quarta-feira, 30 de novembro de 2016


O que está perdido, tempo nenhum devolve. O que está perdido não se recupera. Uma mesma curva não se curva de forma igual nem por duas vezes, à segunda vez já a conhecemos.
O meu olhar de hoje não olha como olhava ontem. O meu olhar de hoje viu coisas que ontem ainda não tinha visto.
Hoje não sou igual a ontem, mas sou a mesma. Continuo a mesma - a faltar a umas coisas para não perder as que realmente me fazem falta. Hoje, como ontem, como amanhã, são sempre frutos de escolhas, que são prioridades, as nossas prioridades.
O tempo não se perde, mas perdem-se para sempre as coisas que deixámos de fazer, trocadas por outras, que feitas nesse mesmo tempo, não se perderam.
O que deixámos de fazer, está perdido, tempo nenhum devolve. Fazer ontem não é o mesmo que fazer hoje. Fazer hoje e não ontem é uma escolha, já não podemos fazer hoje, da mesma maneira, o que poderíamos ter feito ontem. O nosso olhar não é o mesmo, já viu que ontem a escolha foi não fazer, foi trocar por fazer uma outra coisa, que era a nossa prioridade. Preterimos, deixamos cair, perdemos o que escolhemos não fazer, mesmo que o façamos hoje.
Hoje já não seria como ontem, amanhã já não será como hoje
No entanto nada muda. Tudo na mesma, ainda que nada igual.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

[ foto @happydays796]

Há pessoas que podem gostar de mim,
Mesmo que eu não seja fácil de gostar.
Há pessoas que me sabem dar colo,
Mesmo que não me entendam as tristezas.
Há pessoas que me acham doce,
Mesmo que vítimas das minhas agrestes defesas.
Há pessoas que me encontram sombria,
Mesmo que eu só tenha cor para dar.
Há pessoas que me dizem complexa,
Mesmo que não me chamem complicada.
Há pessoas que me vêem um diabinho,
Mesmo que outras só me vejam sossegadinha.
Há pessoas que me vêem bonita,
Mesmo sendo uma mulher que ninguém nota.
Há pessoas que me chamam,
Mesmo que não me saibam dizer.
Há pessoas para tudo...
Eu sou só uma,
Sou só eu,
mesmo com muita gente dentro.
Mas não sou para qualquer um que me olhe,
E não quero um qualquer que me veja,
Só quero gente habitada,
Desabituada de vazio.

... There's no other way.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

...mood of the day...
...ser surpreendente
(mas só em pensamento, pronto... mas em pensamento 
há pessoas hoje que já podem ter ficado sem dentinhos...)
eheheh

domingo, 27 de novembro de 2016

[foto @endlessfaces]

... Há dias em que se acorda e não se quer nada. Quando não se quer nada tudo está bem - se não bem, muito melhor. Nem me interessa se o espelho é amigo ou apenas hipócrita... Sei que hoje gosto dos olhos ainda que não do olhar, gosto de mim ainda que nem sempre me tenha em boa conta. Apetece-me sair de mim ainda que saiba que isso é o que melhor me define por dentro, que isso sou essencialmente eu, e que gosto desse eu, meio estranho, sempre a caminho da saída de si mesmo, ou o desejo de. Hoje saio de casa e despeço-me do passado que não chegou a ser, passeio pelo presente sem vontade de futuro e virando costas ao que pode ser que tivesse sido... Hoje é hoje, e hoje não quero nada.

Sleep tight don't let the bed bugs bite. - repetia isto, como lho haviam repetido em criança, do coração, às filhas, como se assim repetido nenhum mal lhes chegasse, nada lhes inquietasse a inocência dos sonhos. Repetia-o como uma oração a um Deus maior, aquele que afasta os primeiros medos dos corações puros. Os medos dos monstros que um dia viriam a ser homens como os outros, e medo de ter medo de não saber aprender a fazer como os outros, como dantes não sabiam apertar os atacadores, medo que não as amem - medo de um dia deixarem de ouvir a frase que as fazia sorrir um sono descansado, na sensação tranquila de que alguém as protegia, enquanto lhes velava os sonhos e os sonos.
Um dia as meninas cresceram aos olhos e, talvez por acreditar nisso, deixou de o dizer, mas os medos não se afugentaram, só já não viviam nessa sensação de que alguém as protegia. Os monstros viraram homens incompreensíveis, que se repetiam como um só sempre diferente; e os apertares de outros  atacadores eram tarefas dignas de Hércules,  como segurar as pontas do sobreviver ao mundo, dia após dia. Aprenderam a viver com a sensação de não serem amadas, o que interessava era chegarem ao dia seguinte inteiras. E chegavam. Inteiras, só não completas. Alguém tinha deixado de lhes velar os sonhos porque já não eram de meninas os medos, que continuavam a ser, debaixo das noites por dormir e apesar dos dias por viver. Cada menina precisa de continuar a ouvir uma frase que faça sorrir um sono descansado.
Sleep tight don't let the bed bugs bite.

sábado, 26 de novembro de 2016



[foto @annadecriscio]

Às vezes o tempo escorre melhor pelos dedos quando fechamos os olhos, quando nos deixamos nas mãos do sono sem sonhos. Deixamo-nos dormir como quem entrega o tempo ao tempo. A vida entregue à fé num deus em que não acreditamos, mas dormimos como quem reza. Assim estou eu, entre um sono e outro, entre a ronha e o acordar mentido. Entre o querer dormir e o deixar o tempo adormecer.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016





Toca-me como se fosse tua
Toca-me como se te fizesses meu
Toca-me como se fosse tua rainha e tua serva
Toca-me como se fosses meu senhor e meu escravo
Toca-me como se me conhecesses
Toca-me como se me quisesses todos os dias desde sempre
Toca-me como se nada mais importasse
Toca-me como se os teus dedos fossem só alma
Olha, olha-me,
olha-me, como se nunca me pudesses tocar.
Toco-te?







Não sou pessoa de coisas mornas e semi-aquecidas, asfixiam-me, deixam-ne sem ar, como se respirar fosse apenas um inspirar-expirar consciente de obrigação de sobrevivência. Talvez haja quem o faça por instinto, esse mesmo: de sobrevivência, mas nisto tão pouco selvagem, intocado, irracional. Tudo demasiado pensado, arrumado, alinhadinho. Previsível de hora a hora, hábito dia-a-dia, costume de vida que se acomodou para não incomodar. Vida que se esqueceu de viver. Que se esqueceu de experimentar asas. Que se esqueceu que cair faz parte do querer voar. Morno só entre o descanso do quente e a vontade de incendiar, entre o calor que nos respira e o chão frio da queda aspirante a voo. Caímos, mas o chão ampara-nos a subida, em que despiremos o frio que não nos habita a pele. Mais tarde ou mais cedo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016




[foto @projetoamoramora]

escrevo-te

pelo corpo sinto um arrepio de vertigem que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!
(...)

Al Berto



O meu rosto não é de sol, é todo feito de noite,
do negro do céu que se afunda nos meus olhos,
das estrelas que furam a escuridão
quando poisam nos amores de cada dia,
no sorriso que me ilumina o rosto
quando a doçura desperta
é triste só se o quiserem ver triste
é frio só se não se souberem agasalhar
na ternura melancólica duma noite
onde pode haver paz e explosão
no mesmo instante,
na mesma noite
no mesmo olhar
no mesmo sorriso.
num só toque

Quanto ao depois... O depois podia ser num alpendre rematado de horizonte por todos os lados, banhado de um pôr do sol quente sobre a terra dourada. Duas mãos agarradas e as outras duas a entreterem a vida: a ler um livro, a fumar um cigarro, a folhear um jornal. A vida dos dias entrelaçada nos dias da vida por aquelas mãos dadas. Depois do sol radiante se esconder para dormir troca-se o alpendre pela plateia da lareira. As mesmas mãos, outro fogo, o mesmo horizonte a bater dentro do peito, outras vontades. Depois? Depois, o mesmo sem ser igual, as mesmas mãos em dias sempre diferentes.

Uma vez disseram-me que só se perde o que se quer, o que se deixa. Talvez seja verdade para algumas pessoas, para mim não me parece ser verdade, infelizmente.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016


...não, às vezes é só porque se sente frio, muito frio...
... e não nos queremos constipar.
...às vezes a vida sabe-me tanto a tão pouco.
Como uma mistura mal misturada
de sonho por sonhar, vida por viver
com sonho por viver e vida por sonhar.
A realidade é tão curta e tão rasteira, 
e, no entanto, é nela que nos afundamos sem fundo e dela nos encurtamos as vistas,
 porque não vemos - ou para não vermos. 
Não vermos tudo o que caberia sem ocupar espaço.


terça-feira, 22 de novembro de 2016


"Não sou boa com números. Com frases-feitas. E com morais de história. Gosto do que me tira o fôlego. Venero o improvável. Almejo o quase impossível. Meu coração é livre, mesmo amando tanto. Tenho um ritmo que me complica. Uma vontade que não passa. Uma palavra que nunca dorme. Quer um bom desafio? Experimente gostar de mim. Não sou fácil. Não colecciono inimigos. Quase nunca estou pra ninguém. Mudo de humor conforme a lua. Me irrito fácil. Me desinteresso à toa. Tenho o desassossego dentro da bolsa. E um par de asas que nunca deixo. Às vezes, quando é tarde da noite, eu viajo. E - sem saber - busco respostas que não encontro aqui. Ontem, eu perdi um sonho. E acordei chorando, logo eu que adoro sorrir... Mas não tem nada, não. Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente se supera. E chega mais perto de ser quem - na verdade - a gente é."

Fernanda Mello
(apanhado aqui)

[...se eu (me) soubesse (d)escrever assim podia ter sido eu a escrever este texto quase todo - quase, quase...] 


Há dias em que se acorda com estranhos apetites. Hoje acordei com uma vontade imensa de ser obediente, mais: de ser bem mandada, com prazer e verdadeira convicção. Dizerem-me: desaparece daqui... e eu, imediatamente, desapareço para um qualquer cenário paradisíaco com um livro e uma bebida fresca ao lado, com um sol meigo a passear-me pelo corpo. Que me digam para ir dar uma volta, para eu logo começar a volta ao mundo (só) para os fazer felizes; que me aconselhem a ir ver se estão na esquina onde não estão, que arranco logo, porque assim pode ser que esteja lá alguém interessante; que esqueça...e de repente já não saber mais o que deveria esquecer... Eu de tão bem mandada, não só obedeço, como o faço com verdadeira convicção, de corpo e alma, e assim todos ficam contentes, não é? Eu pelo menos falo por mim e por estes estranhos apetites para que hoje acordei.
Bem vistas as coisas... Além de obedientemente bem mandada (e uma bem mandada é sempre bom) ainda sou uma benemérita.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016






Às vezes parece que o destino se perde nos caminhos, outras que os caminhos perdem destino. Há uma qualquer parte de mim que partiu, que saiu de mim para chegar a alguém. Mas não chegou, não cheguei, não chego. Acho que foi no caminho que o destino se perdeu, fugiu, mudou de sítio, é apenas uma imagem esbatida das cores com que sobressaiu no postal que me fez começar a viagem. Com medo e com vontade: com medo daquela vontade e com vontade de ter medo, mas sabendo onde queria chegar, só não sei, agora, desse destino. Foi no caminho que o destino se perdeu, mas o caminho ainda caminha rumo aquelas cores, ainda procura aquela vivacidade, aquele arrebatamento - aquele destino. O caminho não está perdido, só o destino. E eu.... Eu persigo uma imagem habitante de morada desconhecida, procuro uma porta que mudou de casa.

domingo, 20 de novembro de 2016

[foto @bnwsouls]

Viu o café à beira da estrada. Apeteceu-lhe parar, beber um café para adormecer pensamentos demasiado acordados. Café central - leu e nem se deu conta do sorriso esboçado que lhe saiu da gaveta, sem ter dado conta de a abrir. Essa gaveta, onde guardava pedaços de tempo, como papéis rascunhados de silêncios que se foram acumulando por dizer. "Não comeces, assim estragas tudo" ouviu algumas vezes pela vida dentro e, a cada vez, a gaveta ia aumentando o fundo. Porque, pareciam nunca entender, assim tudo se ia inevitavelmente estragando sem, no entanto, vez alguma estragar o momento - aquele que, naquele preciso instante, encurtava futuras eternidades. Não falava para estragar, mas para não ficar estragado, a apodrecer por dentro das teias do que não se entende, não se pede e não se esclarece. Para não estragar. Encostou. Desligou o carro. Ficou a ver os pingos de chuva a fazerem a sua descida radical pelo vidro, nunca se assustavam, raramente caíam, apenas deslizavam, como se o destino de alguns não seja cair, tropeçar de engano, de falha, mas de deslizar até ao chão, sem embate, sem mossa, sem resistência que resulte em frustração teimosa. Em medo a crédito. Deixam-se, apenas, ser o que são, nunca caindo, só descaindo, resvalando chuva fora, vida adentro. Resolveu, no meio de tanto pensamento infantil, ganhar coragem e servir de chão a uns quantos pingos com esgares bélicos, tal a força com que, de repente, pareciam querer bater. Entrou, três cabeças se voltaram, a quarta ressuscitou do mergulho por baixo do balcão... Pareciam pouco habituadas a ver mulher por ali, ou talvez só a ela, porque não era de cá, ou melhor, de lá. Mas, estivesse onde estivesse, ela sempre lhe parecia não ser de lá... Ou de cá. Sorriu, um sorriso não encorajador de desconhecidos, e pediu um café. Pagou, pegou na chávena e levou para uma mesa gasta pelo descuido, acompanhada de uma cadeira onde pouca tranquilidade se parecia ter alguma vez sentado. Dali via a chuva, ouvi-a sussurrar-lhe aos ouvidos como música que embala quem quer acordar uma qualquer vida que perdeu nalgum sítio, e que já não procura. Abriu o pacote de açúcar, não sem antes ler a frase que lhe calhou em rifa, à moda de fortune cookie de trazer por casa, mas sem futuro ou fortuna... Riu-se. Despejou o açúcar e olhou o café em espiral enquanto o mexia. Olhou o remoinho da vida, pensou que lhe fazia falta - tanta, mas tanta - olhar no fundo duns olhos e ver uma alma a mexer o açúcar do tempo. Misturá-los, bebê-los juntos num olhar que não se troca, mas em que se mergulha. Mergulho de profundidade. Talvez daqueles de que não se sobrevive inteiro.
Bebeu o café que lhe pareceu amargo. Não chegou a fumar o cigarro, havia de o fumar no resto do caminho, com música a iluminar o silêncio. Levantou-se, correu de volta para o carro, tentando passar entre os pingos da chuva. Tirou o pacote vazio de açúcar do bolso. "Bom dia a quem bateu com a cabeça na parede". Há sempre cabeça para mais uma (ou falta dela, e nos dias em que lhe doía menos tinha a certeza que era coisa que não queria ganhar). Abanou a cabeça e riu-se. Continuou.

(sem título)

...o depois de ir e eu ainda ficar para banho e caminho tão mais curto. O ficar outra vez, o despedir, o deixar ir - a sina da minha existência. Custa, dói sempre, o tempo entre os dedos das mãos sem lhes dar o que fazer, sem fazer o que têm para dar.
Chove e eu gosto de ver chover, sentada nas escadas da porta, abrigadas da chuva mas com a vista para os pingos que caem com vontade de chão. E eu aqui, com vontade não sei de quê sem me chover coisa nenhuma, desabrigada de tudo. 

sábado, 19 de novembro de 2016

Na ronha, com a janela de frente, por onde entra o dia como um intruso que me ronda a janela, escoltado por um pequeno curioso, a especializar-se em voos picados, que não precisa de convite. E eu aqui, no quente dos lençóis dormidos, a tentar não acordar por inteiro. A pensar como é estranha alguma não estranheza das coisas, e como estranho algumas que nada deveriam ter de estranho. As vezes não sei o que pensar das coisas, que nomes lhes dar, talvez precisasse de ler os rótulos, de os ver, eu que detesto  rótulos, que gosto de abrir, ver, saborear, cheirar e tocar para saber o que é - ou inventá-lo melhor - vestir-lhe um nome índio que nos diz de quem veste, que tem uma razão e uma história. Que tem um nome que fala. Depois há coisas sem nome, talvez sejam mudas de história e de coração. Precisam dum rótulo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016


Tenho saudades de tantas coisas que já não sei se são saudades ou só avidez provocada por miragens de vidas que nunca cheguei a ter. Dizem que as saudades do que não chegou a ser são as que mais nos doem, talvez porque à falta se junte a noção de termos podido fazer mais, ou alguma coisa, ou algo que ninguém sabe o quê, mas que virasse os dias e entornasse a miragem vida adentro. Ou talvez seja aquela sensação de incompletude, de amputação, de dor fantasma de algo que só imaginámos ter, mas que nos dói perdê-la como se a tivéssemos perdido por excesso de uso. Por ter usado e abusado das ganas de viver, por ter vivido com ganas e rasgado a vida com coragem, audácia e chegado mesmo a roçar a plenitude que alma e corpo nos concedem. Se calhar talvez haja, apenas e só, um excesso de sonhos, uma avidez esfomeada que não tem o que mate a fome. Talvez eu seja dessas criaturas sempre insatisfeitas, sempre à procura das coisas grandes nas mais pequenas coisas, missão que em si não passa de miragem. Talvez a insatisfação seja grande porque se prende com coisas pequenas, tão pequenas e fáceis que se torna difícil a pontaria afinada para lhes acertar e caçar-me o coração. Quisera eu muitas, e grandes, coisas e qualquer um conseguiria acertar nalguma coisa que me contentasse... assim é difícil. Não é para qualquer um. Mas eu também não sou.