontecem uma vez na vida, e só na vida de alguns, sobre os amores mais intensos e perigosos e, ao mesmo tempo, os que mais valem a pena. Rayuela é um convite escrito à tentativa de os viver, pela ordem que quisermos, com o final que conseguirmos.

Porque, no final de contas, cada homem só percebe que é Horácio depois de encontrar a Maga – a sua Maga."

*Rayuela, de Júlio Cortázar, publicado em Espanha em 1963; Em português, O Jogo do Mundo, tradução de Álvaro Simões, ed. 2008, Cavalo de Ferro



[das vozes mais doces que conheço e não me canso de a ouvir, hoje com a moldura dos campos na meninice inocente das notas e com o nevoeiro a esbater a linha do horizonte, aconchegou-me os sonhos que me esqueço de ter]
 A pessoa que mais sinto falta é de mim,
 de como eu era antes de sentir a falta de tanta coisa e tanta gente. 
Sinto falta de não sentir tantas faltas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017


Cortar o fio do passado com medo de com isso cortar o fio de Ariadne que nos retorna a nós, que nos devolve às raízes que nos fizeram crescer, que nos fazem reconhecer-nos.
Cortar o fio como quem fecha uma ferida talvez não cure, talvez não sirva, talvez não resulte. O que fazer com o passado para que não nos puxe pela ponta do casaco, não nos faça entortar a espinha e desequilibrar? Que fazer ao passado traquina que nos faz voar nos ventos da beira mar, preso por um fio a umas mãos pequeninas cheias de futuros impensados, brincados ao sabor de um papagaio sem medo de alturas, que se despenha na base das dunas, quase ali nos bigodes do mar? Que fazer? Quem ser não deixando de sermos nós com a memória amputada feita amnésia, feita estrada cortada e proibida, como se para trás fosse o beco sem saída por onde entrámos?

Às vezes o passado lembra as caudas das lagartixas, ou os gatos. Tal e qual a esperança, aliás.
(ainda que no meu caso sempre em tempos complementares, nunca coincidentes. Ou passado, ou esperança - são mutuamente exclusivos...)

Bom dia.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017


"hay diez centímetros de silencio
entre tus manos y mis manos
una frontera de palabras no dichas
entre tus labios y mis labios
y algo que brilla así de triste
entre tus ojos y mis ojos"

Mario Benedetti, Soledades (fragmento)


Esses dez centímetros às vezes são dez anos, outras são dez fracções de segundo que não resistem a nenhum tempo, que duram eternidades por vir, que se alojam no olhar de tudo em que poisa a nossa atenção, tantas vezes, desatenta de si mesma. 

Outras vezes houve - lembras-te? sei que não, mas falo-te, pergunto-te, porque não me ouves, porque já nem me sabes - em que o silêncio não tinha medida nem distância: as minhas mãos estavam nas tuas, os meus lábios nos teus, os meus olhos navegavam a alma dos teus pelas estrelas que davas aos meus... era o silêncio das almas coladas, que falam melhor assim, a beber a temperatura dos corpos, a sentir os arrepios da pele, a sorrir palavras por dentro da boca, a serem lábios e olhos e pele ao mesmo tempo... e alma, alma sempre, em tudo o tempo todo.

Se houve dez centímetros de silêncio deste, medido sem medida - e houve, sei que houve, e se não sei sinto que sei, que diferença faz se não houve em ti?... nenhuma. Só o que sinto me importa porque só isso me toca, já nem tu me tocas, só o que já tocaste -, durarão toda a medida do caminho que os pés farão, calcorreando as mesmas eternidades, às vezes em dez fracções de segundo outras dias inteiros.

Por dentro da pele não há tempo nem distância, e é lá que guardo o olhar que me roubaste.... que me fala em silêncio muitas vezes, profanando essa fronteira das palavras não ditas, enterradas no sitio do que não deve ser ouvido, nem dito - não, nunca as disseste, nunca disseste o que não deveria ser dito, esqueçamos estas linhas de dez centímetros de silêncio na eternidade das palavras por dizer. por dizer-te.




... Eu a sair do fim‑de‑semana para entrar na segunda feira..."taligual" balhamedeus... Vá, pronto, com um bocadito menos de bigodes. Acho eu. Espero eu.
Bom dia!?

domingo, 8 de janeiro de 2017

Sento-me aqui e acho sempre que estou sem palavras, que a maré baixa me invadiu e me deixou a praia despida de alma, depois começo uma frase e alonga-se num parágrafo que não sabia estar enterrado em mim. Devia querer sair e conseguiu, pelo meio dos dedos, encontrar-se na perda do tempo. 
Não sei porque abro esta página branca se nunca tenho o que dizer, ou melhor, se tantas vezes -como hoje - não sei o que quero dizer. Não sei o que me pesa para me libertar do peso. É como ter uma dor e não saber o nome de onde se aloja, nem saber explicar onde anda a morar-nos. Mas às vezes habita-nos, tanto, que nos desabitamos, sem nunca nos acharmos vazios. O vazio deve ser um começo - o começo -, o resto são só segundas voltas. Nunca se começa outra vez, por muitos recomeços que aleguemos. Apenas se combate a imobilidade e começa-se de novo a andar, mas os passos dados estão todos marcados na pele e na memória. o caminho está cravejado de passos, de paragens, de recomeços, que não começam, só continuam, porque nunca esvaziamos a bagagem, nunca apagamos as pegadas dos passos, como se eles nos caminhassem continuamente. Voltamos a andar, às vezes, so para os esquecer, para os fazermos longe de nós, mas apenas acumulamos mais.
Às vezes acho que só preciso de mim, outras que nem de mim preciso. Ou que preciso de não me saber, de me esquecer e esconder-me atrás do horizonte deitado sobre as minhas cinzas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

... que belo dia hoje!!
Vem uma pessoa a apreciar a música alta e a pensar nas soluções para alguns problemas, até animada, logo pela manhã (pronto, passava das dez, não era propriamente madrugada...) e vai que a mandam encostar (o que podia não ser mau de todo não fosse ordem da GNR...) e assim ficou a saber que ia ficar sem carta... ia só a mais 52Kms/h do que o limite, repetindo a façanha de há mais ou menos um ano... que maravilha... ahhh e a entrar ou sair (não sei) rompi as meias... que belo dia hein??
Será que o papa salva a coisa??
.... que raio de sorte, uma pessoa já não se pode distrair na época da caça à multa que caçam-nos logo irra!!! ainda se neste caso valessa a pena ser caça... mas não... não tarda ando a penantes que é um mimo!!!
bahhhhhh

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

[frase, das (muito) boas de "A Trégua"]

"Porque desta vez falei-lhe com toda a franqueza; o tema casamento foi discutido até à exaustão. «Antes de virmos para aqui, para o apartamento, eu apercebi-me de que, para ti, era penoso pronunciar essa palavra. Um dia, disseste-a, à entrada de minha casa, e tens toda a minha gratidão pelo facto de a teres dito. Serviu para que eu me decidisse a acreditar em ti, no teu carinho. Mas não podia aceitá-la, porque teria sido uma base falsa para este presente, que nessa altura era futuro. Ao aceitá-la também teria tido de aceitar que tu te submetesses, que te obrigasses a uma decisão para a qual ainda não estavas preparado. Em contrapartida, submeti-me eu, mas como é lógico, posso estar mais segura das minhas reacções do que das tuas. Eu sabia que, mesmo submetendo-me, não te guardaria rancor. (...) Por isso te digo que agora não tenho a certeza de que o casamento seja a nossa melhor solução. O que é importante é que exista algo que nos una; esse algo existe, não é verdade? Ora bem, não te parece mais poderoso, mais forte, mais bonito que aquilo que nos une seja isso que existe verdadeiramente e não uma simples formalidade (...) E, finalmente há o teu medo do tempo, de envelheceres e eu olhar noutra direcção. Não sejas tão melindroso. Aquilo de que eu mais gosto em ti é algo que o tempo não será capaz de te tirar.»"

Mario Benedetti, in A Trégua

"(...) ao aceitá-la também teria tido de aceitar que tu te submetesses, que te obrigasses a uma decisão para a qual ainda não estavas preparado. Em contrapartida, submeti-me eu, (...)" - esta frase foi talvez das que mais me marcou neste livro. Li, sorri, fechei o livro, percebi a sensibilidade do homem que o escreveu e o entendeu: o gesto de amor, dos mais belos e mais imperceptíveis. Acho que este pequeno grande pormenor passa ao lado de tanta, tanta gente; e este pequeno grande pormenor é amar, amar verdadeiramente. É incrível como isso passa tão despercebido, como não entendem, como quem vê de fora não percebe, que às vezes nos submetemos ao inimaginável para não submetermos, não obrigarmos, quem amamos ao que imaginamos não estarem preparados para fazer, para que, no fundo e afinal, não se submetam. Simplesmente não se submetam. E ao fazê-lo ser opção consciente, sem mágoa, sem exigência alguma, apenas por não querer provocar, ou de alguma forma forçar, uma reacção no outro que queremos que seja livre e espontânea: verdadeira. Só assim o admitimos, só assim o podemos querer - verdadeira -, seja qual for o tempo necessário para que nasçam em si certezas, porque só queremos alguém com a certeza genuína - aquela que nasce por dentro, selvagem e livre, cheia de força, cheia de si. Só assim terá força, a força da vida que pulsa no sangue que o coração faz correr - que faz viver realmente.
Provocar uma resposta não é responderem-nos, é reproduzirem o que queremos ouvir, não nos responde a nada, é uma espécie de monólogo estéril, que só contenta a quem gosta de se ouvir: quem não ama, não sabe amar. Porque quem ama só quer amar e ser amado - sentindo que ama e que é amado -, e isso nunca pode implicar submissão a não ser ao próprio amor ("em contrapartida, submeti-me eu"...). Não se força, não se provoca, não se faz, surge, e quando surge tem a força que dá a certeza de ninguém ser obrigado a submeter-se - a não ser ao amor que os dois sentem, ou não vale de nada, não vale nada. E isto, isto que se sente assim, é uma coisa que o tempo não pode tirar, o que pode tirar - e tira certamente - é a certeza de que o outro nos deixa sempre submeter, sem nunca se submeter ele ao amor que devia ser dos dois, sem nunca chegar o tempo, dentro do nosso tempo, de querer realmente ficar junto, e que "importante é que exista algo que nos una". E isso seja vivido.


Música do caminho dourado e frio de hoje até estas quatro paredes.
Dull Gold Heart - gosto de muitos dos títulos das músicas desta banda, e da sonoridade também... combina com o caminho e com a disposição de hoje de manhã...
Bom dia
[registo do último amanhecer registado em 2016, 
à porta duma casa vazia comigo, à porta dum novo dia]

Quero encostar o amanhecer ao meu olhar, colá-lo, 
até que a noite não me aconteça. É à noite que eu acordo. 
Adormeço profundamente com o amanhecer a embalar-me devagarinho as paredes do quarto. 
A noite acorda-me a casa toda.
Quero beber a luz até que a escuridão não me aconteça.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017


Bj - recebi

Beijo, não bj
Beijo é coisa que não se abrevia.
Se se abrevia não se dá. - respondi

Beijos.
Plural. 
Sem abreviaturas ou cortes.- recebi

Pluralidade morta por inexistência.
O beijo é sempre o mesmo,
como um amor que se veste
todas as manhãs de mil cores diferentes,
é sempre o mesmo
ainda que nunca igual.
há coisas que não têm plural,
porque não se contam
porque não têm número,
se não são para fazer número.
São inteiras em cada parte,
indivisíveis num todo
que não se parte nem reparte,
que cabe inteiro em cada beijo
que veste cada manhã
do mesmo amor
da cor do dia
às vezes sem cor.
às vezes sem beijos. - pensei, penso, pensarei?... e respondi, mas já não mando beijo

Com o último cigarro do maço entre os dedos, olho pela janela que chove por fora. Tudo acontece por fora e a vida toda trancada dentro, amarrotada para caber. 
Detesto ficar sem cigarros, tenho sempre a sensação que vou querer mesmo fumar um cigarro e não vou ter. Não gosto dessa sensação, mas muitas vezes acontece, e tantas outras em que acontece querer coisas e não poder tê-las. Mas estou aqui, assim, entre a chuva de fora e a sede de dentro, e ponho-me a pensar sem chão, nas coisas que se querem e não pertencem às nossas mãos. Realmente já fui mais do que sou, já fui mais alma, já senti demais, e entre as palavras com que escrevi o demais havia talvez esperança e alguma fé no amor, nas pessoas, na verdade, e isso fazia tudo sair mais intenso, mais forte, mais sentido, com mais vida a correr por dentro, com uma força que se sentia por trás das palavras escritas a gritar muda uma certeza paralítica. Agora não, agora é talvez resignação, reflexões dispersas, pensamentos salteados, cigarros que falam monólogos... Incertezas esquizofrénicas. Eu já fui muito mais, muito mais que isto, mas não soube fazer isso sobreviver em mim, sobreviver a mim, morreu quando tive de matar gente dentro de mim, e quando me morreu gente de dentro. Se calhar amarguei, tudo aquilo que realmente queria evitar... se calhar foi isso, ou então não amarguei mas perdi a doçura, estou assim naquele ponto do não ser nada, nem doce nem amarga, uma coisa a meio caminho de lugar nenhum, só isso, uma encruzilhada de caminhos sem norte. Não gosto de olhar para trás e perceber que perdi tanto de mim, coisas que gostei de descobrir, que eram minhas mas que não estão, não estavam, nas minhas mãos, afinal. Porque as perdi sem querer perdê-las de mim. É o custo a pagar por queimar pontes, e eu paguei-o: apaguei-me. Perdi os caminhos para me chegar.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Não, não devia ter mais paciência... esgotei-a!!
Estou farta de gente parva demasiado ferida de estupidez, e que saem sempre impunes...
Não deveria ter mais paciência, mas devia ser rica e morar temporadas em Paris, 
ou em algum lugar longe de certas criaturas... IRRA!!