sábado, 17 de dezembro de 2016

As minhas palavras nascem com origem mas sem destino. Nascem de mim, do que penso, do que me baralha, do que me dói, do que preciso libertar para ganhar perspectiva ou só paz. Sabem onde nascem mas nunca sabem onde vão acabar, ou qual o destino. Quando começo a ceder às palavras raramente sei onde me levam, e depois não sei onde pararão, onde apeiam, qual o destino depois de acabadas, depois do último ponto final. Que voltas dao depois de mim? Viajam ou apenas morrem? Onde chegam? Alguem as acolherá assim sem destino?... eu só preciso delas para me recomeçar, também sem destino, só composto de partida. Cada dia que deixo levantar em mim não sei onde irá parar, não há controlo, não sei se fará parte dos dias que ficam ou se se juntam aqueles que contam tempo que não se guarda, que não conta. O tempo que se guarda é de vida, do que nos marca - para o bem e para o mal - a ferro e fogo. O tempo que se guarda é a nossa vida, a nossa idade. Talvez por isso muitas vezes me digam que pareço tão mais nova do que sou... Mas quem me conhece acha-me mais velha do que sou. Tempo guardado não se vê e não se conta em anos, mas é o tempo que já vivemos. Eu já vivi muito. Bom e mau, mas não se vê, e ainda bem. Guarda-se e guarda-nos, é lá que encontramos a alma a respirar.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016



É engraçado quando de repente olhamos à volta e somos a única criatura adulta a dançar sentada, a mexer a perna, os ombros, a abanar-se. Não percebo como a música não lhes dança no corpo, não lhes entra nos músculos, o cabelo não ganha ventania, não nasce movimento. Fiquei cheia de saudades de dançar, de dançar com vontade, de fechar os olhos e deixar o corpo esquecer-se do peso de existir, deixá-lo voar com a música, ser música. Gostei de ir, a minha pequenitates ficou contente, as coisas conjugaram-se e consegui ir e fazer-lhe a surpresa quando já não contava... Gostei, gostei mesmo de ver a miúda dançar coisa muito ligeira mas que dá para ganhar o bichinho... Agora quem parece estar a ganhar bicho sou eu, à espera de cortar a trunfa...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016


As coisas impossíveis não existem.
Tudo o que existe é possível.
Mas sendo possível pode não existir.
Não existir não é impossível.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

... das heranças que ficam. 
Cada pessoa que passa por nós, e de alguma fora nos toca, deixa alguma coisa. Eu fui ganhando ao longo da vida músicas novas, sonoridades que não conhecia, fui compondo a minha banda sonora. Houve quem deixasse muito - música, expressões, momentos suspensos para a eternidade, formas de olhar que o tempo não apaga, pequenos nadas que semeiam sorrisos muito mais à frente do sítio onde resolveram mudar de caminho, abandonar o nosso passo, seguimos sem eles, mas sem a sua completa ausência. 
É engraçado olhar para trás e ver o que fui coleccionando de cada pessoa que deixou algo de si em mim e que agora faz verdadeiramente parte de mim, de como falo, do que gosto de ouvir, de palavras carregadas de história que não conseguem sacudir, como uma chuva que os ossos beberam. E é isso, é isso tudo que nos faz e que nos faz ser sempre inacabados. Eu sou eu e tudo o que escolhi guardar dos outros, que se calhar já era eu sem saber. Coisas que gostava, algumas que eram realmente feitas duma essência que me era também essencial, mesmo que desconhecida. Uma pessoa descobre-se por reconhecimento... Os outros ajudam-nos sempre a descobrir-nos, a vermo-nos e entendermo-nos melhor no que gostamos, a sermos mais nós em muito mais olhares do que aqueles que víamos antes de nos mostrarem.
Pergunto-me o que terei deixado como herança, ou sequer se deixei alguma coisa e o que terá sido. Às vezes gostava mesmo de saber... outras pergunto-me o que ainda não sei de mim.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016


Beijo-te como despedida da despedida
Numa dança que não conhece o silêncio dos corpos.
Nem a mentira no movimento
Tudo é puro
É o que é,
E parece ser.
É o que é sentido.
E é sentido esse olhar,
Quando os olhos se fecham
Para ver
Carinho em cada recanto dum gesto
Ternura em cada silêncio que fala
Abraço que acalenta
Mimo em cada toque
Desejo em cada urgência descompassada
Ao compasso certo dos corações nos lábios,
Na língua, na pele
Beijo-te
Como quem responde a todas as perguntas que te faço.
Beijo-te em despedida
Despida de respostas
Vestida de adeus


Me too... 
...And yes you can
(Já dizia alguém...)
Os sagitarianos serão, segundo os entendidos nestes desentendimentos, as criaturas mais sábias e filosofas do zodíaco. Serve-lhe a vida para ir afinando a pontaria da flecha, que sempre dispara para longe (para as estrelas muitas das vezes, outras para horizontes imaginados que deseja), tem o seu quê ( e deve ser maiúsculo...) de selvagem - a força animal habita-lhe as pernas, o que os faz correr a toda a brida donde querem fugir, ou para onde querem ir... embora poucas vezes cheguem a chegar, às vezes parece só prazer em galopar, conhecer, ver, viver. 
Entre carneiros, caranguejos, peixes, touros ou mesmo leões, signos simbolizados por animais ou outras coisas (aquários, balanças, etc),  é o único caso "stereo" do zodíaco: é animal e humano - instinto selvagem e razão ( é um upgrade, portanto... Cof cof ), uma mistura completa, incompletas as duas metades que o fazem inteiro. Deve ser das faíscas da combinação que têm  fogo por elemento.
Das melhores descrições que até hoje me passou pelos olhos ficou-me, e diz qualquer coisa como: acautelem-se - criaturas metade humanas, metade selvagens, e a parte humana ainda vem armada de arco e flecha!!... Eheh

domingo, 11 de dezembro de 2016


... Realmente, só pode ser mito.. Quem é que pode gostar de acordar de manhã???!!!!... Eu não. As pequenas criaturas, nada míticas, que trazemos ao mundo obrigam a cada coisa...
Bahhhhh... já estou atrasada e o sono ainda vai ficar mais atrasado, e isso, sim, é um atraso deveras problemático... E nada mítico.
Bom dia.

A lua está tão luminosa, tão linda, tão magnética que é impossível não lhe colarmos o olhar. As páginas do livro não resistem, perdem a minha atenção, as palavras desfazem-se no luar. É em gesto quase automático que fecho o livro e me levanto do sofá, desligo a luz e deixo o luar ligar-me os sentidos à alma, abarcar-me inteira. Sento-me à beira da janela, nariz quase colado ao frio do vidro, e deixo-me navegar aquela luz, divagar devagar à deriva naquela força da gravidade lunar, que me puxa e dá asas, sem me fazer mexer um músculo. Não, não é verdade, mexi só os necessários para me roubar um sorriso de meia lua inteira. Não é lua cheia, mas esta luz é inteira, a parte sombria da lua não lhe ofusca este brilhar intenso e denso, intenso, sem ser deixar de ser leve e de nos levitar, a pairar à sua volta, tal como os fiapos de nuvens que rodeiam aqui e ali, e que só lhe favorecem a beleza, como finos véus esvoaçantes. Se se conseguir uma luz brilhante o suficiente, nem se dá pelas sombras que trazemos.

sábado, 10 de dezembro de 2016


[Clarice Lispector faria hoje anos.]
Compartilho este medo de um dia deixar de sentir, de ver a vida de régua e esquadro, de entender o fio invisível que explica o caminho que liga o passado ao futuro e nos revela à laia de algoritmo previsto e previsível. Por muitas perguntas por responder que tenha, talvez perguntar seja o motor dos dias. Quando só tiver respostas anoiteço-me sem sequer questionar o luar, sem contar as estrelas que me faltaram mapear dum olhar perdido no caminho que não sei onde me levou, nem o que me levou.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Acordou, não sabia se dum pesadelo ou só da realidade que lhe destinaram sem que a reconhecesse sua. Ainda. Levantou-se a custo, à medida que se levanta, tudo regressa com  a certeza do que se passou, não tinha vivido o pesadelo a dormir, mas acordada, e sem anestesia. Passou pelo caixote fechado que guardava o vestido branco ainda por despir de planos, projectos e felicidade desenhada. Olha-o e ouve a alma esgaçar mais um pouco ao golpe da incompreensão ainda quente. Os passos sofrem uma arritmia e, de fugida, entra na casa de banho, liga a luz do espelho. Quando se viu, as lágrimas começaram a correr, lentamente primeiro, depois em convulsões de corpo inteiro. A alma não  sossegava, gritava, esperneava, contorcia-se por dentro da pele que parecia recusar, como se também ela se rejeitasse por dentro dela, à luz da imagem que até o espelho devolvia. Não sabia o que fazer com ela, com o corpo dela, com a alma que lhe tinham dado, que a vida tinha esculpido primorosamente, para, vagarosamente, a destruir toda, inteira, à força de picareta. Hoje era mais um dia de destruição. Teve raiva de si, teve raiva dele, teve raiva da vida que os juntou para nada, ou para pior que nada, para aquilo. Para o desacontecer dum amor que só a ela tinha acontecido. Há uma semana, a uma noite de tudo, um bilhete deixado naquele mesmo espelho roubou-lhe toda a vida até ali e toda a que dali lhe tinha sido prometida. "Não  sou capaz, não consigo fazer isto" - uma cobardia inteira numa frase só de fragmentos por explicar, assim, sem mais nada, sem mais uma palavra além daquelas sete - uma por cada ano que apagou, que roubou à ilusão.
Porquê aquilo? Porquê assim? O que haveria de errado com ela, com aqueles sete anos? Com a felicidade que sentia ser partilhada?
Levou as mãos à cabeça, de cabeça perdida, ao cabelo que ele tanto gostava, era o que mais gostava nela, tinha-lhe dito vezes sem conta, os seus cabelos de fogo, compridos, brilhantes, de ondulação larga, que ele dizia ser como um mar calmo e fundo de intensidade, onde navegava pelas estrelas dos seus olhos e mergulhava em profundidade de amor. Ela lembrou-se disto e, sem querer, sorriu. Sem querer, sem aviso, sem notar, sem ter havido um esboço que o adivinhasse, como a desavisada plenitude que a tomava quando lhe habitava o colo doce como casa própria e certa, onde a espontaneidade era o ar que se respirava sem se pensar nisso, onde o único esforço era parar de rir ou mimar ou esticar as noites até ao limite do sono e das obrigações do mundo. Mas riu-se, o espelho denunciou-a, encriminou-a, devolveu-lhe o sorriso que não quis dar, que não queria dar, que o passado lhe rasgou da boca e que aquele bilhete selou como morto. Um bilhete em troca de sete anos.
 Fecha os olhos e leva as mãos à cabeça, aquele sorriso acordou aos berros um grito mudo por dentro, tão intensamente sentido, que a ressonância na alma estilhaçou as garrafinhas de fino vidro onde se quiseram trancar os sentimentos como essências que se querem esquecer. Negar se possível. Matar se impossivel.
Quando tira as mãos das ondas ruívas só navegadas por quem, afinal, não as quis, vieram-lhe juntas, as duas mãos, cheias de cabelos - os seus cabelos, os cabelos dele. Ficou atónita, não percebia, não entendia o que se passava. Seria um pesadelo? Será que desta vez a realidade lhe escapava das mãos, e nao os cabelos, e iria acordar? De boca ainda aberta, e olhos por acreditar, voltou a passar as mãos pelo cabelo, agora com intenção, com ganas de perceber o que se passava na sua cabeça, na sua cabeça perdida. Mais uma vez os cabelos pareciam desistir, um a um, todos lhe vinham agarrados às mãos. Ela repetiu o gesto, uma e outra vez, e quando o espelho lhe deu a sua imagem completamente desgrenhada, meio careca e impotente inteira, desatou-se uma gargalhada de profundezas desconhecidas. Riu-se do fundo de si, riu-se de si, riu-se dele, riu-se da vida que, parada, a queria apanhar. Ria-se enquanto, agora propositadamente, tirava da sua cabeça todos os cabelos, despia-se daquele mar de fogo. Careca e resplandecente, olhou o espelho e não conseguiu deixar de se ver, finalmente viu-se despojada de tudo. Cada cabelo perdido como uma recordação arrancada pela raiz frouxa, cada frase, que guardava com o zêlo que tratava do cabelo que era dela mas para os olhos dele, reduzida a cinzas. Libertou-se de tudo. Ao contrário de Sansão, em que o cabelo lhe levou a força, a ela o cabelo levou-lhe a fraqueza, a sua maior e mais pungente fraqueza - a mais perigosa porque a tomava toda, de corpo e alma. Com o cabelo foram-se os suspiros, os choros, as perguntas infindáveis e os desesperos de querer ser amada por quem só lhe amava o fogo manso do cabelo, o calor da ondulação suave que parecia embalar-lhe o desejo, apenas isso. E nem isso.
Saiu de casa com ar triunfante, de sorriso estampado na cara toda, agora maior, enorme, até à nuca. Passou pelo porteiro, a quem caiu o queixo, ela levantou uma gargalhada e disse-lhe: 
" Não se preocupe. Foi o desgosto que me levou o cabelo quando saiu. Se o vir por aí, em cabelos de fogo, diga-lhe que o fogo sou eu." - e riu-se, mais uma vez.
Parou em frente à porta de vidro - o sol invadia sem medo o chão, o tempo, o corpo -, enquanto se via reflectida em compasso maduro de renascimento procurou na enorme carteira, invariavelmente desarrumada, os óculos de sol, pô-los, e saiu para o mundo sem cabelo, sem fraquezas, sem precisar de defesas. Sentiu-se inteira, nua de medos, careca do desgosto que a fez perder o cabelo e despida do amor que lhe tinha feito perder a cabeça. A partir desse dia todas as provas de fogo eram jogadas em casa e a cobardia incinerada à primeira mansa desilusão.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016


...realmente tenho para mim que quem é surdo que nem uma porta deve mais facilmente ter dias bons... Até porque, a bem da verdade, surdo assim, se quiser abre a porta, sei lá... Ouve só o que quer e gosta. Eu não, oiço coisas a mais e tenho dias bons de menos. Devo ser surda que nem um pneu furado, não vai a lado nenhum até que o mudem.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A noite desarma-me do dia
E com a noite cai a armadura
Despe-se o peso da força
Doi a moleza dos ossos
Que Veste as grilhetas da nudez 
Que me soltam ao que sou
Que me entregam ao que não posso ser
A não ser debaixo da noite
Onde me escondo da força que não tenho 
Que me descobre a força que finjo
Que veste a fragilidade que o dia cobre
Numa armadura que o sol não despe

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

[foto de Hossein Zare]

A vontade é o enorme e profundíssimo abismo que separa a sobrevivência do viver. Para sobreviver basta ir respirando, comendo, fazendo o necessário. Cumprindo o instinto. Para viver é preciso o desnecessário, o inútil... e a vontade. Curiosamente a vontade vem, por norma, dessas coisas desnecessárias e inúteis para continuar a respirar, mas não para perder o fôlego, para respirar fundo, para encher o peito e o dia, dando-se conta que a alma é o que mais oxigena e nunca expira.
O que mata muito da vontade são as pequenas (e as grandes também, pois) frustrações, as injustiças, a sensação (e a prova, como estocada final) de que a corrente é demasiado forte para o nosso esforço de batê-la. Dormir começa a parecer um idílio celestial, uma pausa num esforço inglório, onde os olhos se desligam e a cabeça se fecha, onde não a deixamos fugir em devaneios - dores ou sonhos, o que for, vai tudo desaguar no mesmo mar, na mesma sobrevivência quase amorfa.
Preciso sair deste rio, evaporar-me e chover-me noutro lado, regar outras plantas, desenhar outras margens, navegar outras curvas onde me perder e me afogar. Preciso de mudar tudo para poder continuar a ser-me sem me perder.
Quero um monte no alentejo, um alpendre cheio de tempo com horizonte cosido a todas as vistas, quero perder-me nas searas, encontrar-me na sombra duma árvore, adormecer com o por do sol dourado nos olhos, quero beber os tons de fogo que ensopam a terra, que acalentam por dentro, mas não queimam.
Quero fugir-me para onde eu estiver. 
Estou cansada, farta, mais uma chatice, desisto, façam-me desistir porque este ano foi demais, não me quebraram, não me dobraram, mas desfizeram-me a vontade e a força, dobraram-me doutra maneira. Não sirvo.
Curiosamente já não tenho medo, não tenho medo do julgamento, não tenho medo do que eu possa pensar de mim, nada pode piorar, estou quase tranquila, entregue à vida num futuro em que não acredito, confio-o nas mãos dum destino sempre por cumprir, sempre desdito ou contradito, sempre vida que fica por viver - sobrevivência. Ler e escrever-me, talvez a única coisa que me resta, e não tenho medo disso. O medo não sobrevive à esperança.


domingo, 4 de dezembro de 2016


Ahhhh... Então é por isso!! 
...Caramba, boa explicação!! 
Eheheheh
Bom domingo

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016


[foto: @paradoxos]

"Já não escrevo poesia para mudar o mundo 
mas tão-só para evitar que o mundo me mude a mim."

Manuel António Pina

... mas muda, vai mudando, pétalas vão caindo, as pequenas memórias vão morrendo, os sorrisos perdem elasticidade, o coração encarquilha, a poesia voa-nos do olhar. Vão-se arranjando e aplicando pensos rápidos para dores lentas, vamos enganando a vida com o tempo disfarçado de dias, mas em que o tempo não chega a ser tempo, e os dias não chegam a contar. O tempo só faz de conta de alguma coisa que não sabemos, mas que nesse jogo de faz de conta que conta já perdemos, ainda que os dias não passem porque não acertam contas com o tempo que conta... Mas já nem queremos saber o que, ou como, perdemos, são contas que queremos perder sem fazer de conta. Vamos, a pensos rápidos, tentando enganar lentamente a mágoa a prestações. A mágoa que não faz de conta e nos muda, lentamente, o mundo a cada dia, que nos sufoca a poesia que não nos respira, e isso muda-nos o poema da vida.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016



"Se o teu olhar é vazio, todas as paredes do mundo estão em branco " - acordei hoje várias vezes com esta frase na boca, a cabeça repetia-ma e eu dizia-a sem desfazer o silêncio da manhã por acordar. Estive para acordar os olhos e escrevê-la, para me largar de vez e deixar dormir, de teimosa não o fiz, mas a frase, teimosa, ficou. Ficou-me. Ficou-me a falar até agora, o que me quereria dizer ou o que eu queria dizer - afinal se saiu da minha cabeça é minha para mim, por muito estranho que tal pareça.
A fazer o almoço tentei desmontá-la - a lembrar-me de como em pequena via construções de legos do meu irmão que faziam mil coisas das mesmas coisas -, e lê-la, vê-la, percebê-la de todas as formas que me lembrei... Quando não temos nada para dar, a todas as pessoas falta alguma coisa... Quando nunca vivemos verdadeiramente, o olhar é claro, límpido, fácil e muito mais vazio, não se lêem as paredes, não se percebem os muros - não se sabe distinguir uns de outros, porque vão vemos além do mundo, nem sabemos ninguém... Se não o tens em ti não o verás nunca, vê-se como se é, como diz Anaïs Nin numa das minhas frases preferidas...
...Seria isto?

quarta-feira, 30 de novembro de 2016


O que está perdido, tempo nenhum devolve. O que está perdido não se recupera. Uma mesma curva não se curva de forma igual nem por duas vezes, à segunda vez já a conhecemos.
O meu olhar de hoje não olha como olhava ontem. O meu olhar de hoje viu coisas que ontem ainda não tinha visto.
Hoje não sou igual a ontem, mas sou a mesma. Continuo a mesma - a faltar a umas coisas para não perder as que realmente me fazem falta. Hoje, como ontem, como amanhã, são sempre frutos de escolhas, que são prioridades, as nossas prioridades.
O tempo não se perde, mas perdem-se para sempre as coisas que deixámos de fazer, trocadas por outras, que feitas nesse mesmo tempo, não se perderam.
O que deixámos de fazer, está perdido, tempo nenhum devolve. Fazer ontem não é o mesmo que fazer hoje. Fazer hoje e não ontem é uma escolha, já não podemos fazer hoje, da mesma maneira, o que poderíamos ter feito ontem. O nosso olhar não é o mesmo, já viu que ontem a escolha foi não fazer, foi trocar por fazer uma outra coisa, que era a nossa prioridade. Preterimos, deixamos cair, perdemos o que escolhemos não fazer, mesmo que o façamos hoje.
Hoje já não seria como ontem, amanhã já não será como hoje
No entanto nada muda. Tudo na mesma, ainda que nada igual.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

[ foto @happydays796]

Há pessoas que podem gostar de mim,
Mesmo que eu não seja fácil de gostar.
Há pessoas que me sabem dar colo,
Mesmo que não me entendam as tristezas.
Há pessoas que me acham doce,
Mesmo que vítimas das minhas agrestes defesas.
Há pessoas que me encontram sombria,
Mesmo que eu só tenha cor para dar.
Há pessoas que me dizem complexa,
Mesmo que não me chamem complicada.
Há pessoas que me vêem um diabinho,
Mesmo que outras só me vejam sossegadinha.
Há pessoas que me vêem bonita,
Mesmo sendo uma mulher que ninguém nota.
Há pessoas que me chamam,
Mesmo que não me saibam dizer.
Há pessoas para tudo...
Eu sou só uma,
Sou só eu,
mesmo com muita gente dentro.
Mas não sou para qualquer um que me olhe,
E não quero um qualquer que me veja,
Só quero gente habitada,
Desabituada de vazio.

... There's no other way.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

...mood of the day...
...ser surpreendente
(mas só em pensamento, pronto... mas em pensamento 
há pessoas hoje que já podem ter ficado sem dentinhos...)
eheheh