segunda-feira, 21 de novembro de 2016






Às vezes parece que o destino se perde nos caminhos, outras que os caminhos perdem destino. Há uma qualquer parte de mim que partiu, que saiu de mim para chegar a alguém. Mas não chegou, não cheguei, não chego. Acho que foi no caminho que o destino se perdeu, fugiu, mudou de sítio, é apenas uma imagem esbatida das cores com que sobressaiu no postal que me fez começar a viagem. Com medo e com vontade: com medo daquela vontade e com vontade de ter medo, mas sabendo onde queria chegar, só não sei, agora, desse destino. Foi no caminho que o destino se perdeu, mas o caminho ainda caminha rumo aquelas cores, ainda procura aquela vivacidade, aquele arrebatamento - aquele destino. O caminho não está perdido, só o destino. E eu.... Eu persigo uma imagem habitante de morada desconhecida, procuro uma porta que mudou de casa.

domingo, 20 de novembro de 2016

[foto @bnwsouls]

Viu o café à beira da estrada. Apeteceu-lhe parar, beber um café para adormecer pensamentos demasiado acordados. Café central - leu e nem se deu conta do sorriso esboçado que lhe saiu da gaveta, sem ter dado conta de a abrir. Essa gaveta, onde guardava pedaços de tempo, como papéis rascunhados de silêncios que se foram acumulando por dizer. "Não comeces, assim estragas tudo" ouviu algumas vezes pela vida dentro e, a cada vez, a gaveta ia aumentando o fundo. Porque, pareciam nunca entender, assim tudo se ia inevitavelmente estragando sem, no entanto, vez alguma estragar o momento - aquele que, naquele preciso instante, encurtava futuras eternidades. Não falava para estragar, mas para não ficar estragado, a apodrecer por dentro das teias do que não se entende, não se pede e não se esclarece. Para não estragar. Encostou. Desligou o carro. Ficou a ver os pingos de chuva a fazerem a sua descida radical pelo vidro, nunca se assustavam, raramente caíam, apenas deslizavam, como se o destino de alguns não seja cair, tropeçar de engano, de falha, mas de deslizar até ao chão, sem embate, sem mossa, sem resistência que resulte em frustração teimosa. Em medo a crédito. Deixam-se, apenas, ser o que são, nunca caindo, só descaindo, resvalando chuva fora, vida adentro. Resolveu, no meio de tanto pensamento infantil, ganhar coragem e servir de chão a uns quantos pingos com esgares bélicos, tal a força com que, de repente, pareciam querer bater. Entrou, três cabeças se voltaram, a quarta ressuscitou do mergulho por baixo do balcão... Pareciam pouco habituadas a ver mulher por ali, ou talvez só a ela, porque não era de cá, ou melhor, de lá. Mas, estivesse onde estivesse, ela sempre lhe parecia não ser de lá... Ou de cá. Sorriu, um sorriso não encorajador de desconhecidos, e pediu um café. Pagou, pegou na chávena e levou para uma mesa gasta pelo descuido, acompanhada de uma cadeira onde pouca tranquilidade se parecia ter alguma vez sentado. Dali via a chuva, ouvi-a sussurrar-lhe aos ouvidos como música que embala quem quer acordar uma qualquer vida que perdeu nalgum sítio, e que já não procura. Abriu o pacote de açúcar, não sem antes ler a frase que lhe calhou em rifa, à moda de fortune cookie de trazer por casa, mas sem futuro ou fortuna... Riu-se. Despejou o açúcar e olhou o café em espiral enquanto o mexia. Olhou o remoinho da vida, pensou que lhe fazia falta - tanta, mas tanta - olhar no fundo duns olhos e ver uma alma a mexer o açúcar do tempo. Misturá-los, bebê-los juntos num olhar que não se troca, mas em que se mergulha. Mergulho de profundidade. Talvez daqueles de que não se sobrevive inteiro.
Bebeu o café que lhe pareceu amargo. Não chegou a fumar o cigarro, havia de o fumar no resto do caminho, com música a iluminar o silêncio. Levantou-se, correu de volta para o carro, tentando passar entre os pingos da chuva. Tirou o pacote vazio de açúcar do bolso. "Bom dia a quem bateu com a cabeça na parede". Há sempre cabeça para mais uma (ou falta dela, e nos dias em que lhe doía menos tinha a certeza que era coisa que não queria ganhar). Abanou a cabeça e riu-se. Continuou.

(sem título)

...o depois de ir e eu ainda ficar para banho e caminho tão mais curto. O ficar outra vez, o despedir, o deixar ir - a sina da minha existência. Custa, dói sempre, o tempo entre os dedos das mãos sem lhes dar o que fazer, sem fazer o que têm para dar.
Chove e eu gosto de ver chover, sentada nas escadas da porta, abrigadas da chuva mas com a vista para os pingos que caem com vontade de chão. E eu aqui, com vontade não sei de quê sem me chover coisa nenhuma, desabrigada de tudo. 

sábado, 19 de novembro de 2016

Na ronha, com a janela de frente, por onde entra o dia como um intruso que me ronda a janela, escoltado por um pequeno curioso, a especializar-se em voos picados, que não precisa de convite. E eu aqui, no quente dos lençóis dormidos, a tentar não acordar por inteiro. A pensar como é estranha alguma não estranheza das coisas, e como estranho algumas que nada deveriam ter de estranho. As vezes não sei o que pensar das coisas, que nomes lhes dar, talvez precisasse de ler os rótulos, de os ver, eu que detesto  rótulos, que gosto de abrir, ver, saborear, cheirar e tocar para saber o que é - ou inventá-lo melhor - vestir-lhe um nome índio que nos diz de quem veste, que tem uma razão e uma história. Que tem um nome que fala. Depois há coisas sem nome, talvez sejam mudas de história e de coração. Precisam dum rótulo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016


Tenho saudades de tantas coisas que já não sei se são saudades ou só avidez provocada por miragens de vidas que nunca cheguei a ter. Dizem que as saudades do que não chegou a ser são as que mais nos doem, talvez porque à falta se junte a noção de termos podido fazer mais, ou alguma coisa, ou algo que ninguém sabe o quê, mas que virasse os dias e entornasse a miragem vida adentro. Ou talvez seja aquela sensação de incompletude, de amputação, de dor fantasma de algo que só imaginámos ter, mas que nos dói perdê-la como se a tivéssemos perdido por excesso de uso. Por ter usado e abusado das ganas de viver, por ter vivido com ganas e rasgado a vida com coragem, audácia e chegado mesmo a roçar a plenitude que alma e corpo nos concedem. Se calhar talvez haja, apenas e só, um excesso de sonhos, uma avidez esfomeada que não tem o que mate a fome. Talvez eu seja dessas criaturas sempre insatisfeitas, sempre à procura das coisas grandes nas mais pequenas coisas, missão que em si não passa de miragem. Talvez a insatisfação seja grande porque se prende com coisas pequenas, tão pequenas e fáceis que se torna difícil a pontaria afinada para lhes acertar e caçar-me o coração. Quisera eu muitas, e grandes, coisas e qualquer um conseguiria acertar nalguma coisa que me contentasse... assim é difícil. Não é para qualquer um. Mas eu também não sou.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016


...porque amar talvez seja uma forma de luta, 
mas nunca uma arma - e não se ganhando batalhas amando, 
deve ser sem dúvida a melhor forma de as perder... 
...Parece-me.
Porque há dias em que as letras teimam em não sair à rua vestidas de palavras, de sentidos, de imagens. Ainda que nos apeteça dizer coisas bem agasalhadas, que aqueçam e confortem, que nos façam agradecer com um sorriso a sensação da ponta do nariz gelada, que cheira as primeiras lareiras no ar, em oposição ao quente que aconchega o corpo debaixo dos camisolões e as mãos fofas de calor dentro dos bolsos. Nesses dias calamo-nos, olhamos o horizonte - ou imaginamo-lo - vamos buscar duas canecas de algo que aqueça por dentro e esperamos que venha alguém pegar na caneca que, sendo nossa, não é para nós bebermos. Esperamos no silêncio, de nariz enfiado no líquido ainda fumegante, que o calor nos chegue. Que chegue.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016


-Sou teu
-Não és meu, mas vou sempre tentar que sejas, e é nesse tentar que mora a paixão.

[esse lugar que deve ser habitado pelos dois, onde as garantias não entram, onde a paz não ganha bolor, onde a inquietação é a música de fundo que nos faz dançar. Onde a incerteza é certa, onde a certeza de nunca se sentir nosso o outro - não além daquele limiar da certeza que um beijo nos dá, que um toque nos diz, que um olhar nos pode jurar e fazer acreditar - é tão incerta que se dissipa no intervalo de tempo que se estica entre um beijo e outro. E essa espera, transformada em medo de não haver próximo, rói-nos todo o tempo. Se chega o beijo, as migalhas de tempo roído sabem a flocos de nuvem doce.]

terça-feira, 15 de novembro de 2016




Houve qualquer coisa que despertaste em mim que não soubeste cuidar, que não quiseste guardar. Que perdeste, que quiseste perder. De que te perdeste.
Há uma parte qualquer de mim que não é minha - que é o lugar de quem me tem - que é das pequenas coisas que me encantam, que se fazem donas dos meus dias bons e senhoras do meu jeito traquina, que me roubam momentos em troca de eternidades. Coisas pequenas, sem jeito, talvez, mas que dão um jeito ao dia. Brincadeiras, palavras agridoces, tontices, gargalhadas que nunca andam longe, presenças que se sentem perto, que nos fazem sentir perto, que nos tocam sem aflorar a pele, mas que não nos desabitam o sorriso. Não nos largam a disposição, o céu azul do olhar. Margaridas apanhadas à beira dos começos de dia, entregues na vontade de serem recebidas, e sentidas - de serem o meu amanhecer em sol de pétalas. Vontade de morar nos momentos que me fazem o dia e habitar-me a vontade. Coisas que se fazem com desejo de chegar ao outro, de chegar a mim, de fazer de ti aquela parte de mim que guardo sob reserva para quem me quiser, e conseguir ter. Quem tiver ganas de fazer lugar, de ser lugar - que possa ser o meu lugar e eu o dele. Um sítio onde nos encontramos e nos reconhecemos no toque, no sorriso, no olhar derramado sobre o essencial. Não onde nos esbarramos para seguir desconhecidos, mornos e amorfos, em que o passado não interessa, o presente é o que for e o futuro não existe. Onde o tempo se conta em horas e dias e tudo tem calendários. Não, um sítio onde se aceita o passado, se goza o presente e se vai fazendo, a cada dia, o futuro. Onde o tempo é um presente que não envelhece, que não se sente passar quando me tocas e não se mexe quando te sinto longe.



[foto @martinrakphoto]

Há dias, como hoje, em que eu deitaria tudo a perder - tudo que é nada, ou um nada que é tudo -, pela vontade de tudo que ninguém sabe nada do que é. E não ganharia nada, absolutamente nada, se do tudo que quero nada sei. Para perder é preciso sentir a perda, sentir uma falta cheia de vazio no sítio onde tínhamos o que nos guardava. Há dias, como hoje, em que não sei o que sentir, em que o horizonte é um borrão sem corpo e o fogo uma miragem em esbatidas aguarelas desenhados por um louco sem destino guardado. Não sinto as garras da vida a esgaçarem-me a pele de dor ou de prazer. Não estou bem mas não estou mal, sabendo miseravelmente que podia estar pior. Como uma espécie de névoa que me envolve a alma, que a protege e a distancia de tudo. Uma coisa sem nervo e sem espinha. Na espessura da indolência nem distingo se me estendem a mão, se me acenam uma vontade ou esboçam um adeus. E não me movo. Deixo o tempo correr pelo corpo como a água do banho que se esquece de me tocar. Nada me toca, como se estivesse meia morta, e isso mata-me. É isso que me mata mais fundo, não chegar à tona de mim, nem esboçar um aceno dessa vontade, ainda que me grite, paralisada, enclausurada por dentro.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016


Segunda-feira, Segunda-feira é hoje, 
Carlos, Zé Carlos... Com'équié?? Hummm??
[no caso original é Carlos Drummond de Andrade, 
mas no post é Zé Carlos mesmo... Bom dia ;) ]

sábado, 12 de novembro de 2016


Se à tua vida, como a uma cadeira, faltam pernas para se manter de pé, enche balões coloridos de sonhos vindos do peito profundo e deixa-os sustentar a verticalidade dos dias... substituir o sol e desfazer-se na boca o sabor do algodão doce duma infância que não tiveste, deixa-os ser o sorriso que te esqueceste de desenhar hoje e a gargalhada que perdeste pela meia dor que lembraste de ontem. Brinca a sonhar, e sonha brincar para sempre. Sonha, brinca e sente tudo - sente-te em tudo. Só não te sentes. Os sonhos não suportam quem na vida se senta. Perdem a cor, e é a intensidade dessa inquietude viva, que não os deixa poisar, e nos levanta. Ou não nos deixa cair.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016



(...)
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love

(...)

Leonard Cohen

Das coisas que ficam para sempre.
Daquelas que agradecemos que alguém tenha deixado que fiquem...
[foto @westaywild]
Há dias em que acordo uma pessoa lisa, ou quase. Lisa como quando se pede água lisa, sem froufrous, piquinhos ou complicações. Daquelas que não são rascunho que se reescrevem sucessivamente e incessantemente, sempre à procura da última versão de si mesmas, a melhor, a certamente incerta de ser a última sobre qualquer assunto, em qualquer dia que seja, ou mesmo noite - ou sobretudo nas noites, onde nem todas as sombras são escuridão, onde nem toda a luz sabe iluminar a calor. Há dias em que me levanto e sinto as coisas como música de fundo, a acompanhar a vida, lá quase no horizonte que não é de tocar, onde toca essa música que embala, mas não abala nem ocupa o palco, muito menos quer saber de holofotes. Alturas em que não preciso das letras para largar o lastro que não deixa o dia levantar, ou eu levantar-me inteira do sono que me descansa de mim, como se me desaparecesse entre os segundos que não sinto passar entre os ponteiros do relógio, entre uma e outra frase que não nos atinge nem de raspão. Um estado quase dormente, um conforto quase indolente. Horas estranhamente prosaicas em que os pensamentos não andam pela casa de saltos altos, a seduzirem-nos o tempo como um encantador de serpentes, que depois mordem nos além da pele. Pensamentos que nem batem à porta por não quererem sequer entrar no dia pela porta da frente, rondam o perímetro com uma distância de segurança, tão segura, que me deixam a falar sobre nada.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Trump ganhou, mas pelo menos serviu para o mundo abrir meia pestana à realidade
Hoje o dia está cinzento, mas pelo menos não chove.
Ele partiu uma perna, mas pelo menos não partiu as duas.
Ele não gosta do que faz, mas pelo menos tem trabalho
Ele não está apaixonado, mas pelo menos não está sozinho.
Ele não a amou, mas pelo menos fê-la sentir bonita.
Pelo menos há sempre um lado reverso, mesmo que não seja o inverso do estar mal, que seria o estar bem, pelo menos. Pelo menos há o menos mal, o que se aproveita, o que resta, o que se salva da desgraça completa e inteira. Pelo menos são os restos mortais do que não foi, mas devia ter sido, queria ter sido, só não chegou. Pelo menos é pela teoria  do menos, ou do mais-ou-menos, do assim-assim apresentavelzinho, do aceitável menos mau, do podia ser melhor mas - pelo menos - não ser pior já é uma bênção... do fatalmente arrasador: não é o que eu queria, mas é o que há!
Pelo amor de deus... Mais! Muito mais!
Querer mais pelo mais de se querer o que se quer, que se almeja, que se deseja, que se sonha em dias bons para ser farol nos dias maus. Querer, querer mais que o pelo menos: querer o que não tem de nos encolher para servir, de encurtar o sonho para não termos de cortar com a realidade, de ser fingido porque não há papel passado para a felicidade (embora tantos representem esse papel)... Há ser feliz. Ou não. Pelo menos... pelo menos não chegar não ser infeliz.
Pelo menos que o pelo menos não chegue.
Pelo menos isso.
A mim, pelo menos, não chega. E a ti?

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Gostei do "minha", do querer "sentir-te minha",
não porque o oiça como posse, mas porque me é doce a sensação de pertença.
Como uma casa a que se chega, a que chamamos nossa, não por plena propriedade de direito, mas porque pertencemos àquela casa. Algo nas suas fundações nos suporta, algo da sua luz nos conforta, o cheiro é a lar, a conforto que se sente mal se passa a porta. Como se parte de nós estivesse ali e nós fizéssemos pleno sentido ali. Só ali.
É ter em mim algo teu, que te faz meu;
 é teres em ti algo meu, que me faz tua. 
Como o coração fora do peito a bater ao nosso ritmo noutro peito.
Só nesta geografia fora do lugar faz sentido - se faz o sentido.
Em que o lugar não é um sítio mas um querer bem.
Um bem-me-quer. 
Meu, de querer-te bem. Teu, de bem me quereres.
...hummmm.
Pois, conheço alguém com uns traços parecidos...
... e só aqui entre nós, eu aconselharia primeiro a fazerem-lhe a vontade e só depois rir...
...é que senão pode não correr tão bem, sei lá...
A ordem dos factores não é arbitrária, não...
e o bipolar pode ter raízes nos outros polares, aqueles grandes com'ócaraças e que quando se chateiam não queremos nem ver as costas... os ursos, pois.


terça-feira, 8 de novembro de 2016


O que me prende o olhar é o encanto, aquele que o olhar vê em qualquer canto, que se aninha num qualquer recanto da alma por ocupar. Tem qualquer coisa de mágico, qualquer coisa de indecifrável, que nos deixa suspensos num olhar que lançamos, que nos prende por dentro a qualquer coisa de fora que nos fala, que nos falta, mas que tem algo de nosso... Que se sente nosso fora de nós. Território por reclamar... Uma paisagem, a inclinação da luz entre as nuvens, um sorriso, as cores escandalosas de um por-do-sol, uma música que parece feita de nós, para nós, um poema que nos revela e nos desfaz, reduzidos a grãos de areia que caberiam no bolso dum coração generoso, ao lado das estrelas cadentes que guardámos porque caíram para serem apanhadas pela fotografia do nosso sorriso. O encanto tem nós cegos feitos no nosso código genético, faz os nós e desfaz os nós com a mesma displicência ingénua de uma criança num espectáculo de magia. O encanto não está nas coisas, está no olhar que sobre elas poisa, que navega sonhos em oceanos secos e revoltos. Quando o olhar despe o calor do sentir, vê que a mira desafinou, que a música é um ruído transfigurado, que todos os dias o sol se põe, que as estrelas caem num vazio onde ninguém tem bolsos - percebe que a magia é uma ilusão. E a ilusão é apenas desilusão. São coincidentes em tempo e em modo, gémeos do mesmo engano. A desilusão é a mera constatação da ilusão, nascem no mesmo instante ao descodificar a prosaica realidade de que a magia somos nós num dia bom. É o nosso olhar cheio de sorrisos luminosos a procurar-se num recanto sombrio faminto de luz, onde se possa aninhar e encantar. Depois é o desencanto em qualquer canto, todas as musicas desafinadas, a alma cheia de nós... E o olhar, teimoso, a vaguear  entre a magia da poesia e as pedras que fazem tropeçar um mau pedaço dum bom caminho 

e na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos, dias,
sem saber dizer se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar
a perder-te

Vasco Gato

[nunca há garantias. por muito que se chore ou não chore, faça ou não faça, nunca há garantias. podemos , e devemos, tentar manter o que temos, alimentá-lo, melhorá-lo, trabalhar para isso, incendiar todos os dias um momento que seja... mas quem pensa ter alguém garantido já o perdeu, pode começar a chorar.]
... Assim, a meio caminho do inferno. 
Onde é que já se viu?
Depois de tampas e parvoíces várias - como tentar ser resistível ao irresistível, tentar responder à altura das parvoíces mas ficar-se pelo meio riso encolhido, irritar-se com certas aparentes imunidades a charminhos vários, largamente testados e comprovados em cobaias facilmente impressionáveis - vai que a caminho do inferno parou no arrozal... Agora é inferno por todos os lados... E margaridas paradisíacas também... Às vezes até arroz, desde que não seja eu a cozinhar...

segunda-feira, 7 de novembro de 2016



"gosto de pessoas que dançam. daquelas que se abanam ao primeiro ritmo que lhes salta ao ouvido. que é diferente das pessoas que vão dançar. as pessoas que dançam fazem-no a toda a hora, no carro no meio do trânsito, no balcão da cozinha a fazer o jantar, apenas no corredor enquanto se vestem, na janela durante o cigarro. ou, ainda melhor, enquanto namoram a caminho do quarto. (...) 

as pessoas que dançam não sabem como o fazem. não tem coreografia ou técnica. sai-lhes, solto, em forma inconsciente de movimento. às vezes ficam sem jeito, no meio da rua, com o vizinho a olhar. mas que se lixe, sabe tão bem, dançar no carro, na rua, no meio das vinhas, em cima do muro. ou tirar os sapatos e dançar na terra, na praia, na relva fresca.(...) gosto especialmente de ver alguém a dançar sem saber que estou ali (ou mesmo sabendo, puramente a ignorar que estou), mas no maior gozo de quem se sabe bonita apenas por ser assim, solta. 

atraem-me em particular as pessoas que sorriem enquanto dançam. que puramente estão a divertir-se, naquele bocado de corpo que mexe. ou mais bonito, quando nos fitam e se riem primeiro no olhar, e só depois no rosto, enquanto se aproximam. há pessoas que dançam assim o dia todo, estejam longe ou perto, visíveis ou afastadas. basta uma mensagem, um beijo, uma telefonema e sente-se o braço a puxar, a embalar no ritmo. a melhor dança? é essa, a dois. noite dentro entre jantar, um copo demorado, muitos beijos longos e amores prometidos. ou depois, no fim, a dança dos meus dedos nas tuas costas, lentos, até adormeceres, também com um sorriso, solto."

Momentos tirados daqui... e o que eu gosto destes momentos...

Hoje de manhã a minha pequenitates pede... "mamã põe aquela música em que começas sempre a dançar, põe alto, até à escola..." E assim foi, a mãe pôs e cantou e dançou até à escola, percebendo um ou dois sorrisos fugidios de alguns rostos que nos apanhavam em tamanhas tontices boas logo pela manhã... realmente a vida sem música não faria sentido. Adoro dançar, acho que é uma das duas maneiras de se libertar o corpo, soltar a alma, fechar as janelas ao mundo. Dançar de olhos fechados, de sorriso rasgado no ritmo da música que faz o corpo ondular, abanar, vibrar ao som que parece só ser ouvido por nós. Há algo que renasce, que floresce, que acorda. Que nos lembra que há vida, mesmo na maior escuridão, se houver uma música que nos acorde o acorde da vontade - da vontade de ser ritmo e movimento e um sorriso que dança. Mesmo que o mundo nos paralise, ou apesar de.

[E a caminho do trabalho foi esta, que também não me deixa quieta e que combina tanto com o caminho... tanto. E com alguns dias também, como hoje.  Lift me up lift me up... higher and higher...]

domingo, 6 de novembro de 2016



Dia de passeio, de ver animais de porte, cavalos bonitos. Dia de comprar uma bóina e gostar de a usar. Dia de sol e cheiros diversos, alguns adversos. Dia de me lembrar que me disseram que égua é um animal submisso, e de continuar sem perceber, ou ver, isso. Dia de apreciar o porte que monta a beleza, a força e a majestade. Dia de conversas que põem sorrisos ao sol tentando soprar nuvens altas, mesmo que na vida chovam picaretas. Dia de fotos de coisas que gosto, ainda que a foto que tinha na cabeça e queria, o telefone não a tenha conseguido apanhar... E de fotos para recordar dias bons com pessoas que gosto. Dia a repetir. De bóina mesmo.

sábado, 5 de novembro de 2016




Há dias que não parecendo vazios por fora parecem tão vazios por dentro. Onde o tempo nada às voltas dentro dum aquário vazio sem se cansar. Agitam-se as águas, mas o tempo não se afoga, faz piscinas sem fim sem destino de chegar. Sem dia de onde partir. Sem noite onde aportar. Outros dias há em que um só minuto dá norte, uma só palavra inunda o dia. Há palavras que parecendo nada por fora são tudo por dentro. Norte, partida e destino.
Há dias em que a única navegação da alma é coser palavras a pensamentos e cortar, com os dentes do destino desacontecido, a linha do tempo que os juntou.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

[foto @txabe_ss]

"De vez em quando deus me tira a poesia.
 Olho pedra, vejo pedra mesmo."
Adélia Prado

De vez em quando abro os olhos 
 e não acordo
De vez em quando olho
e não vejo
De vez em quando falo
e as palavras são só letras mudas
De vez em quando respiro
e não inspiro
De vez em quando o dia nasce
e não amanhece
De vez em quando a margarida fecha por falta de luz, 
mesmo que esteja cheia de cor aos olhos dos outros. 

Há dias em que a cor me foge do olhar para dentro do negro dos meus olhos. Fica por lá, navega, reduz-se, paira, chega a afogar-se sem se dar conta dela. Por isso, dentro dos meus olhos negros, de vez em quando, vejo a vida a duas dimensões: sem profundidade. Sem poesia. Como quando a vida fica em vácuo.
Hoje uma pedra é uma pedra, mesmo que amanhã não possa ser outra coisa que não a certeza - absolutissima e mais que definitiva- de ser um coração à espera de acordar, de ver, de inspirar, de amanhecer.
Hoje a pedra enterrou a poesia. Ninguém sabe porquê.




Às vezes dizemos que estamos a fazer tempo, que fazemos tempo, como se o tempo fosse produto de vontade, força ou engenho. 
O tempo é coisa escassa, mas que nasce a cada momento. E morre também, ainda que seja feito de infinito. O tempo é coisa invisível, maleável e por de mais relativa, mas de medidas absolutamente rígidas. E só cabe onde quer, mesmo que alguns gostem de o chamar elástico.
O tempo cai quando não estamos a olhar e desliza quando estamos à espera. Se olharmos de frente para ele, não se mexe, e se não damos por ele é porque fugiu. É coisa que se agarra tanto como o vento... podemos enfunar velas e aproveitar, ou podemos levar com os despojos, que arrasta com violência, se não tivermos cuidado.
O tempo é o que dizem que cura tudo. Eu só vejo que esbate a cor nas fotografias.
O tempo é aquele segundo por que perdemos a corrida, e aquele segundo que deslizando teima em não cair. Nem que o abanemos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016


Gosto quando damos pela vida noutras mãos
e não é aflição que mata, nem paz que morre.
Gosto quando dessas mãos
deslizam palavras em gestos com gosto de alma.
Paladar de pele pelo avesso e direito da alma,
por direito.
Gosto quando o desejo passa do olhar
para as mãos famintas,
Gosto quando a vontade lambe a pele.
Gosto quando os beijos sabem a música
e os sussurros mordiscam prazeres
escondidos num sorriso aberto,
guardado numas mãos que nos entregam.
Gosto.
Não gosto quando as mãos nos fugirem
foge às nossas mãos.
Não gosto.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016


[foto @onyximtimates]

É o defeito dos dias bons, vir contente e vaidoso no meio dos desgraçados, dos desgrenhados e dos apenas desengraçados - dos que não são bons nem maus, são ressacas dos dias bons. Aparentados só por proximidade, deixam um certo amargo de boca e cinzenta a disposição póstuma. É o ar que não enche o pulmão, é o sol que não passa o vidro, é o sorriso que teima em não rasgar e ficar pelo esgaçar do momento que não chega a chegar inteiro. É ter tudo à disposição mas nada servir ao coração. É fazer contas à vida e faltar sempre a prova dos nove, dos noves-fora-nada. E não foi nada. Não foi. Nada.
[foto: @cuddleupnow]

"Uma voz de homem disse: «O Senhor Santomé? Oiça está a falar com o tio de Laura. Uma má noticia, senhor. Uma noticia verdadeiramente má. A Laura faleceu esta manhã.».
No primeiro momento, não quis entender. Laura não era ninguém, não era Avellaneda. «Faleceu», algo tão insuportavelmente fácil como isso. Estaria certamente a encolher os ombros. E isso também era um nojo. Foi por isso que cometi um acto tão horrível. (...) «Porque é que não vai à merda?». Nessa altura, tiraram-me o telefone e falaram com o tio.
(...)
Não se preocupe menina, o seu papá está perfeitamente. Sabe o que aconteceu? Faleceu uma colega e ele impressionou-se muito. E com razão, porque era uma rapariga extraordinária». Também ele disse: «Faleceu». Bom, talvez o tio, o Muñoz, e os outros façam bem ao dizer «faleceu», porque isso soa tão ridiculo, tão frio, tão distante de Avelleneda, que não a pode ferir, não a pode destruir.
(...) mexi os lábios para dizer: «Morreu, a Avellaneda morreu», porque a palavra é morreu, morreu é a derrocada da vida, morreu vem de dentro, traz a verdadeira respiração da dor, morreu é o desespero, o nada frígido e total, o simples abismo, o abismo. "

"Então, quando mexi os lábios para dizer: «Morreu», então vi a minha imunda solidão, aquilo que havia ficado em mim, que era bem pouco. (...) Ela começara a entrar em mim, a transformar-se em mim, como um rio que se mistura demasiado com o mar e por fim se torna salgado como o mar. Por isso, quando mexia os lábios e dizia «Morreu», sentia-me atravessado, despojado, vazio, sem mérito. Agora alguém chegara e decretara: «Despojem este tipo de quatro quintos do seu ser». E haviam-me despojado. O pior de tudo é que esse saldo que agora sou, essa quinta parte de mim mesmo em que me converti, continua, no entanto, a ter consciência da sua exiguidade, da sua insignificância. Comigo ficou uma quinta parte dos meus bons propósitos, dos meus bons projectos,, das minhas boas intenções, mas a quinta parte da minha lucidez que ficou comigo chega para me dar conta de que isso não serve. A coisa acabou, simplesmente."

Mario Benedetti, in A Trégua 


Sempre pensei assim sobre a notícia da morte, nunca o tinha visto escrito, mas li e disse para mim: finalmente alguém me entende! Alguém ouve o que eu oiço.
A mim as pessoas não me falecem, as pessoas morrem-me. Falecer soa-me a um amenizar diplomático para a morte, um suavizar para não ferir, um termo mais domesticado, menos agreste, menos duro. Eufemismos. Como se a morte pudesse não ser dura, como se pudesse não ferir, como se pudesse aparecer sem nos arrancar uma parte, sem cerimónias, à dentada de carne quente. As mortes, as nossas mortes, aquelas que nos gritam e nos roubam por dentro, que desarrumam tudo, que deitam tudo abaixo, são duras, são violentas, fazem nascer outras tantas mortes a seguir de que não desconfiávamos, com que nunca contámos. A vida tem ligações tão estranhamente diversas, intrincadas e delicadamente discretas, que algumas só se notam quando acabam, quando são rompidas, e então percebemos que as havia e o que as sustentava - o que nos sustentava. Falecimento não é morte que nos morra, é morte de que tomamos ou damos conhecimento. É morte que não nos toca, não está tão próximo que apunhale, que fira, que mate, que morra. É um tiro limpo, rápido, duma vida acabada hermeticamente. Morrer, morrer-nos alguém, dura para sempre, entranha-se o vazio por baixo da pele, habita-nos o olhar tempos sem fim: o tempo que a morte dura. Dura sempre e é sempre dura. Morrer-nos alguém que gostamos, que nos faz, é arrancarem-nos um bocado que não sabíamos que não era nosso, mas o vazio que fica torna-se nosso para sempre. Enchemo-lo de saudades e de passado que queremos presente, sempre, e não deixa - nunca - de ser vazio.

[porque li agora uma coisa que me fez lembrar este post antigo, de outras vidas...]

Dum ramo inteiro
 num pé minúsculo
Das intenções grandes 
nas coisas pequeninas
Dos pequenos mimos 
que fazem tudo de nada
Das flores com vida guardada, 
mesmo depois murchas
Dos dias que ficam
no que ficou dos dias.
Dos instantes suspensos,
pendurados em minúsculas eternidades,
 nos cheiros, olhares e sorrisos
 que se colam à pele.
Dos dias que passam
e se entranham inteiros entre os segundos
de todos os que se seguirão.
Uma praga ou uma bênção.
Das respostas que se pedem 
ao vento que deixa o tempo passar.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Translating:
Be stupid enough to 
accept being broken before breaking

Sentou-se à espera do que não se espera,
do que não se espera alguma vez esperar.
Sentou-se e procurou o que não se procura,
o que se procura nunca procurar.

Porque os encontros não se procuram
e os desencontros não se esperam.

Um dia, sem estar à espera,
quando já não procurava,
deu por si a esperar 
não ter encontrado o que procurava.
Porque só sabia esperar o que não se espera
Só sabia procurar o que não se procura

Ninguém lhe ensinou
 o encontro inesperado.
Aquele que nunca se aprende

domingo, 30 de outubro de 2016


Parei em frente ao portão fechado, oiço por trás de mim uma voz meiga a dizer: "fechou às cinco, amor". Virei-me, "..,às cinco? Não sabia, obrigada." Sorri por trás dos óculos escuros, dum sítio qualquer, a que respondeu "fala com o segurança, pode ser que ainda deixe entrar um bocadinho." Foi o que fiz, de flores na mão, margaridas rosa e aquelas flores brancas pequeninas de que, segundo a minha mãe, herdei da minha avó o gosto. Prometi serem só quinze minutos, que era rápido, como se naquele sítio a pressa não fosse um absurdo mais absoluto que a morte. Entrei pelos caminhos sossegados, dos lugares com flores novas, frescas, e dos outros, com a morte desabitada, quase abandonada, como se certas partidas não fossem o derradeiro abandono. Não critico quem não vela a morte pela visita. Os nossos mortos velam-se apenas pela presença diária duma ausência para a eternidade. Não são os que lá são desabitados que têm a alma esquecida, vivem enquanto nos estiverem nos dias, nas memórias, na repetição do que nos deixaram em momentos, em palavras, em pequenas eternidades embrulhadas em certos instantes que não se desvanecem.
Gosto de lá ir em dias de datas desassinaladas, ou das que eu assinalo, gosto de ir sozinha e sem ver gente, de estar sozinha com quem me deixou mais sozinha. Não consegui, não tive tempo de me sentar naquele banco, onde vejo o rio e o céu e o tempo de quem já não o vê. Não tive tempo para ter tempo com quem já esgotou o seu nesta terra feita chão onde outros caminham. Deixei as flores, mal arranjadas mas bonitas, as que gosto. Aquelas, que estas mãos arranjaram, mesmo que mal, num ramo que mistura o que sou, o que me fizeram, o que fiz do que me deixaram nas veias a correr. Parei cinco minutos a olhar pelo vidro, voltei a pôr os óculos quando o céu já não sabia do sol, fiz o caminho de regresso que para alguns já não é caminho, porque não há regresso. Há ausências de que não se regressa que nos acompanham para sempre o caminhar.

Essa coisa de acharem foleiro uma mulher chamar a pessoa que escolheu para a vida de "meu homem". Essa coisa de a mesma palavra designar género e relacionamento: nascida mulher e mulher de um marido. Essa coisa de o homem poder ser homem e marido, ou só homem ou só marido. Essa coisa de separarem umas coisas e não outras. Essa coisa de acharem que as éguas são cobertas e isso ser coisa inferior, como se ser fêmea fosse estrato mais rente ao chão do que macho. Como se o que decorre da natureza fosse humilhante, como se ser coberta por macho, que a fêmea aceite e escolha, desse primazia ao macho porque cobre, ainda que depois de ser aceite. A mulher é fêmea, eu sou fêmea, e não acho que dizê-lo seja diminuir-me, como não acho que dizer macho superioriza alguém. Ou diminui. Embirro com as feministas que diminuem a fêmea, ser fêmea, quando a sua maior força é essa, e isso ser diferente - tão diferente e a beleza de tudo estar precisamente aí - de ser macho, mas de só assim as coisas fazerem sentido, encaixarem, serem o seu papel. A Marilyn tinha frases estupendas, duma inteligência a que poucos chegavam perdidos no caminho do loiro platinado. Como esta, ou como quando dizia que uma mulher querer ser igual ao homem era falta de ambição, porque, na verdade, este não lhe é superior na sua diferença. É apenas diferente. A cada um o seu papel, mesmo que um seja cobrir e o outro seja escolher querer ser coberta, ou não, por aquele macho. Acho bonito - acho mesmo lindo, daquela beleza natural que volta ao intocado e irracionalizado e deseducado - alguém dizer de quem escolheu para a vida ser o seu homem, ser a sua mulher, independente dos rótulos, das relações, do estrato social, educação ou ponto geográfico. Porque ser o meu homem é ser a minha escolha para tudo, dentro de todo o género masculino, independente de qualquer relação, laço ou designação. Nunca resignação. É a ligação pura, essencial, crua. Coberta de razão do que é natural, descoberta de rótulos e preconceitos.



[foto @lovepaperplane]

Passava lá maior parte do tempo. Diziam, com toda a razão, que não jogava com o baralho todo. Nem percebiam sequer ao que jogava ou que cartas precisava ou quais lhe faltavam. Não conheciam os seus jogos, ela jogava com o baralho que tinha. Diziam que não era todo, que não estava completo. Tinham regras para tudo, até para o número certo de cartas, sem perceberem que depende do que se quer jogar. Ou se se quer jogar.
Quando não sabiam onde parava iam encontrá-la invariavelmente na estrebaria. Ultimamente passava lá dias quase inteiros, ou melhor, em todos os momentos inteiros do dia. Estranhamente saía de lá sempre com um sorriso de alma inteira e uma margarida a desenhar-lhe os jeitos do cabelo. 
Ela agora parecia dedicar-se a escovar um enorme animal, de porte majestoso, de pelo brilhante, de temperamento indomável, musculatura de campeão, altura de rei, mas que parecia gostar de ser escovado por ela enquanto ela falava, contava histórias, ria-se, gargalhava até. Andava para cá e para lá, alimentava-o, brincava, tinha medo dele, de cair, de ele fugir, de ele não sossegar para ela o escovar. De ele desembestar mundo fora, para longe da estrebaria onde ela se sentia segura - onde guardava as suas coisas, onde fazia casa -, de tão inquieto sentir ser o bicho. 
Ninguém percebia o que fazia ela tanto tempo naquela estrebaria vazia, sem vivalma, a falar sozinha como se não estivesse, a viver como se sonhasse outros mundos, a viver noutros mundos como se este não fosse sequer sonhado. Diziam que não jogava com o baralho todo, procuravam cartas onde ela via histórias, procuravam animais onde ela cuidava dos seus sonhos.

[sim, não jogo com o baralho todo, não é novidade e não foi por falta de aviso essa surpresa...]
(foto @oxy.to.cin)

Caminhava despreocupada entre o formigueiro de gente que se movimentava como quem tinha um sítio marcado onde chegar. Parecia que só ela observava, só ela, andando, estava parada naquela engrenagem infernal. Viu um rosto que lhe lembrou alguém. Procurou nas memórias sem sucesso, não se lembrava quem aquela cara lhe lembrava, ou quem sabe, até seria. Sentaram-se numa esplanada, ele ao lado dela a olhar para algum lado que ela não via, que ela nunca via, e ele parecia nunca a ver, ou procurar ver para onde ela olhava, senão talvez se encontrassem. De repente lembrou-se: era a cara dum familiar afastado que não via há muito tempo, há muito que não sabia nada dele. Pegou no telefone ligou à irmã, descreveu-o, perguntou-lhe o nome. Desligou o telefone perplexa. Tinha morrido há vários anos, não podia ser ele, ou sendo, só o seu fantasma. Chegaram os cafés, ela aqueceu as mãos na chávena e por instantes fechou os olhos para aquecer o olhar. Quantos dos que se vêem serão fantasmas? Se não soubermos se morreram ou não, são gente como nós... pensou com um sorriso cego que lhe morreu nos lábios e que nunca ninguém viu. Quantos de nós já estarão mortos? Quantos saberão disso? Abre os olhos e, pela primeira vez naquele dia e não sabe há quantos dias, olhou-o nos olhos, disse-lhe: "era um fantasma". E ele, atónito, repete em pergunta: um fantasma? E ela sente um arrepio que vem da terra, que lhe sobe pelos pés, que chega à boca para lhe responder, respondendo-se a si mesma tantas perguntas por fazer que agora ali se respondiam, quase antes de feitas. 
-sim, morreu há anos mas não para mim porque não sabia... se calhar, se não soubermos, as pessoas não morrem, até as vemos noutras pessoas, ou então são fantasmas. As ruas podem estar povoadas de gente que já morreu e não se sabe, e, para quem não sabe, estão vivas ou é como se estivessem. Parecem vivos, mas são fantasmas. - semicerra os olhos, metade em desafio, metade com cara de miúda traquina, e acrescenta - "percebes?"
-que disparate... fantasmas?... só dizes disparates.
-disparate? Estás a olhar para um... morri para ti há anos e tu não sabes, nunca quiseste saber, talvez tenha morrido por causa disso. Morri para ti, mas o mundo nasceu-me, outra vez, agora.
Levanta-se e mistura-se na engrenagem do mundo. Deixa para trás aquela máscara, aquela armadura, aquela pele endurecida naquele tempo de vida que serviu apenas para chegar àquele momento, àquele arrepio, em que volta à sua pele, ao que é, ao que sempre foi. Desistiu de desistir de si mesma. Naquele momento regressa-se e reconhece-se. Por baixo daquele tempo e daquela pele sempre fora assim, ela, apenas andou anos a tentar esquecer-se porque ninguém se (a) lembrava dela.
Pergunta-se, enquanto se levanta, se saberão que agora ela está viva para o mundo?... que deixou naquela mesa os despojos duma pele e duma vida que não era sua, que já não queria, que não era ela, nem dela. Soltou-se para agarrar a essência. Não era um fantasma.

sábado, 29 de outubro de 2016


Um tempo maravilhoso, o sol quente, as nuvens de transparência fina, um sábado sossegado, para mim... Sorrisos que vão aparecendo, mágoas que se querem desaparecidas. Um pequeno almoço que segue um banho lento, dos que podiam lavar a alma se a água chegasse tão fundo... A preguiça estendida em cima da cama, enrolada molhada numa toalha cada vez menos seca. A luz a entrar pela janela, de esguelha, à procura do ângulo para se estender na parede, à minha frente, cheia de circunstância e nenhuma pompa. Cá em casa não entra pompa e há circunstâncias que saem a correr.  Mas não a circunstância de tirar a toalha e enfiar um roupão leve em cima da pele, essa circunstância prolonga-se num pequeno almoço grande, que faz de almoço sem enganar ninguém. O sol quente mergulha na pele, dá umas braçadas na alma, onde nada mas não há pé. 
Olho para a mesa, no tabuleiro a circunstância do café com leite ser ainda leite e café, em camadas. Sobreposto, não envolvido, não misturado. Só de olhar não sabemos se se misturam, se se podem misturar de tal forma que depois já não se saiba dividir um do outro. Distingui-los sequer. Às vezes só de olhar não se vê. É preciso saber do que se é feito para fazer o que não pode ser desfeito. E para isso, muitas vezes, tem de se desfazer muita coisa.
E agora comer e vestir para tomar um café... Gosto destes sábados devagar, com o vagar de domingo que lhes quisermos dar.




Um beijo que se manda
Mas nunca chega

Um beijo dado
Que nunca adoça a pele 

Um beijo com sobrenome de vontade
Beija-nos por dentro da pele, 
a cada viagem que promete fazer

Um beijo que ficou por dar
Sentindo-se essa ausência 
É um beijo devolvido
Daquele que nunca chegou.
É a viagem de volta do que nunca partiu.

Bom diaaaaa ronhaaa....

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Havia um canteiro de papoilas em casa do meu avô, e eu gostava de passar por ele, sempre que ia e vinha de casa dele - de brincar com ele e com as papoilas. Papoilas: vermelhas, e sempre tão estranhas, não sei se bonitas, mas têm aquele aspecto selvagem, de quem não precisa de muitos cuidados, porque o seu maior cuidado é ter ganas de sobreviver, e sobrevivem. Sozinhas vão-se sustentando dia a dia, têm a sua força nessa vontade selvagem de ser, de nascer e aguentar-se de pé. Nem bonitas nem feias, mas com uma graça frágil, simples, natural e ao mesmo tempo cheia duma força quase sobrenatural.
....volta e meia volto às papoilas da minha infância, e à mão que procurava para agarrar a minha, uma mão forte, quente em ternura e protecção. Não eram mãos bonitas - de tão esquisita que sou com as mãos -, mas eram umas mãos que me faziam sentir bem. Mãos que tantas vezes espreitei, de soslaio, noutras que me faziam lembrar essas, que me levavam no tempo e no sangue até elas. Também essas já não me amparam, não me seguram, não me protegem, levaram com elas a protecção, o sentir que há mãos que se podem procurar para nos agarrar, para não nos deixar cair - ou melhor ainda, não precisar de as procurar... tudo isso acabou. Alguém me devia ter avisado que eu devia ter crescido antes disto. Procuro nessas mãos da memória a memória duma segurança que não tenho, mas que tento agarrar no vazio das mãos que perdi. E colo, esse colo que me ampara e repara de todos os males, que os faz desaparecer como num passe de magia para crianças que crêem, enquanto me semeia dentro, um sorriso que já não sei sorrir, mas em que creio.
Tenho saudades, saudades de tudo, de tanta coisa que é o meu tudo, de tantas pessoas que me são e que me faltam... tenho saudades de estender a mão e procurar uma mão, como a minha filha procura a minha quando caminhamos lado a lado, e mesmo sem qualquer perigo aparente, encontra-a, e segura-a. Seguro-a. 
Seguro-a sempre, será que ela sabe?
Alguém me devia ter avisado que eu devia ter crescido quando as papoilas morreram naquele canteiro.

Saramágica - chama-me ele porque me falta a pontuação, porque não sei pôr as virgulas, os pontos, os travessões, esses cruzamentos bastardos que são os ponto e vírgula... mas os pontos nos i´s não me falham. Sei que tem razão, que a cabeça se esquece de pontuar, que às vezes até se esquece de dizer como escrever o que passa a uma velocidade desnorteada, capaz de cruzar a mesma esquina duma ideia, em sentidos opostos, ao mesmo tempo. Tem vezes que até a mim me dá um nó cego nos sentidos, oriento-me pelos sentires - sempre - e tento deslaçar as palavras sem perder o laço, enquanto deixo, descuidada, cair as regras da pontuação, como quase todas as regras da vida nesta vida. Como hei-se agarrar a pontuação se estou afogueada a tentar não deixar escapar a essência, a ideia, a imagem, o que me aparece em monólogos internos e inteiros e inquietos. E tontos tantas - quase todas - vezes. Quero que me ensine, que me abrande sem me travar, que me ponha as vírgulas nas pontas dos pensamentos e nos momentos certos, que em dois pontos me declare o impossível, que me puxe as orelhas entre parênteses, que me perceba sem qualquer ponto e vírgula, que me sussurre sem travessões e me queira sem pontos finais. Não gosto de pontos finais, prefiro a magia dos ritmos que não sucumbem a pontos finais. posso gostar de pequenas pausas em que os recomeços não são fardados de maiúsculas de pompa e - principalmente - circunstância, (tão à moda, que gosto, do Hugo Mãe). Os parágrafos são-me difíceis, como todas as mudanças de tema, de história, de personagem, de mudança imposta que não cai no ritmo. No meu ritmo despontuado, desregrado e intensamente desregulado. Só os tolero se forem desculpa para descanso merecido depois de maratona ofegante, de história dentro da história, que nos prende o fôlego e faz correr galopante o sangue ao coração. Daquelas histórias que Saramago escreveria num parágrafo mágico, enorme, a que não faltaria ritmo, ainda que às vezes nos faça faltar o ar ( e tenho para mim que é quando nos falta o ar que melhor nos respiramos). Esses recomeços bons são continuações apaziguadas que adiam fins sem fim, sem perder o fio à meada, só o ar de vez em quando: como quando nos fazem exclamar de surpresa boa e nos fazem interrogar se a vida tem, ainda e sempre, nalgumas pessoas, luz dentro da escuridão. Dessa luz das searas que faz a vida acontecer nas suas mãos. Magia sem vírgulas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016







Impor, obrigar, não toca: empurra.
A alma não pode ser empurrada.
A alma vive da vontade, dos nossos quereres mais fundos, que não controlamos, que somos, antes de tudo o resto à volta existir em consciência. É o que mais nos faz.
Nem a razão controla a vontade.
Não entram imposições nem controlos onde a terra é dos sentires. A alma só é tocada se sentir, e não se sente por imposição, apenas, eventualmente, é-se empurrado para a mentira.
A alma é livre - é, talvez, a dimensão única da liberdade pura.

[por isso nunca quis ninguém obrigado. sem alma, nem o corpo é presente... nem a pele prenda.]



Suster alguém numa qualquer paragem que o tempo parou de sustentar. 
Suster alguém num instante sem assustar o tempo que galopa no coração dum puro sangue.
Viajar num beijo por uma vida inteira por acontecer
Que não pára de acontecer a cada encontro por agarrar, 
a cada desencontro de vida que se quer falhar,
sustendo no tempo, no espaço, no impossível, 
um encontro inevitável.
de sustentável imobilidade.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016


Há uma ternura avassaladora que a alma desprende
que enjaula, doido, o desejo debaixo da pele

Há um desejo ardente a queimar a pele
Que arde na alma sem se consumir

Há um desejo selvagem
que só se solta quando a alma chega a casa.
Yet.
Socorroooooo!!
Enfiem-me numa casa de doidos que hoje nem dou pela diferença
 e sempre me chateava menos.
E dormia mais.



Primeiro foram as mãos que me disseram
que ali havia gente de verdade
depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que ali dentro havia um tigre
naquele repouso havia movimento
olhei-te e no sol havia pedras
parámos ambos como se parasse o tempo
parámos ambos como se parasse o tempo

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas

atrevi-me a mergulhar nos teus cabelos
respirando o espanto que me deras
ali havia força havia fogo
havia a memória que aprenderas
senti no corpo todo um arrepio
senti nas veias um fogo esquecido

percebemos num minuto a vida toda
sem nada te dizer ficaste ali comigo
sem nada te dizer ficaste ali comigo

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
(...)

Pedro Barroso

Há coisas que leio que me deixam tão pouco por dizer, que roubam as palavras por devolverem o sentido dos sentidos, do sentido querer. Do querer tão sentido. Do desejo que se bebe na pele, duma sede que nasce por baixo da pele. Nasce e morde-te, acorda-te, emaranha-te numa revolução sem mote. As mãos agitam-se de vida errante, mas de verdade, quando, das verdades certas perderam o sentido do Norte que se esquece de sentir. Mãos que se querem boca e pele e sol. E beijo, um só, que se faz sede e dá de beber. Sobram palavras quando os olhares gritam, soçobram os sentidos quando a pele sente por dentro o que toca por fora, desperdiça-se silêncio quando nele não cabe um beijo dado de corpo inteiro, entregue numa palavra que não precisa ser dita. 
"É tão dificil encontrar pessoas assim bonitas", mas se encontramos é inevitável que o tempo perca o seu papel, que um minuto possa ser uma eternidade inteira, que um beijo tenha corpo e asas e sonhos. Que se poise esse beijo nuns lábios como se a vida fosse um breve instante à espera de voar.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Cura tudo que se pode curar e adoece-nos de vontade de beber a vida num trago 
quando se ri a pessoa certa, com a piada certa.
Ou a piada acerta-se porque a pessoa é certa. Nunca acerto com isto...
Bom Dia

sexta-feira, 21 de outubro de 2016


A luz brinca, entra por todos os recantos, ri-se em sombras. Abraça, agarra o tronco como quem puxa uma cintura, passa as mãos por ramos e galhos como quem passeia levemente por braços e pernas, passa e abana as folhas como se passasse os dedos sedosos pelos cabelos de luz. Faz tudo como se não fizesse nada. Brinca como se não fosse o sol a emaranhar-se nas árvores, brinca como se brinca à vida que não fica por viver. E às vezes fica. Tantas vezes fica.

[escrito no caminho de regresso do Alentejo, descoberto agora nas notas do telefone porque faltava a foto. E hoje apetecia-me Alentejo, estradas sem norte, curvas sem esquinas, dourados que afagam. apetecia-me esquecer-me, deixar de ser-me, ter-me como uma sombra se fecha numa mão. Em vez disso fecho-me num escritório e sonho num dia em que me abra numa seara.]

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sim, como quando se sabe que é aquela pessoa que queremos. 
Não é porque nos conseguimos imaginar o resto da vida com ela... 
é porque não nos conseguimos imaginar sem ela dia nenhum da nossa vida. Nem queremos.
Era bom poder sentir uma coisa dessas, acreditar, e depois poder ficar com essa pessoa, não só imaginá-la, não apenas sonhá-la, vivê-la -  sabê-la certa. 
Confiar.

terça-feira, 18 de outubro de 2016



Talvez se eu aumentar a minha latitude não dê pela tua longitude. Talvez o medo não seja instinto seja pele que veste a pele para não sentir a alma que guarda nos limites vertiginosos do equador do ser. Talvez não acreditar seja acreditar que é melhor não crer, que querer não basta e que nunca sabemos do querer do outro lado da fronteira. Somos sempre estrangeiros quando saímos de nós, somos sempre refugiados quando o sentir nos expulsa as fronteiras do mapa que nos segura, e nos vemos espalhados por mundos que não governamos, que não são para ser entendidos, mapeados ou pacíficos. Talvez não sabermos a Terra que pisamos nos faça sonhar céus onde as nuvens não são nossas, mas onde a chuva nos refresca a vida e nos lava os dias como nossos. Céus onde o azul nos aquece o olhar e o sol nos tinge a pele sem licença, queimando o medo que o sol despreza. Talvez o medo se amedronte quando o sol abre os braços mas é tudo o que resta quando o abraço anoitece. Talvez se eu diminuir a minha latitude acredite que a tua longitude não se mova do impossível e todas as coordenadas estejam condenadas.

terça-feira, 11 de outubro de 2016


... E ela apanhou o cabelo enfeitou-o com uma flor de sonho, 
sorriu como quem veste a pele de sol e a alma dum dia por nascer.  
Sabendo que o ocaso é um acaso que se pode esquecer, por querer ou só por acaso.
[recebi esta foto e diziam-me para a pôr no cabelo, que ficava giro... Saiu-me isto.]

sexta-feira, 7 de outubro de 2016



A aproveitar os últimos cartuchos. Daqui a nada banho e estrada até à vida de todos os dias. Ainda não pensei no caminho, mas não o quero direito nem directo, quero saborear o tempo, lamber com os olhos as vistas que dão de comer. Quero parar e guardar momentos, quero música o tempo todo, quero vidro aberto e o vento a passar. Quero o sorriso a vestir a alma e quero gargalhadas que dispam tudo. Mesmo sozinha quero tudo inteiro e completo. Quero o azul no longe da linha do horizonte e até lá o dourado que será fogo ao entardecer. Quero arder nesses tons. Quero não pensar e ter tudo pensado. Quero mais que tudo, não querer nada. E tê-lo.