quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A noite desarma-me do dia
E com a noite cai a armadura
Despe-se o peso da força
Doi a moleza dos ossos
Que Veste as grilhetas da nudez 
Que me soltam ao que sou
Que me entregam ao que não posso ser
A não ser debaixo da noite
Onde me escondo da força que não tenho 
Que me descobre a força que finjo
Que veste a fragilidade que o dia cobre
Numa armadura que o sol não despe

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

[foto de Hossein Zare]

A vontade é o enorme e profundíssimo abismo que separa a sobrevivência do viver. Para sobreviver basta ir respirando, comendo, fazendo o necessário. Cumprindo o instinto. Para viver é preciso o desnecessário, o inútil... e a vontade. Curiosamente a vontade vem, por norma, dessas coisas desnecessárias e inúteis para continuar a respirar, mas não para perder o fôlego, para respirar fundo, para encher o peito e o dia, dando-se conta que a alma é o que mais oxigena e nunca expira.
O que mata muito da vontade são as pequenas (e as grandes também, pois) frustrações, as injustiças, a sensação (e a prova, como estocada final) de que a corrente é demasiado forte para o nosso esforço de batê-la. Dormir começa a parecer um idílio celestial, uma pausa num esforço inglório, onde os olhos se desligam e a cabeça se fecha, onde não a deixamos fugir em devaneios - dores ou sonhos, o que for, vai tudo desaguar no mesmo mar, na mesma sobrevivência quase amorfa.
Preciso sair deste rio, evaporar-me e chover-me noutro lado, regar outras plantas, desenhar outras margens, navegar outras curvas onde me perder e me afogar. Preciso de mudar tudo para poder continuar a ser-me sem me perder.
Quero um monte no alentejo, um alpendre cheio de tempo com horizonte cosido a todas as vistas, quero perder-me nas searas, encontrar-me na sombra duma árvore, adormecer com o por do sol dourado nos olhos, quero beber os tons de fogo que ensopam a terra, que acalentam por dentro, mas não queimam.
Quero fugir-me para onde eu estiver. 
Estou cansada, farta, mais uma chatice, desisto, façam-me desistir porque este ano foi demais, não me quebraram, não me dobraram, mas desfizeram-me a vontade e a força, dobraram-me doutra maneira. Não sirvo.
Curiosamente já não tenho medo, não tenho medo do julgamento, não tenho medo do que eu possa pensar de mim, nada pode piorar, estou quase tranquila, entregue à vida num futuro em que não acredito, confio-o nas mãos dum destino sempre por cumprir, sempre desdito ou contradito, sempre vida que fica por viver - sobrevivência. Ler e escrever-me, talvez a única coisa que me resta, e não tenho medo disso. O medo não sobrevive à esperança.


domingo, 4 de dezembro de 2016


Ahhhh... Então é por isso!! 
...Caramba, boa explicação!! 
Eheheheh
Bom domingo

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016


[foto: @paradoxos]

"Já não escrevo poesia para mudar o mundo 
mas tão-só para evitar que o mundo me mude a mim."

Manuel António Pina

... mas muda, vai mudando, pétalas vão caindo, as pequenas memórias vão morrendo, os sorrisos perdem elasticidade, o coração encarquilha, a poesia voa-nos do olhar. Vão-se arranjando e aplicando pensos rápidos para dores lentas, vamos enganando a vida com o tempo disfarçado de dias, mas em que o tempo não chega a ser tempo, e os dias não chegam a contar. O tempo só faz de conta de alguma coisa que não sabemos, mas que nesse jogo de faz de conta que conta já perdemos, ainda que os dias não passem porque não acertam contas com o tempo que conta... Mas já nem queremos saber o que, ou como, perdemos, são contas que queremos perder sem fazer de conta. Vamos, a pensos rápidos, tentando enganar lentamente a mágoa a prestações. A mágoa que não faz de conta e nos muda, lentamente, o mundo a cada dia, que nos sufoca a poesia que não nos respira, e isso muda-nos o poema da vida.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016



"Se o teu olhar é vazio, todas as paredes do mundo estão em branco " - acordei hoje várias vezes com esta frase na boca, a cabeça repetia-ma e eu dizia-a sem desfazer o silêncio da manhã por acordar. Estive para acordar os olhos e escrevê-la, para me largar de vez e deixar dormir, de teimosa não o fiz, mas a frase, teimosa, ficou. Ficou-me. Ficou-me a falar até agora, o que me quereria dizer ou o que eu queria dizer - afinal se saiu da minha cabeça é minha para mim, por muito estranho que tal pareça.
A fazer o almoço tentei desmontá-la - a lembrar-me de como em pequena via construções de legos do meu irmão que faziam mil coisas das mesmas coisas -, e lê-la, vê-la, percebê-la de todas as formas que me lembrei... Quando não temos nada para dar, a todas as pessoas falta alguma coisa... Quando nunca vivemos verdadeiramente, o olhar é claro, límpido, fácil e muito mais vazio, não se lêem as paredes, não se percebem os muros - não se sabe distinguir uns de outros, porque vão vemos além do mundo, nem sabemos ninguém... Se não o tens em ti não o verás nunca, vê-se como se é, como diz Anaïs Nin numa das minhas frases preferidas...
...Seria isto?

quarta-feira, 30 de novembro de 2016


O que está perdido, tempo nenhum devolve. O que está perdido não se recupera. Uma mesma curva não se curva de forma igual nem por duas vezes, à segunda vez já a conhecemos.
O meu olhar de hoje não olha como olhava ontem. O meu olhar de hoje viu coisas que ontem ainda não tinha visto.
Hoje não sou igual a ontem, mas sou a mesma. Continuo a mesma - a faltar a umas coisas para não perder as que realmente me fazem falta. Hoje, como ontem, como amanhã, são sempre frutos de escolhas, que são prioridades, as nossas prioridades.
O tempo não se perde, mas perdem-se para sempre as coisas que deixámos de fazer, trocadas por outras, que feitas nesse mesmo tempo, não se perderam.
O que deixámos de fazer, está perdido, tempo nenhum devolve. Fazer ontem não é o mesmo que fazer hoje. Fazer hoje e não ontem é uma escolha, já não podemos fazer hoje, da mesma maneira, o que poderíamos ter feito ontem. O nosso olhar não é o mesmo, já viu que ontem a escolha foi não fazer, foi trocar por fazer uma outra coisa, que era a nossa prioridade. Preterimos, deixamos cair, perdemos o que escolhemos não fazer, mesmo que o façamos hoje.
Hoje já não seria como ontem, amanhã já não será como hoje
No entanto nada muda. Tudo na mesma, ainda que nada igual.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

[ foto @happydays796]

Há pessoas que podem gostar de mim,
Mesmo que eu não seja fácil de gostar.
Há pessoas que me sabem dar colo,
Mesmo que não me entendam as tristezas.
Há pessoas que me acham doce,
Mesmo que vítimas das minhas agrestes defesas.
Há pessoas que me encontram sombria,
Mesmo que eu só tenha cor para dar.
Há pessoas que me dizem complexa,
Mesmo que não me chamem complicada.
Há pessoas que me vêem um diabinho,
Mesmo que outras só me vejam sossegadinha.
Há pessoas que me vêem bonita,
Mesmo sendo uma mulher que ninguém nota.
Há pessoas que me chamam,
Mesmo que não me saibam dizer.
Há pessoas para tudo...
Eu sou só uma,
Sou só eu,
mesmo com muita gente dentro.
Mas não sou para qualquer um que me olhe,
E não quero um qualquer que me veja,
Só quero gente habitada,
Desabituada de vazio.

... There's no other way.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

...mood of the day...
...ser surpreendente
(mas só em pensamento, pronto... mas em pensamento 
há pessoas hoje que já podem ter ficado sem dentinhos...)
eheheh

domingo, 27 de novembro de 2016

[foto @endlessfaces]

... Há dias em que se acorda e não se quer nada. Quando não se quer nada tudo está bem - se não bem, muito melhor. Nem me interessa se o espelho é amigo ou apenas hipócrita... Sei que hoje gosto dos olhos ainda que não do olhar, gosto de mim ainda que nem sempre me tenha em boa conta. Apetece-me sair de mim ainda que saiba que isso é o que melhor me define por dentro, que isso sou essencialmente eu, e que gosto desse eu, meio estranho, sempre a caminho da saída de si mesmo, ou o desejo de. Hoje saio de casa e despeço-me do passado que não chegou a ser, passeio pelo presente sem vontade de futuro e virando costas ao que pode ser que tivesse sido... Hoje é hoje, e hoje não quero nada.

Sleep tight don't let the bed bugs bite. - repetia isto, como lho haviam repetido em criança, do coração, às filhas, como se assim repetido nenhum mal lhes chegasse, nada lhes inquietasse a inocência dos sonhos. Repetia-o como uma oração a um Deus maior, aquele que afasta os primeiros medos dos corações puros. Os medos dos monstros que um dia viriam a ser homens como os outros, e medo de ter medo de não saber aprender a fazer como os outros, como dantes não sabiam apertar os atacadores, medo que não as amem - medo de um dia deixarem de ouvir a frase que as fazia sorrir um sono descansado, na sensação tranquila de que alguém as protegia, enquanto lhes velava os sonhos e os sonos.
Um dia as meninas cresceram aos olhos e, talvez por acreditar nisso, deixou de o dizer, mas os medos não se afugentaram, só já não viviam nessa sensação de que alguém as protegia. Os monstros viraram homens incompreensíveis, que se repetiam como um só sempre diferente; e os apertares de outros  atacadores eram tarefas dignas de Hércules,  como segurar as pontas do sobreviver ao mundo, dia após dia. Aprenderam a viver com a sensação de não serem amadas, o que interessava era chegarem ao dia seguinte inteiras. E chegavam. Inteiras, só não completas. Alguém tinha deixado de lhes velar os sonhos porque já não eram de meninas os medos, que continuavam a ser, debaixo das noites por dormir e apesar dos dias por viver. Cada menina precisa de continuar a ouvir uma frase que faça sorrir um sono descansado.
Sleep tight don't let the bed bugs bite.

sábado, 26 de novembro de 2016



[foto @annadecriscio]

Às vezes o tempo escorre melhor pelos dedos quando fechamos os olhos, quando nos deixamos nas mãos do sono sem sonhos. Deixamo-nos dormir como quem entrega o tempo ao tempo. A vida entregue à fé num deus em que não acreditamos, mas dormimos como quem reza. Assim estou eu, entre um sono e outro, entre a ronha e o acordar mentido. Entre o querer dormir e o deixar o tempo adormecer.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016





Toca-me como se fosse tua
Toca-me como se te fizesses meu
Toca-me como se fosse tua rainha e tua serva
Toca-me como se fosses meu senhor e meu escravo
Toca-me como se me conhecesses
Toca-me como se me quisesses todos os dias desde sempre
Toca-me como se nada mais importasse
Toca-me como se os teus dedos fossem só alma
Olha, olha-me,
olha-me, como se nunca me pudesses tocar.
Toco-te?







Não sou pessoa de coisas mornas e semi-aquecidas, asfixiam-me, deixam-ne sem ar, como se respirar fosse apenas um inspirar-expirar consciente de obrigação de sobrevivência. Talvez haja quem o faça por instinto, esse mesmo: de sobrevivência, mas nisto tão pouco selvagem, intocado, irracional. Tudo demasiado pensado, arrumado, alinhadinho. Previsível de hora a hora, hábito dia-a-dia, costume de vida que se acomodou para não incomodar. Vida que se esqueceu de viver. Que se esqueceu de experimentar asas. Que se esqueceu que cair faz parte do querer voar. Morno só entre o descanso do quente e a vontade de incendiar, entre o calor que nos respira e o chão frio da queda aspirante a voo. Caímos, mas o chão ampara-nos a subida, em que despiremos o frio que não nos habita a pele. Mais tarde ou mais cedo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016




[foto @projetoamoramora]

escrevo-te

pelo corpo sinto um arrepio de vertigem que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!
(...)

Al Berto



O meu rosto não é de sol, é todo feito de noite,
do negro do céu que se afunda nos meus olhos,
das estrelas que furam a escuridão
quando poisam nos amores de cada dia,
no sorriso que me ilumina o rosto
quando a doçura desperta
é triste só se o quiserem ver triste
é frio só se não se souberem agasalhar
na ternura melancólica duma noite
onde pode haver paz e explosão
no mesmo instante,
na mesma noite
no mesmo olhar
no mesmo sorriso.
num só toque

Quanto ao depois... O depois podia ser num alpendre rematado de horizonte por todos os lados, banhado de um pôr do sol quente sobre a terra dourada. Duas mãos agarradas e as outras duas a entreterem a vida: a ler um livro, a fumar um cigarro, a folhear um jornal. A vida dos dias entrelaçada nos dias da vida por aquelas mãos dadas. Depois do sol radiante se esconder para dormir troca-se o alpendre pela plateia da lareira. As mesmas mãos, outro fogo, o mesmo horizonte a bater dentro do peito, outras vontades. Depois? Depois, o mesmo sem ser igual, as mesmas mãos em dias sempre diferentes.

Uma vez disseram-me que só se perde o que se quer, o que se deixa. Talvez seja verdade para algumas pessoas, para mim não me parece ser verdade, infelizmente.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016


...não, às vezes é só porque se sente frio, muito frio...
... e não nos queremos constipar.
...às vezes a vida sabe-me tanto a tão pouco.
Como uma mistura mal misturada
de sonho por sonhar, vida por viver
com sonho por viver e vida por sonhar.
A realidade é tão curta e tão rasteira, 
e, no entanto, é nela que nos afundamos sem fundo e dela nos encurtamos as vistas,
 porque não vemos - ou para não vermos. 
Não vermos tudo o que caberia sem ocupar espaço.


terça-feira, 22 de novembro de 2016


"Não sou boa com números. Com frases-feitas. E com morais de história. Gosto do que me tira o fôlego. Venero o improvável. Almejo o quase impossível. Meu coração é livre, mesmo amando tanto. Tenho um ritmo que me complica. Uma vontade que não passa. Uma palavra que nunca dorme. Quer um bom desafio? Experimente gostar de mim. Não sou fácil. Não colecciono inimigos. Quase nunca estou pra ninguém. Mudo de humor conforme a lua. Me irrito fácil. Me desinteresso à toa. Tenho o desassossego dentro da bolsa. E um par de asas que nunca deixo. Às vezes, quando é tarde da noite, eu viajo. E - sem saber - busco respostas que não encontro aqui. Ontem, eu perdi um sonho. E acordei chorando, logo eu que adoro sorrir... Mas não tem nada, não. Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente se supera. E chega mais perto de ser quem - na verdade - a gente é."

Fernanda Mello
(apanhado aqui)

[...se eu (me) soubesse (d)escrever assim podia ter sido eu a escrever este texto quase todo - quase, quase...] 


Há dias em que se acorda com estranhos apetites. Hoje acordei com uma vontade imensa de ser obediente, mais: de ser bem mandada, com prazer e verdadeira convicção. Dizerem-me: desaparece daqui... e eu, imediatamente, desapareço para um qualquer cenário paradisíaco com um livro e uma bebida fresca ao lado, com um sol meigo a passear-me pelo corpo. Que me digam para ir dar uma volta, para eu logo começar a volta ao mundo (só) para os fazer felizes; que me aconselhem a ir ver se estão na esquina onde não estão, que arranco logo, porque assim pode ser que esteja lá alguém interessante; que esqueça...e de repente já não saber mais o que deveria esquecer... Eu de tão bem mandada, não só obedeço, como o faço com verdadeira convicção, de corpo e alma, e assim todos ficam contentes, não é? Eu pelo menos falo por mim e por estes estranhos apetites para que hoje acordei.
Bem vistas as coisas... Além de obedientemente bem mandada (e uma bem mandada é sempre bom) ainda sou uma benemérita.