segunda-feira, 7 de novembro de 2016



"gosto de pessoas que dançam. daquelas que se abanam ao primeiro ritmo que lhes salta ao ouvido. que é diferente das pessoas que vão dançar. as pessoas que dançam fazem-no a toda a hora, no carro no meio do trânsito, no balcão da cozinha a fazer o jantar, apenas no corredor enquanto se vestem, na janela durante o cigarro. ou, ainda melhor, enquanto namoram a caminho do quarto. (...) 

as pessoas que dançam não sabem como o fazem. não tem coreografia ou técnica. sai-lhes, solto, em forma inconsciente de movimento. às vezes ficam sem jeito, no meio da rua, com o vizinho a olhar. mas que se lixe, sabe tão bem, dançar no carro, na rua, no meio das vinhas, em cima do muro. ou tirar os sapatos e dançar na terra, na praia, na relva fresca.(...) gosto especialmente de ver alguém a dançar sem saber que estou ali (ou mesmo sabendo, puramente a ignorar que estou), mas no maior gozo de quem se sabe bonita apenas por ser assim, solta. 

atraem-me em particular as pessoas que sorriem enquanto dançam. que puramente estão a divertir-se, naquele bocado de corpo que mexe. ou mais bonito, quando nos fitam e se riem primeiro no olhar, e só depois no rosto, enquanto se aproximam. há pessoas que dançam assim o dia todo, estejam longe ou perto, visíveis ou afastadas. basta uma mensagem, um beijo, uma telefonema e sente-se o braço a puxar, a embalar no ritmo. a melhor dança? é essa, a dois. noite dentro entre jantar, um copo demorado, muitos beijos longos e amores prometidos. ou depois, no fim, a dança dos meus dedos nas tuas costas, lentos, até adormeceres, também com um sorriso, solto."

Momentos tirados daqui... e o que eu gosto destes momentos...

Hoje de manhã a minha pequenitates pede... "mamã põe aquela música em que começas sempre a dançar, põe alto, até à escola..." E assim foi, a mãe pôs e cantou e dançou até à escola, percebendo um ou dois sorrisos fugidios de alguns rostos que nos apanhavam em tamanhas tontices boas logo pela manhã... realmente a vida sem música não faria sentido. Adoro dançar, acho que é uma das duas maneiras de se libertar o corpo, soltar a alma, fechar as janelas ao mundo. Dançar de olhos fechados, de sorriso rasgado no ritmo da música que faz o corpo ondular, abanar, vibrar ao som que parece só ser ouvido por nós. Há algo que renasce, que floresce, que acorda. Que nos lembra que há vida, mesmo na maior escuridão, se houver uma música que nos acorde o acorde da vontade - da vontade de ser ritmo e movimento e um sorriso que dança. Mesmo que o mundo nos paralise, ou apesar de.

[E a caminho do trabalho foi esta, que também não me deixa quieta e que combina tanto com o caminho... tanto. E com alguns dias também, como hoje.  Lift me up lift me up... higher and higher...]

domingo, 6 de novembro de 2016



Dia de passeio, de ver animais de porte, cavalos bonitos. Dia de comprar uma bóina e gostar de a usar. Dia de sol e cheiros diversos, alguns adversos. Dia de me lembrar que me disseram que égua é um animal submisso, e de continuar sem perceber, ou ver, isso. Dia de apreciar o porte que monta a beleza, a força e a majestade. Dia de conversas que põem sorrisos ao sol tentando soprar nuvens altas, mesmo que na vida chovam picaretas. Dia de fotos de coisas que gosto, ainda que a foto que tinha na cabeça e queria, o telefone não a tenha conseguido apanhar... E de fotos para recordar dias bons com pessoas que gosto. Dia a repetir. De bóina mesmo.

sábado, 5 de novembro de 2016




Há dias que não parecendo vazios por fora parecem tão vazios por dentro. Onde o tempo nada às voltas dentro dum aquário vazio sem se cansar. Agitam-se as águas, mas o tempo não se afoga, faz piscinas sem fim sem destino de chegar. Sem dia de onde partir. Sem noite onde aportar. Outros dias há em que um só minuto dá norte, uma só palavra inunda o dia. Há palavras que parecendo nada por fora são tudo por dentro. Norte, partida e destino.
Há dias em que a única navegação da alma é coser palavras a pensamentos e cortar, com os dentes do destino desacontecido, a linha do tempo que os juntou.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

[foto @txabe_ss]

"De vez em quando deus me tira a poesia.
 Olho pedra, vejo pedra mesmo."
Adélia Prado

De vez em quando abro os olhos 
 e não acordo
De vez em quando olho
e não vejo
De vez em quando falo
e as palavras são só letras mudas
De vez em quando respiro
e não inspiro
De vez em quando o dia nasce
e não amanhece
De vez em quando a margarida fecha por falta de luz, 
mesmo que esteja cheia de cor aos olhos dos outros. 

Há dias em que a cor me foge do olhar para dentro do negro dos meus olhos. Fica por lá, navega, reduz-se, paira, chega a afogar-se sem se dar conta dela. Por isso, dentro dos meus olhos negros, de vez em quando, vejo a vida a duas dimensões: sem profundidade. Sem poesia. Como quando a vida fica em vácuo.
Hoje uma pedra é uma pedra, mesmo que amanhã não possa ser outra coisa que não a certeza - absolutissima e mais que definitiva- de ser um coração à espera de acordar, de ver, de inspirar, de amanhecer.
Hoje a pedra enterrou a poesia. Ninguém sabe porquê.




Às vezes dizemos que estamos a fazer tempo, que fazemos tempo, como se o tempo fosse produto de vontade, força ou engenho. 
O tempo é coisa escassa, mas que nasce a cada momento. E morre também, ainda que seja feito de infinito. O tempo é coisa invisível, maleável e por de mais relativa, mas de medidas absolutamente rígidas. E só cabe onde quer, mesmo que alguns gostem de o chamar elástico.
O tempo cai quando não estamos a olhar e desliza quando estamos à espera. Se olharmos de frente para ele, não se mexe, e se não damos por ele é porque fugiu. É coisa que se agarra tanto como o vento... podemos enfunar velas e aproveitar, ou podemos levar com os despojos, que arrasta com violência, se não tivermos cuidado.
O tempo é o que dizem que cura tudo. Eu só vejo que esbate a cor nas fotografias.
O tempo é aquele segundo por que perdemos a corrida, e aquele segundo que deslizando teima em não cair. Nem que o abanemos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016


Gosto quando damos pela vida noutras mãos
e não é aflição que mata, nem paz que morre.
Gosto quando dessas mãos
deslizam palavras em gestos com gosto de alma.
Paladar de pele pelo avesso e direito da alma,
por direito.
Gosto quando o desejo passa do olhar
para as mãos famintas,
Gosto quando a vontade lambe a pele.
Gosto quando os beijos sabem a música
e os sussurros mordiscam prazeres
escondidos num sorriso aberto,
guardado numas mãos que nos entregam.
Gosto.
Não gosto quando as mãos nos fugirem
foge às nossas mãos.
Não gosto.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016


[foto @onyximtimates]

É o defeito dos dias bons, vir contente e vaidoso no meio dos desgraçados, dos desgrenhados e dos apenas desengraçados - dos que não são bons nem maus, são ressacas dos dias bons. Aparentados só por proximidade, deixam um certo amargo de boca e cinzenta a disposição póstuma. É o ar que não enche o pulmão, é o sol que não passa o vidro, é o sorriso que teima em não rasgar e ficar pelo esgaçar do momento que não chega a chegar inteiro. É ter tudo à disposição mas nada servir ao coração. É fazer contas à vida e faltar sempre a prova dos nove, dos noves-fora-nada. E não foi nada. Não foi. Nada.
[foto: @cuddleupnow]

"Uma voz de homem disse: «O Senhor Santomé? Oiça está a falar com o tio de Laura. Uma má noticia, senhor. Uma noticia verdadeiramente má. A Laura faleceu esta manhã.».
No primeiro momento, não quis entender. Laura não era ninguém, não era Avellaneda. «Faleceu», algo tão insuportavelmente fácil como isso. Estaria certamente a encolher os ombros. E isso também era um nojo. Foi por isso que cometi um acto tão horrível. (...) «Porque é que não vai à merda?». Nessa altura, tiraram-me o telefone e falaram com o tio.
(...)
Não se preocupe menina, o seu papá está perfeitamente. Sabe o que aconteceu? Faleceu uma colega e ele impressionou-se muito. E com razão, porque era uma rapariga extraordinária». Também ele disse: «Faleceu». Bom, talvez o tio, o Muñoz, e os outros façam bem ao dizer «faleceu», porque isso soa tão ridiculo, tão frio, tão distante de Avelleneda, que não a pode ferir, não a pode destruir.
(...) mexi os lábios para dizer: «Morreu, a Avellaneda morreu», porque a palavra é morreu, morreu é a derrocada da vida, morreu vem de dentro, traz a verdadeira respiração da dor, morreu é o desespero, o nada frígido e total, o simples abismo, o abismo. "

"Então, quando mexi os lábios para dizer: «Morreu», então vi a minha imunda solidão, aquilo que havia ficado em mim, que era bem pouco. (...) Ela começara a entrar em mim, a transformar-se em mim, como um rio que se mistura demasiado com o mar e por fim se torna salgado como o mar. Por isso, quando mexia os lábios e dizia «Morreu», sentia-me atravessado, despojado, vazio, sem mérito. Agora alguém chegara e decretara: «Despojem este tipo de quatro quintos do seu ser». E haviam-me despojado. O pior de tudo é que esse saldo que agora sou, essa quinta parte de mim mesmo em que me converti, continua, no entanto, a ter consciência da sua exiguidade, da sua insignificância. Comigo ficou uma quinta parte dos meus bons propósitos, dos meus bons projectos,, das minhas boas intenções, mas a quinta parte da minha lucidez que ficou comigo chega para me dar conta de que isso não serve. A coisa acabou, simplesmente."

Mario Benedetti, in A Trégua 


Sempre pensei assim sobre a notícia da morte, nunca o tinha visto escrito, mas li e disse para mim: finalmente alguém me entende! Alguém ouve o que eu oiço.
A mim as pessoas não me falecem, as pessoas morrem-me. Falecer soa-me a um amenizar diplomático para a morte, um suavizar para não ferir, um termo mais domesticado, menos agreste, menos duro. Eufemismos. Como se a morte pudesse não ser dura, como se pudesse não ferir, como se pudesse aparecer sem nos arrancar uma parte, sem cerimónias, à dentada de carne quente. As mortes, as nossas mortes, aquelas que nos gritam e nos roubam por dentro, que desarrumam tudo, que deitam tudo abaixo, são duras, são violentas, fazem nascer outras tantas mortes a seguir de que não desconfiávamos, com que nunca contámos. A vida tem ligações tão estranhamente diversas, intrincadas e delicadamente discretas, que algumas só se notam quando acabam, quando são rompidas, e então percebemos que as havia e o que as sustentava - o que nos sustentava. Falecimento não é morte que nos morra, é morte de que tomamos ou damos conhecimento. É morte que não nos toca, não está tão próximo que apunhale, que fira, que mate, que morra. É um tiro limpo, rápido, duma vida acabada hermeticamente. Morrer, morrer-nos alguém, dura para sempre, entranha-se o vazio por baixo da pele, habita-nos o olhar tempos sem fim: o tempo que a morte dura. Dura sempre e é sempre dura. Morrer-nos alguém que gostamos, que nos faz, é arrancarem-nos um bocado que não sabíamos que não era nosso, mas o vazio que fica torna-se nosso para sempre. Enchemo-lo de saudades e de passado que queremos presente, sempre, e não deixa - nunca - de ser vazio.

[porque li agora uma coisa que me fez lembrar este post antigo, de outras vidas...]

Dum ramo inteiro
 num pé minúsculo
Das intenções grandes 
nas coisas pequeninas
Dos pequenos mimos 
que fazem tudo de nada
Das flores com vida guardada, 
mesmo depois murchas
Dos dias que ficam
no que ficou dos dias.
Dos instantes suspensos,
pendurados em minúsculas eternidades,
 nos cheiros, olhares e sorrisos
 que se colam à pele.
Dos dias que passam
e se entranham inteiros entre os segundos
de todos os que se seguirão.
Uma praga ou uma bênção.
Das respostas que se pedem 
ao vento que deixa o tempo passar.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Translating:
Be stupid enough to 
accept being broken before breaking

Sentou-se à espera do que não se espera,
do que não se espera alguma vez esperar.
Sentou-se e procurou o que não se procura,
o que se procura nunca procurar.

Porque os encontros não se procuram
e os desencontros não se esperam.

Um dia, sem estar à espera,
quando já não procurava,
deu por si a esperar 
não ter encontrado o que procurava.
Porque só sabia esperar o que não se espera
Só sabia procurar o que não se procura

Ninguém lhe ensinou
 o encontro inesperado.
Aquele que nunca se aprende

domingo, 30 de outubro de 2016


Parei em frente ao portão fechado, oiço por trás de mim uma voz meiga a dizer: "fechou às cinco, amor". Virei-me, "..,às cinco? Não sabia, obrigada." Sorri por trás dos óculos escuros, dum sítio qualquer, a que respondeu "fala com o segurança, pode ser que ainda deixe entrar um bocadinho." Foi o que fiz, de flores na mão, margaridas rosa e aquelas flores brancas pequeninas de que, segundo a minha mãe, herdei da minha avó o gosto. Prometi serem só quinze minutos, que era rápido, como se naquele sítio a pressa não fosse um absurdo mais absoluto que a morte. Entrei pelos caminhos sossegados, dos lugares com flores novas, frescas, e dos outros, com a morte desabitada, quase abandonada, como se certas partidas não fossem o derradeiro abandono. Não critico quem não vela a morte pela visita. Os nossos mortos velam-se apenas pela presença diária duma ausência para a eternidade. Não são os que lá são desabitados que têm a alma esquecida, vivem enquanto nos estiverem nos dias, nas memórias, na repetição do que nos deixaram em momentos, em palavras, em pequenas eternidades embrulhadas em certos instantes que não se desvanecem.
Gosto de lá ir em dias de datas desassinaladas, ou das que eu assinalo, gosto de ir sozinha e sem ver gente, de estar sozinha com quem me deixou mais sozinha. Não consegui, não tive tempo de me sentar naquele banco, onde vejo o rio e o céu e o tempo de quem já não o vê. Não tive tempo para ter tempo com quem já esgotou o seu nesta terra feita chão onde outros caminham. Deixei as flores, mal arranjadas mas bonitas, as que gosto. Aquelas, que estas mãos arranjaram, mesmo que mal, num ramo que mistura o que sou, o que me fizeram, o que fiz do que me deixaram nas veias a correr. Parei cinco minutos a olhar pelo vidro, voltei a pôr os óculos quando o céu já não sabia do sol, fiz o caminho de regresso que para alguns já não é caminho, porque não há regresso. Há ausências de que não se regressa que nos acompanham para sempre o caminhar.

Essa coisa de acharem foleiro uma mulher chamar a pessoa que escolheu para a vida de "meu homem". Essa coisa de a mesma palavra designar género e relacionamento: nascida mulher e mulher de um marido. Essa coisa de o homem poder ser homem e marido, ou só homem ou só marido. Essa coisa de separarem umas coisas e não outras. Essa coisa de acharem que as éguas são cobertas e isso ser coisa inferior, como se ser fêmea fosse estrato mais rente ao chão do que macho. Como se o que decorre da natureza fosse humilhante, como se ser coberta por macho, que a fêmea aceite e escolha, desse primazia ao macho porque cobre, ainda que depois de ser aceite. A mulher é fêmea, eu sou fêmea, e não acho que dizê-lo seja diminuir-me, como não acho que dizer macho superioriza alguém. Ou diminui. Embirro com as feministas que diminuem a fêmea, ser fêmea, quando a sua maior força é essa, e isso ser diferente - tão diferente e a beleza de tudo estar precisamente aí - de ser macho, mas de só assim as coisas fazerem sentido, encaixarem, serem o seu papel. A Marilyn tinha frases estupendas, duma inteligência a que poucos chegavam perdidos no caminho do loiro platinado. Como esta, ou como quando dizia que uma mulher querer ser igual ao homem era falta de ambição, porque, na verdade, este não lhe é superior na sua diferença. É apenas diferente. A cada um o seu papel, mesmo que um seja cobrir e o outro seja escolher querer ser coberta, ou não, por aquele macho. Acho bonito - acho mesmo lindo, daquela beleza natural que volta ao intocado e irracionalizado e deseducado - alguém dizer de quem escolheu para a vida ser o seu homem, ser a sua mulher, independente dos rótulos, das relações, do estrato social, educação ou ponto geográfico. Porque ser o meu homem é ser a minha escolha para tudo, dentro de todo o género masculino, independente de qualquer relação, laço ou designação. Nunca resignação. É a ligação pura, essencial, crua. Coberta de razão do que é natural, descoberta de rótulos e preconceitos.



[foto @lovepaperplane]

Passava lá maior parte do tempo. Diziam, com toda a razão, que não jogava com o baralho todo. Nem percebiam sequer ao que jogava ou que cartas precisava ou quais lhe faltavam. Não conheciam os seus jogos, ela jogava com o baralho que tinha. Diziam que não era todo, que não estava completo. Tinham regras para tudo, até para o número certo de cartas, sem perceberem que depende do que se quer jogar. Ou se se quer jogar.
Quando não sabiam onde parava iam encontrá-la invariavelmente na estrebaria. Ultimamente passava lá dias quase inteiros, ou melhor, em todos os momentos inteiros do dia. Estranhamente saía de lá sempre com um sorriso de alma inteira e uma margarida a desenhar-lhe os jeitos do cabelo. 
Ela agora parecia dedicar-se a escovar um enorme animal, de porte majestoso, de pelo brilhante, de temperamento indomável, musculatura de campeão, altura de rei, mas que parecia gostar de ser escovado por ela enquanto ela falava, contava histórias, ria-se, gargalhava até. Andava para cá e para lá, alimentava-o, brincava, tinha medo dele, de cair, de ele fugir, de ele não sossegar para ela o escovar. De ele desembestar mundo fora, para longe da estrebaria onde ela se sentia segura - onde guardava as suas coisas, onde fazia casa -, de tão inquieto sentir ser o bicho. 
Ninguém percebia o que fazia ela tanto tempo naquela estrebaria vazia, sem vivalma, a falar sozinha como se não estivesse, a viver como se sonhasse outros mundos, a viver noutros mundos como se este não fosse sequer sonhado. Diziam que não jogava com o baralho todo, procuravam cartas onde ela via histórias, procuravam animais onde ela cuidava dos seus sonhos.

[sim, não jogo com o baralho todo, não é novidade e não foi por falta de aviso essa surpresa...]
(foto @oxy.to.cin)

Caminhava despreocupada entre o formigueiro de gente que se movimentava como quem tinha um sítio marcado onde chegar. Parecia que só ela observava, só ela, andando, estava parada naquela engrenagem infernal. Viu um rosto que lhe lembrou alguém. Procurou nas memórias sem sucesso, não se lembrava quem aquela cara lhe lembrava, ou quem sabe, até seria. Sentaram-se numa esplanada, ele ao lado dela a olhar para algum lado que ela não via, que ela nunca via, e ele parecia nunca a ver, ou procurar ver para onde ela olhava, senão talvez se encontrassem. De repente lembrou-se: era a cara dum familiar afastado que não via há muito tempo, há muito que não sabia nada dele. Pegou no telefone ligou à irmã, descreveu-o, perguntou-lhe o nome. Desligou o telefone perplexa. Tinha morrido há vários anos, não podia ser ele, ou sendo, só o seu fantasma. Chegaram os cafés, ela aqueceu as mãos na chávena e por instantes fechou os olhos para aquecer o olhar. Quantos dos que se vêem serão fantasmas? Se não soubermos se morreram ou não, são gente como nós... pensou com um sorriso cego que lhe morreu nos lábios e que nunca ninguém viu. Quantos de nós já estarão mortos? Quantos saberão disso? Abre os olhos e, pela primeira vez naquele dia e não sabe há quantos dias, olhou-o nos olhos, disse-lhe: "era um fantasma". E ele, atónito, repete em pergunta: um fantasma? E ela sente um arrepio que vem da terra, que lhe sobe pelos pés, que chega à boca para lhe responder, respondendo-se a si mesma tantas perguntas por fazer que agora ali se respondiam, quase antes de feitas. 
-sim, morreu há anos mas não para mim porque não sabia... se calhar, se não soubermos, as pessoas não morrem, até as vemos noutras pessoas, ou então são fantasmas. As ruas podem estar povoadas de gente que já morreu e não se sabe, e, para quem não sabe, estão vivas ou é como se estivessem. Parecem vivos, mas são fantasmas. - semicerra os olhos, metade em desafio, metade com cara de miúda traquina, e acrescenta - "percebes?"
-que disparate... fantasmas?... só dizes disparates.
-disparate? Estás a olhar para um... morri para ti há anos e tu não sabes, nunca quiseste saber, talvez tenha morrido por causa disso. Morri para ti, mas o mundo nasceu-me, outra vez, agora.
Levanta-se e mistura-se na engrenagem do mundo. Deixa para trás aquela máscara, aquela armadura, aquela pele endurecida naquele tempo de vida que serviu apenas para chegar àquele momento, àquele arrepio, em que volta à sua pele, ao que é, ao que sempre foi. Desistiu de desistir de si mesma. Naquele momento regressa-se e reconhece-se. Por baixo daquele tempo e daquela pele sempre fora assim, ela, apenas andou anos a tentar esquecer-se porque ninguém se (a) lembrava dela.
Pergunta-se, enquanto se levanta, se saberão que agora ela está viva para o mundo?... que deixou naquela mesa os despojos duma pele e duma vida que não era sua, que já não queria, que não era ela, nem dela. Soltou-se para agarrar a essência. Não era um fantasma.

sábado, 29 de outubro de 2016


Um tempo maravilhoso, o sol quente, as nuvens de transparência fina, um sábado sossegado, para mim... Sorrisos que vão aparecendo, mágoas que se querem desaparecidas. Um pequeno almoço que segue um banho lento, dos que podiam lavar a alma se a água chegasse tão fundo... A preguiça estendida em cima da cama, enrolada molhada numa toalha cada vez menos seca. A luz a entrar pela janela, de esguelha, à procura do ângulo para se estender na parede, à minha frente, cheia de circunstância e nenhuma pompa. Cá em casa não entra pompa e há circunstâncias que saem a correr.  Mas não a circunstância de tirar a toalha e enfiar um roupão leve em cima da pele, essa circunstância prolonga-se num pequeno almoço grande, que faz de almoço sem enganar ninguém. O sol quente mergulha na pele, dá umas braçadas na alma, onde nada mas não há pé. 
Olho para a mesa, no tabuleiro a circunstância do café com leite ser ainda leite e café, em camadas. Sobreposto, não envolvido, não misturado. Só de olhar não sabemos se se misturam, se se podem misturar de tal forma que depois já não se saiba dividir um do outro. Distingui-los sequer. Às vezes só de olhar não se vê. É preciso saber do que se é feito para fazer o que não pode ser desfeito. E para isso, muitas vezes, tem de se desfazer muita coisa.
E agora comer e vestir para tomar um café... Gosto destes sábados devagar, com o vagar de domingo que lhes quisermos dar.




Um beijo que se manda
Mas nunca chega

Um beijo dado
Que nunca adoça a pele 

Um beijo com sobrenome de vontade
Beija-nos por dentro da pele, 
a cada viagem que promete fazer

Um beijo que ficou por dar
Sentindo-se essa ausência 
É um beijo devolvido
Daquele que nunca chegou.
É a viagem de volta do que nunca partiu.

Bom diaaaaa ronhaaa....

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Havia um canteiro de papoilas em casa do meu avô, e eu gostava de passar por ele, sempre que ia e vinha de casa dele - de brincar com ele e com as papoilas. Papoilas: vermelhas, e sempre tão estranhas, não sei se bonitas, mas têm aquele aspecto selvagem, de quem não precisa de muitos cuidados, porque o seu maior cuidado é ter ganas de sobreviver, e sobrevivem. Sozinhas vão-se sustentando dia a dia, têm a sua força nessa vontade selvagem de ser, de nascer e aguentar-se de pé. Nem bonitas nem feias, mas com uma graça frágil, simples, natural e ao mesmo tempo cheia duma força quase sobrenatural.
....volta e meia volto às papoilas da minha infância, e à mão que procurava para agarrar a minha, uma mão forte, quente em ternura e protecção. Não eram mãos bonitas - de tão esquisita que sou com as mãos -, mas eram umas mãos que me faziam sentir bem. Mãos que tantas vezes espreitei, de soslaio, noutras que me faziam lembrar essas, que me levavam no tempo e no sangue até elas. Também essas já não me amparam, não me seguram, não me protegem, levaram com elas a protecção, o sentir que há mãos que se podem procurar para nos agarrar, para não nos deixar cair - ou melhor ainda, não precisar de as procurar... tudo isso acabou. Alguém me devia ter avisado que eu devia ter crescido antes disto. Procuro nessas mãos da memória a memória duma segurança que não tenho, mas que tento agarrar no vazio das mãos que perdi. E colo, esse colo que me ampara e repara de todos os males, que os faz desaparecer como num passe de magia para crianças que crêem, enquanto me semeia dentro, um sorriso que já não sei sorrir, mas em que creio.
Tenho saudades, saudades de tudo, de tanta coisa que é o meu tudo, de tantas pessoas que me são e que me faltam... tenho saudades de estender a mão e procurar uma mão, como a minha filha procura a minha quando caminhamos lado a lado, e mesmo sem qualquer perigo aparente, encontra-a, e segura-a. Seguro-a. 
Seguro-a sempre, será que ela sabe?
Alguém me devia ter avisado que eu devia ter crescido quando as papoilas morreram naquele canteiro.

Saramágica - chama-me ele porque me falta a pontuação, porque não sei pôr as virgulas, os pontos, os travessões, esses cruzamentos bastardos que são os ponto e vírgula... mas os pontos nos i´s não me falham. Sei que tem razão, que a cabeça se esquece de pontuar, que às vezes até se esquece de dizer como escrever o que passa a uma velocidade desnorteada, capaz de cruzar a mesma esquina duma ideia, em sentidos opostos, ao mesmo tempo. Tem vezes que até a mim me dá um nó cego nos sentidos, oriento-me pelos sentires - sempre - e tento deslaçar as palavras sem perder o laço, enquanto deixo, descuidada, cair as regras da pontuação, como quase todas as regras da vida nesta vida. Como hei-se agarrar a pontuação se estou afogueada a tentar não deixar escapar a essência, a ideia, a imagem, o que me aparece em monólogos internos e inteiros e inquietos. E tontos tantas - quase todas - vezes. Quero que me ensine, que me abrande sem me travar, que me ponha as vírgulas nas pontas dos pensamentos e nos momentos certos, que em dois pontos me declare o impossível, que me puxe as orelhas entre parênteses, que me perceba sem qualquer ponto e vírgula, que me sussurre sem travessões e me queira sem pontos finais. Não gosto de pontos finais, prefiro a magia dos ritmos que não sucumbem a pontos finais. posso gostar de pequenas pausas em que os recomeços não são fardados de maiúsculas de pompa e - principalmente - circunstância, (tão à moda, que gosto, do Hugo Mãe). Os parágrafos são-me difíceis, como todas as mudanças de tema, de história, de personagem, de mudança imposta que não cai no ritmo. No meu ritmo despontuado, desregrado e intensamente desregulado. Só os tolero se forem desculpa para descanso merecido depois de maratona ofegante, de história dentro da história, que nos prende o fôlego e faz correr galopante o sangue ao coração. Daquelas histórias que Saramago escreveria num parágrafo mágico, enorme, a que não faltaria ritmo, ainda que às vezes nos faça faltar o ar ( e tenho para mim que é quando nos falta o ar que melhor nos respiramos). Esses recomeços bons são continuações apaziguadas que adiam fins sem fim, sem perder o fio à meada, só o ar de vez em quando: como quando nos fazem exclamar de surpresa boa e nos fazem interrogar se a vida tem, ainda e sempre, nalgumas pessoas, luz dentro da escuridão. Dessa luz das searas que faz a vida acontecer nas suas mãos. Magia sem vírgulas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016







Impor, obrigar, não toca: empurra.
A alma não pode ser empurrada.
A alma vive da vontade, dos nossos quereres mais fundos, que não controlamos, que somos, antes de tudo o resto à volta existir em consciência. É o que mais nos faz.
Nem a razão controla a vontade.
Não entram imposições nem controlos onde a terra é dos sentires. A alma só é tocada se sentir, e não se sente por imposição, apenas, eventualmente, é-se empurrado para a mentira.
A alma é livre - é, talvez, a dimensão única da liberdade pura.

[por isso nunca quis ninguém obrigado. sem alma, nem o corpo é presente... nem a pele prenda.]