segunda-feira, 21 de novembro de 2016






Às vezes parece que o destino se perde nos caminhos, outras que os caminhos perdem destino. Há uma qualquer parte de mim que partiu, que saiu de mim para chegar a alguém. Mas não chegou, não cheguei, não chego. Acho que foi no caminho que o destino se perdeu, fugiu, mudou de sítio, é apenas uma imagem esbatida das cores com que sobressaiu no postal que me fez começar a viagem. Com medo e com vontade: com medo daquela vontade e com vontade de ter medo, mas sabendo onde queria chegar, só não sei, agora, desse destino. Foi no caminho que o destino se perdeu, mas o caminho ainda caminha rumo aquelas cores, ainda procura aquela vivacidade, aquele arrebatamento - aquele destino. O caminho não está perdido, só o destino. E eu.... Eu persigo uma imagem habitante de morada desconhecida, procuro uma porta que mudou de casa.

domingo, 20 de novembro de 2016

[foto @bnwsouls]

Viu o café à beira da estrada. Apeteceu-lhe parar, beber um café para adormecer pensamentos demasiado acordados. Café central - leu e nem se deu conta do sorriso esboçado que lhe saiu da gaveta, sem ter dado conta de a abrir. Essa gaveta, onde guardava pedaços de tempo, como papéis rascunhados de silêncios que se foram acumulando por dizer. "Não comeces, assim estragas tudo" ouviu algumas vezes pela vida dentro e, a cada vez, a gaveta ia aumentando o fundo. Porque, pareciam nunca entender, assim tudo se ia inevitavelmente estragando sem, no entanto, vez alguma estragar o momento - aquele que, naquele preciso instante, encurtava futuras eternidades. Não falava para estragar, mas para não ficar estragado, a apodrecer por dentro das teias do que não se entende, não se pede e não se esclarece. Para não estragar. Encostou. Desligou o carro. Ficou a ver os pingos de chuva a fazerem a sua descida radical pelo vidro, nunca se assustavam, raramente caíam, apenas deslizavam, como se o destino de alguns não seja cair, tropeçar de engano, de falha, mas de deslizar até ao chão, sem embate, sem mossa, sem resistência que resulte em frustração teimosa. Em medo a crédito. Deixam-se, apenas, ser o que são, nunca caindo, só descaindo, resvalando chuva fora, vida adentro. Resolveu, no meio de tanto pensamento infantil, ganhar coragem e servir de chão a uns quantos pingos com esgares bélicos, tal a força com que, de repente, pareciam querer bater. Entrou, três cabeças se voltaram, a quarta ressuscitou do mergulho por baixo do balcão... Pareciam pouco habituadas a ver mulher por ali, ou talvez só a ela, porque não era de cá, ou melhor, de lá. Mas, estivesse onde estivesse, ela sempre lhe parecia não ser de lá... Ou de cá. Sorriu, um sorriso não encorajador de desconhecidos, e pediu um café. Pagou, pegou na chávena e levou para uma mesa gasta pelo descuido, acompanhada de uma cadeira onde pouca tranquilidade se parecia ter alguma vez sentado. Dali via a chuva, ouvi-a sussurrar-lhe aos ouvidos como música que embala quem quer acordar uma qualquer vida que perdeu nalgum sítio, e que já não procura. Abriu o pacote de açúcar, não sem antes ler a frase que lhe calhou em rifa, à moda de fortune cookie de trazer por casa, mas sem futuro ou fortuna... Riu-se. Despejou o açúcar e olhou o café em espiral enquanto o mexia. Olhou o remoinho da vida, pensou que lhe fazia falta - tanta, mas tanta - olhar no fundo duns olhos e ver uma alma a mexer o açúcar do tempo. Misturá-los, bebê-los juntos num olhar que não se troca, mas em que se mergulha. Mergulho de profundidade. Talvez daqueles de que não se sobrevive inteiro.
Bebeu o café que lhe pareceu amargo. Não chegou a fumar o cigarro, havia de o fumar no resto do caminho, com música a iluminar o silêncio. Levantou-se, correu de volta para o carro, tentando passar entre os pingos da chuva. Tirou o pacote vazio de açúcar do bolso. "Bom dia a quem bateu com a cabeça na parede". Há sempre cabeça para mais uma (ou falta dela, e nos dias em que lhe doía menos tinha a certeza que era coisa que não queria ganhar). Abanou a cabeça e riu-se. Continuou.

(sem título)

...o depois de ir e eu ainda ficar para banho e caminho tão mais curto. O ficar outra vez, o despedir, o deixar ir - a sina da minha existência. Custa, dói sempre, o tempo entre os dedos das mãos sem lhes dar o que fazer, sem fazer o que têm para dar.
Chove e eu gosto de ver chover, sentada nas escadas da porta, abrigadas da chuva mas com a vista para os pingos que caem com vontade de chão. E eu aqui, com vontade não sei de quê sem me chover coisa nenhuma, desabrigada de tudo. 

sábado, 19 de novembro de 2016

Na ronha, com a janela de frente, por onde entra o dia como um intruso que me ronda a janela, escoltado por um pequeno curioso, a especializar-se em voos picados, que não precisa de convite. E eu aqui, no quente dos lençóis dormidos, a tentar não acordar por inteiro. A pensar como é estranha alguma não estranheza das coisas, e como estranho algumas que nada deveriam ter de estranho. As vezes não sei o que pensar das coisas, que nomes lhes dar, talvez precisasse de ler os rótulos, de os ver, eu que detesto  rótulos, que gosto de abrir, ver, saborear, cheirar e tocar para saber o que é - ou inventá-lo melhor - vestir-lhe um nome índio que nos diz de quem veste, que tem uma razão e uma história. Que tem um nome que fala. Depois há coisas sem nome, talvez sejam mudas de história e de coração. Precisam dum rótulo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016


Tenho saudades de tantas coisas que já não sei se são saudades ou só avidez provocada por miragens de vidas que nunca cheguei a ter. Dizem que as saudades do que não chegou a ser são as que mais nos doem, talvez porque à falta se junte a noção de termos podido fazer mais, ou alguma coisa, ou algo que ninguém sabe o quê, mas que virasse os dias e entornasse a miragem vida adentro. Ou talvez seja aquela sensação de incompletude, de amputação, de dor fantasma de algo que só imaginámos ter, mas que nos dói perdê-la como se a tivéssemos perdido por excesso de uso. Por ter usado e abusado das ganas de viver, por ter vivido com ganas e rasgado a vida com coragem, audácia e chegado mesmo a roçar a plenitude que alma e corpo nos concedem. Se calhar talvez haja, apenas e só, um excesso de sonhos, uma avidez esfomeada que não tem o que mate a fome. Talvez eu seja dessas criaturas sempre insatisfeitas, sempre à procura das coisas grandes nas mais pequenas coisas, missão que em si não passa de miragem. Talvez a insatisfação seja grande porque se prende com coisas pequenas, tão pequenas e fáceis que se torna difícil a pontaria afinada para lhes acertar e caçar-me o coração. Quisera eu muitas, e grandes, coisas e qualquer um conseguiria acertar nalguma coisa que me contentasse... assim é difícil. Não é para qualquer um. Mas eu também não sou.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016


...porque amar talvez seja uma forma de luta, 
mas nunca uma arma - e não se ganhando batalhas amando, 
deve ser sem dúvida a melhor forma de as perder... 
...Parece-me.
Porque há dias em que as letras teimam em não sair à rua vestidas de palavras, de sentidos, de imagens. Ainda que nos apeteça dizer coisas bem agasalhadas, que aqueçam e confortem, que nos façam agradecer com um sorriso a sensação da ponta do nariz gelada, que cheira as primeiras lareiras no ar, em oposição ao quente que aconchega o corpo debaixo dos camisolões e as mãos fofas de calor dentro dos bolsos. Nesses dias calamo-nos, olhamos o horizonte - ou imaginamo-lo - vamos buscar duas canecas de algo que aqueça por dentro e esperamos que venha alguém pegar na caneca que, sendo nossa, não é para nós bebermos. Esperamos no silêncio, de nariz enfiado no líquido ainda fumegante, que o calor nos chegue. Que chegue.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016


-Sou teu
-Não és meu, mas vou sempre tentar que sejas, e é nesse tentar que mora a paixão.

[esse lugar que deve ser habitado pelos dois, onde as garantias não entram, onde a paz não ganha bolor, onde a inquietação é a música de fundo que nos faz dançar. Onde a incerteza é certa, onde a certeza de nunca se sentir nosso o outro - não além daquele limiar da certeza que um beijo nos dá, que um toque nos diz, que um olhar nos pode jurar e fazer acreditar - é tão incerta que se dissipa no intervalo de tempo que se estica entre um beijo e outro. E essa espera, transformada em medo de não haver próximo, rói-nos todo o tempo. Se chega o beijo, as migalhas de tempo roído sabem a flocos de nuvem doce.]

terça-feira, 15 de novembro de 2016




Houve qualquer coisa que despertaste em mim que não soubeste cuidar, que não quiseste guardar. Que perdeste, que quiseste perder. De que te perdeste.
Há uma parte qualquer de mim que não é minha - que é o lugar de quem me tem - que é das pequenas coisas que me encantam, que se fazem donas dos meus dias bons e senhoras do meu jeito traquina, que me roubam momentos em troca de eternidades. Coisas pequenas, sem jeito, talvez, mas que dão um jeito ao dia. Brincadeiras, palavras agridoces, tontices, gargalhadas que nunca andam longe, presenças que se sentem perto, que nos fazem sentir perto, que nos tocam sem aflorar a pele, mas que não nos desabitam o sorriso. Não nos largam a disposição, o céu azul do olhar. Margaridas apanhadas à beira dos começos de dia, entregues na vontade de serem recebidas, e sentidas - de serem o meu amanhecer em sol de pétalas. Vontade de morar nos momentos que me fazem o dia e habitar-me a vontade. Coisas que se fazem com desejo de chegar ao outro, de chegar a mim, de fazer de ti aquela parte de mim que guardo sob reserva para quem me quiser, e conseguir ter. Quem tiver ganas de fazer lugar, de ser lugar - que possa ser o meu lugar e eu o dele. Um sítio onde nos encontramos e nos reconhecemos no toque, no sorriso, no olhar derramado sobre o essencial. Não onde nos esbarramos para seguir desconhecidos, mornos e amorfos, em que o passado não interessa, o presente é o que for e o futuro não existe. Onde o tempo se conta em horas e dias e tudo tem calendários. Não, um sítio onde se aceita o passado, se goza o presente e se vai fazendo, a cada dia, o futuro. Onde o tempo é um presente que não envelhece, que não se sente passar quando me tocas e não se mexe quando te sinto longe.



[foto @martinrakphoto]

Há dias, como hoje, em que eu deitaria tudo a perder - tudo que é nada, ou um nada que é tudo -, pela vontade de tudo que ninguém sabe nada do que é. E não ganharia nada, absolutamente nada, se do tudo que quero nada sei. Para perder é preciso sentir a perda, sentir uma falta cheia de vazio no sítio onde tínhamos o que nos guardava. Há dias, como hoje, em que não sei o que sentir, em que o horizonte é um borrão sem corpo e o fogo uma miragem em esbatidas aguarelas desenhados por um louco sem destino guardado. Não sinto as garras da vida a esgaçarem-me a pele de dor ou de prazer. Não estou bem mas não estou mal, sabendo miseravelmente que podia estar pior. Como uma espécie de névoa que me envolve a alma, que a protege e a distancia de tudo. Uma coisa sem nervo e sem espinha. Na espessura da indolência nem distingo se me estendem a mão, se me acenam uma vontade ou esboçam um adeus. E não me movo. Deixo o tempo correr pelo corpo como a água do banho que se esquece de me tocar. Nada me toca, como se estivesse meia morta, e isso mata-me. É isso que me mata mais fundo, não chegar à tona de mim, nem esboçar um aceno dessa vontade, ainda que me grite, paralisada, enclausurada por dentro.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016


Segunda-feira, Segunda-feira é hoje, 
Carlos, Zé Carlos... Com'équié?? Hummm??
[no caso original é Carlos Drummond de Andrade, 
mas no post é Zé Carlos mesmo... Bom dia ;) ]

sábado, 12 de novembro de 2016


Se à tua vida, como a uma cadeira, faltam pernas para se manter de pé, enche balões coloridos de sonhos vindos do peito profundo e deixa-os sustentar a verticalidade dos dias... substituir o sol e desfazer-se na boca o sabor do algodão doce duma infância que não tiveste, deixa-os ser o sorriso que te esqueceste de desenhar hoje e a gargalhada que perdeste pela meia dor que lembraste de ontem. Brinca a sonhar, e sonha brincar para sempre. Sonha, brinca e sente tudo - sente-te em tudo. Só não te sentes. Os sonhos não suportam quem na vida se senta. Perdem a cor, e é a intensidade dessa inquietude viva, que não os deixa poisar, e nos levanta. Ou não nos deixa cair.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016



(...)
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love

(...)

Leonard Cohen

Das coisas que ficam para sempre.
Daquelas que agradecemos que alguém tenha deixado que fiquem...
[foto @westaywild]
Há dias em que acordo uma pessoa lisa, ou quase. Lisa como quando se pede água lisa, sem froufrous, piquinhos ou complicações. Daquelas que não são rascunho que se reescrevem sucessivamente e incessantemente, sempre à procura da última versão de si mesmas, a melhor, a certamente incerta de ser a última sobre qualquer assunto, em qualquer dia que seja, ou mesmo noite - ou sobretudo nas noites, onde nem todas as sombras são escuridão, onde nem toda a luz sabe iluminar a calor. Há dias em que me levanto e sinto as coisas como música de fundo, a acompanhar a vida, lá quase no horizonte que não é de tocar, onde toca essa música que embala, mas não abala nem ocupa o palco, muito menos quer saber de holofotes. Alturas em que não preciso das letras para largar o lastro que não deixa o dia levantar, ou eu levantar-me inteira do sono que me descansa de mim, como se me desaparecesse entre os segundos que não sinto passar entre os ponteiros do relógio, entre uma e outra frase que não nos atinge nem de raspão. Um estado quase dormente, um conforto quase indolente. Horas estranhamente prosaicas em que os pensamentos não andam pela casa de saltos altos, a seduzirem-nos o tempo como um encantador de serpentes, que depois mordem nos além da pele. Pensamentos que nem batem à porta por não quererem sequer entrar no dia pela porta da frente, rondam o perímetro com uma distância de segurança, tão segura, que me deixam a falar sobre nada.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Trump ganhou, mas pelo menos serviu para o mundo abrir meia pestana à realidade
Hoje o dia está cinzento, mas pelo menos não chove.
Ele partiu uma perna, mas pelo menos não partiu as duas.
Ele não gosta do que faz, mas pelo menos tem trabalho
Ele não está apaixonado, mas pelo menos não está sozinho.
Ele não a amou, mas pelo menos fê-la sentir bonita.
Pelo menos há sempre um lado reverso, mesmo que não seja o inverso do estar mal, que seria o estar bem, pelo menos. Pelo menos há o menos mal, o que se aproveita, o que resta, o que se salva da desgraça completa e inteira. Pelo menos são os restos mortais do que não foi, mas devia ter sido, queria ter sido, só não chegou. Pelo menos é pela teoria  do menos, ou do mais-ou-menos, do assim-assim apresentavelzinho, do aceitável menos mau, do podia ser melhor mas - pelo menos - não ser pior já é uma bênção... do fatalmente arrasador: não é o que eu queria, mas é o que há!
Pelo amor de deus... Mais! Muito mais!
Querer mais pelo mais de se querer o que se quer, que se almeja, que se deseja, que se sonha em dias bons para ser farol nos dias maus. Querer, querer mais que o pelo menos: querer o que não tem de nos encolher para servir, de encurtar o sonho para não termos de cortar com a realidade, de ser fingido porque não há papel passado para a felicidade (embora tantos representem esse papel)... Há ser feliz. Ou não. Pelo menos... pelo menos não chegar não ser infeliz.
Pelo menos que o pelo menos não chegue.
Pelo menos isso.
A mim, pelo menos, não chega. E a ti?

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Gostei do "minha", do querer "sentir-te minha",
não porque o oiça como posse, mas porque me é doce a sensação de pertença.
Como uma casa a que se chega, a que chamamos nossa, não por plena propriedade de direito, mas porque pertencemos àquela casa. Algo nas suas fundações nos suporta, algo da sua luz nos conforta, o cheiro é a lar, a conforto que se sente mal se passa a porta. Como se parte de nós estivesse ali e nós fizéssemos pleno sentido ali. Só ali.
É ter em mim algo teu, que te faz meu;
 é teres em ti algo meu, que me faz tua. 
Como o coração fora do peito a bater ao nosso ritmo noutro peito.
Só nesta geografia fora do lugar faz sentido - se faz o sentido.
Em que o lugar não é um sítio mas um querer bem.
Um bem-me-quer. 
Meu, de querer-te bem. Teu, de bem me quereres.
...hummmm.
Pois, conheço alguém com uns traços parecidos...
... e só aqui entre nós, eu aconselharia primeiro a fazerem-lhe a vontade e só depois rir...
...é que senão pode não correr tão bem, sei lá...
A ordem dos factores não é arbitrária, não...
e o bipolar pode ter raízes nos outros polares, aqueles grandes com'ócaraças e que quando se chateiam não queremos nem ver as costas... os ursos, pois.


terça-feira, 8 de novembro de 2016


O que me prende o olhar é o encanto, aquele que o olhar vê em qualquer canto, que se aninha num qualquer recanto da alma por ocupar. Tem qualquer coisa de mágico, qualquer coisa de indecifrável, que nos deixa suspensos num olhar que lançamos, que nos prende por dentro a qualquer coisa de fora que nos fala, que nos falta, mas que tem algo de nosso... Que se sente nosso fora de nós. Território por reclamar... Uma paisagem, a inclinação da luz entre as nuvens, um sorriso, as cores escandalosas de um por-do-sol, uma música que parece feita de nós, para nós, um poema que nos revela e nos desfaz, reduzidos a grãos de areia que caberiam no bolso dum coração generoso, ao lado das estrelas cadentes que guardámos porque caíram para serem apanhadas pela fotografia do nosso sorriso. O encanto tem nós cegos feitos no nosso código genético, faz os nós e desfaz os nós com a mesma displicência ingénua de uma criança num espectáculo de magia. O encanto não está nas coisas, está no olhar que sobre elas poisa, que navega sonhos em oceanos secos e revoltos. Quando o olhar despe o calor do sentir, vê que a mira desafinou, que a música é um ruído transfigurado, que todos os dias o sol se põe, que as estrelas caem num vazio onde ninguém tem bolsos - percebe que a magia é uma ilusão. E a ilusão é apenas desilusão. São coincidentes em tempo e em modo, gémeos do mesmo engano. A desilusão é a mera constatação da ilusão, nascem no mesmo instante ao descodificar a prosaica realidade de que a magia somos nós num dia bom. É o nosso olhar cheio de sorrisos luminosos a procurar-se num recanto sombrio faminto de luz, onde se possa aninhar e encantar. Depois é o desencanto em qualquer canto, todas as musicas desafinadas, a alma cheia de nós... E o olhar, teimoso, a vaguear  entre a magia da poesia e as pedras que fazem tropeçar um mau pedaço dum bom caminho 

e na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos, dias,
sem saber dizer se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar
a perder-te

Vasco Gato

[nunca há garantias. por muito que se chore ou não chore, faça ou não faça, nunca há garantias. podemos , e devemos, tentar manter o que temos, alimentá-lo, melhorá-lo, trabalhar para isso, incendiar todos os dias um momento que seja... mas quem pensa ter alguém garantido já o perdeu, pode começar a chorar.]
... Assim, a meio caminho do inferno. 
Onde é que já se viu?
Depois de tampas e parvoíces várias - como tentar ser resistível ao irresistível, tentar responder à altura das parvoíces mas ficar-se pelo meio riso encolhido, irritar-se com certas aparentes imunidades a charminhos vários, largamente testados e comprovados em cobaias facilmente impressionáveis - vai que a caminho do inferno parou no arrozal... Agora é inferno por todos os lados... E margaridas paradisíacas também... Às vezes até arroz, desde que não seja eu a cozinhar...