terça-feira, 19 de julho de 2016


Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen


[tens algum sítio em ti onde eu habite?
Onde tenha lugar?
Onde seja o meu sítio de ti?
Tens?
Sabes se tens?
E visita-lo? Vê-lo?
Asfixia-lo na sombra dos dias
ou guardá-lo na gaveta da vida por respirar?
Ou das memórias por sentir?
Tu não me habitas
Como as paredes, o tecto
o chão e o telhado, não habitam casas
Não tenho um sítio que habites em mim,
o meu lugar és tu,
onde estiver, tu és.
Onde eu for, tu estás.
Há um olhar teu
Em cada pensamento meu.
O mundo são só janelas.]

(Saiu-me agora, quando me cruzei com este poema...há que tempos não escrevia assim...)

terça-feira, 5 de julho de 2016

Último cigarro do dia. Duas luzes na mesa outras tantas na rua. Não está feio e apetece-me deixar-me ficar, nunca me apetece acabar o dia, não porque tenha sido bom, mas porque começar outro não é ideia que me anime... E aqui estou bem, enrolada no cadeirão redondo a ouvir vozes ao fundo. Falam espanhol e riem. Rir não tem língua, é linguagem universal. Como outras que não se servem de palavras mas que dizem mais que muitas palavras eloquentes juntas. Dantes acreditava muito nessa linguagem que não se falando se exprime, que se sente mesmo que não se entenda. Escrevo isto e penso que volto sempre à essência, à ideia de essência. O que é essencial percebe-se mesmo que não se entenda, sente-se mesmo que não se fale. É um perceber que se sente sem razão. As palavras só são precisas para as razões com que procuramos entender. E desentendemo-nos muitas vezes com o que procuramos entender, muitas vezes num entendido desentendimento a que procuramos fugir. A essência apenas é, é-nos independente de tudo, selvagem não domesticável à razão.
E eu já não sei da essência dos dias, da vida, mas ainda sinto a minha. Sinto-a desbotada, apagada, mas não mudou, não entendo como, mas sinto-o. 
A essência não muda e não tem rótulos, os rótulos precisam de palavras. Não são universais, são língua, mas nem sempre linguagem. Quase nunca a minha.
E no entanto aqui estou eu, a escrever na minha língua a minha linguagem. Não é universal, nem todos entenderiam, alguns apenas se ririam. Talvez com razão. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016



Encontrei esta conta com frases lindas. Fiquei a ver não sei quanto tempo, guardei umas tantas... Mas esta, esta eu gostava que fosse possível, que fosse possível alguém ler e poder achar que eu podia ter alguma coisa destas, e sentir principalmente a última. Acho que é o amor que faz isso, não especialmente a última, há muitas coisas por que as pessoas podem nunca ser esquecidas, mas todas as outras é o amor que faz, que desenha, que brinca com a realidade às vezes... ver isto em alguém depende de ver com amor, fechar os olhos e ver assim a pessoa que gostamos. Só a vemos assim porque gostamos, porque é o amor a ver, não os olhos, não a cabeça, mas o amor que lhe temos e o que nos faz sentir. Cada uma destas frases eu senti tantas vezes a pensar naquela criatura, a maneira como falava com as pessoas, aquele sorriso malandro com que toda a gente simpatiza, que muda o ambiente, o contexto, muda tudo, a mim derretia-me, e o riso... o que eu adorava ouvi-lo rir, curava-me de qualquer coisa, qualquer mal virava sorriso, e eu virava-me do avesso se preciso fosse para o fazer rir, principalmente se não estivesse para aí virado, com o sorriso trancado nalgum recanto escuro de si mesmo, nalgum recanto frio da vida. O sítio onde tinha de chegar para o arrancar. E sim, quando entrou na minha vida, quando me apertou o pescoço e me roubou um beijo que eu entreguei colado à alma, mudou tudo. Tudo. E é disso que tenho medo, que aquela última frase seja eterna. Muito medo. Porque não há nada a fazer. Não há nada que eu possa fazer, senão deixar os dias ganhar pó, amarelecerem, ir tentando matá-los aos poucos na medida que eu conseguir... Mas acredito que há pessoas que nos ficam dentro, coladas aos ossos. Mesmo que com a vontade de as fazer desaparecer as reduzamos a pedaços, como memórias partidas, essas agarram-se aos ossos e não largam, passam a fazer parte, deixamos de conseguir separar o osso da vida que viveu e que o partiu para sempre. Há fracturas que ficarão sempre, mesmo que o esqueleto continue a mexer, a viver, a ser. Já não é o que era antes e já não será o que poderia ter sido, coberto com uma camada protectora de vida, de sorrisos, de amor. Foi-se tudo ficou o esqueleto de ossos partidos.

quarta-feira, 29 de junho de 2016


Eu não era feia. Há quatro anos eu não era assim tão feia. Estive a rever as fotos de Paris. Acho que não estava tão infeliz, acho que ainda tinha esperança em qualquer coisa, acho que ainda acreditava no amor, mesmo que me lembre que estive tão triste enquanto lá estive, lembro-me das mensagens que ainda troquei em Lisboa antes de ir, lembro-me do esforço de afastar a tristeza lá, de em cada sítio pensar se um dia poderia estar ali com ele, ou em qualquer lugar, assim, a passear. Agora olho-me ao espelho e sinto-me mesmo feia, vejo-me feia, e não são só os quatro anos mais velha, é o estar infeliz, sem luz, sem qualquer esperança na vida ou no que me irá trazer. Lembro-me que o meu tio me deu dinheiro para levar, para gastar lá, que não o gastei, paguei a viagem e guardei o resto, comi sandes e gostei. Hoje não tenho o meu tio, não o oiço, não o pico, não me põe as vezes os nervos em franja. Não tenho o meu irmão que me dava abraços de aniversário como nunca mais ninguém me vai dar e ainda hoje me lembrei disso por um amigo dele fazer anos. A vida em quatro anos levou-me muita coisa, não trouxe nada que eu queira realmente. Já não tenho luz, nem os olhos brilham, nem a alma resplandece o que tinha dentro. Porque tinha coisas boas lá dentro, inocentes e doces. Estou terrivelmente feia, sinto-me vazia, sem graça, sem nada. Sinto-me pior que sozinha sinto-me sem sentido e sem sentidos, parece que não sinto nada que me faça sentir viva. Que me faça sentir valer a pena. Se calhar fui eu que morri. E há quatro anos não era tão feia assim, ainda tinha vida. Tinha vida no olhar, nas veias, na alma, no andar. Agora sinto que não tenho nada. Que olham para mim e vêem só que sou feia, apagada, sem alma. Como é que eu era antes disto tudo? Quem é que eu era antes de me nascer o amor e de mo ferirem de agonia de todas as maneiras? Para onde foi esse ser? Morreu em agonia? Como, se nada no seu lugar nasceu, foram só mortes, grandes e pequenas mortes numa agonia constante, numa angústia contínua... Mas se cada fim é um começo, onde estão os meus começos depois de tantos fins? Onde? Onde estou eu que me vejo mais em fotografias com quatro anos do que ao espelho? Onde morreu o tempo que me secou as veias, a alma, o coração? Se me morreu o tempo, num fim sem recomeço, porque estou aqui? Para quê?

segunda-feira, 27 de junho de 2016


Ando meia nua pela casa, já não me lembro de andar nua, desta sensação de estar nua na cama. Hoje calhou, voltei para casa, despi-me e voltei a enfiar-me na cama, meia nua. Gosto da sensação mas faz-me lembrar que me falta um corpo aqui ao lado... Fiz gazeta, agora estou aqui na sala de corpo arejado, no sofá a pensar que não me apetece coisa nenhuma, que o corpo a ser meu não me lembro dele e que a pele desaprende muita coisa, mas o coração não esquece de nada que já albergou. Apenas se cansa, desiste, desilude-se mas continua a bater a vontade de encontrar algum outro que queira bater consigo com vontade, em vez de só lhe bater... Ainda que não acredite nisso - nem em nada -, continua todos os dias a acordar a levar o sangue de um lado para o outro, basicamente a fazer piscinas, a dar voltas no mesmo lugar, sem nunca chegar a lado nenhum. Como eu, tal e qual.

segunda-feira, 20 de junho de 2016



Em memória dos fins de semana que hei-de ter, de ronha despida de tempo, na doçura dos beijos que se fazem a cada instante, a cada olhar, a cada toque, em vez de se darem com pontos finais.

"we can disconnect the telephone, just sit around and mess around and tell your mom we went to Rome..."

Era mesmo isto, dizer ao mundo que não estou, que não estamos. Eu e quem ainda não conheço ou conheço e não sei... Preciso dum fim de semana destes... continuo a adorar Lloyd Cole... é uma sonoridade muito eu...

 "yes, I love you more undressed..."

Gosto muito mais de tudo despido, nu, sem subterfúgios, e este despido não é necessariamente de roupa, mas às vezes também é.

Bom dia!!!!

quinta-feira, 2 de junho de 2016

[foto @picame]

Bom Dia!!!
(isto lembra-me que ainda não tomei café... 
...os dias de sol pedem menos café que o cinzento frio dos dias... 
já a bolachinha cai sempre bem ;))  )

terça-feira, 31 de maio de 2016

           Mario Benedetti

(acontece a muita gente, parece-me...)


Há dias em que me passa tanta coisa pela cabeça que os dedos não conseguiriam acompanhar mesmo que a preguiça não me tolhesse os movimentos. Hoje foi um desses dias. Que me lembre não falei com ninguém excepto o senhor J. do café e a senhora da loja. Nem com a minha filha consegui falar, ninguém me atendeu... Falei comigo demais e tenho o problema das respostas, não me sei responder, ou então, tenho respostas a mais para conseguir saber onde se esconde a verdade. Acabei de ver um filme que deu à tarde e houve cenas que me levaram a outras cenas de outras vidas, que fazem parte da minha vida interior, essa que não se cala, ainda que morta. 
Agora estou aqui na varanda a fazer companhia a uma vela que acendi, começa a chover neste preciso momento, mudo-me para o degrau da varanda e levo a vela, protejo-a da chuva que a apagaria. Não se acende uma vela para deixar a chuva apagá-la. E isto, isto de repente faz-me nascer um sorriso pela ironia de algumas metáforas. Há quem acenda velas mas não queira a companhia da luz dançante, a razão que levou a que fossem acesas. 
Tapemos a luz. Tapá-la não a apaga, so vemos um pouco pior, tudo se torna mais escuro, mas aquece-nos a mão. 
Qual é a tua luz? A luz da tua vida?... Haverá uma luz acesa para ti? Por ti? É o problema das respostas, sempre o problema das respostas... Não se vê luz ao fundo desse túnel.

Estas linhas, mal descosidas de pensamentos dispersos, nem a preguiça deixou escapar, só porque aparecersm quando estava com as letras à mão. O sorriso deixei-o no bolso coladinho à ironia da vida que me lixa todos os dias, mas com classe. Já que me lixam, que o façam com classe. Faz toda a diferença.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

... tipo um metro e oitenta estava de bom tamanho, 
também não peço mais...
... mas a coisa não está fácil, não...
ihihihihi

Bom Dia!!

sábado, 28 de maio de 2016

quinta-feira, 26 de maio de 2016


O último cigarro do maço diz-me que tenho de tomar banho e sair de casa. Que o dia está cinzento lá fora, mas não está mais colorido aqui dentro depois de me pôr a arrumar passados, enrolá-los e deixá-los à espera da transferência para o arrumo. Fosse tudo tão fácil na vida, mesmo que trabalhoso. Realmente a G tinha razão, não fazia sentido aquela foto como a sombra de um farol extinto sobre o meu sono. Enquanto tirava agrafo a agrafo para guardar para o futuro o que ficou do passado, pensava que passados temos muitos, temos tantos quantos olhares lançamos sobre o que já foi, o que já fomos, o que já tivemos e vivemos. Às vezes o mesmo passado são muitos passados. Há dias que nos deixam cheios de dores, outros de sorrisos ternos, outros de raivas surdas ou das que fazem gritar. Tantos passados, às vezes, para um mesmo momento vivido. Vivido uma vez - só se vive cada coisa uma vez, mas revive-se, de cada uma dessas coisas, passados inúmeros, diversos, é até contrários. Como o futuro, há tantos futuros como cada disposição com que acordamos para cada minuto, cada hora, cada dia, cada estação do ano ou da alma. Só o presente é único, mas cada passado que recordo, cada futuro que anseio ou temo, são tão reais como estar agora, aqui, a preguiçar no sofá, ainda de pijama, a adiar um banho e o pôr o pé fora de casa. Tudo é real, mesmo quando nos mentimos, mesmo quando nos mentem, mas só o momento é único.
Talvez por o presente ser único, ainda que seja apenas uma sucessão de momentos, se sinta como indecifrável. É a tentativa de o decifrar, de lhe conhecer as razões e os porquês, que nos dá tantos passados quanto futuros. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

E é o que se me oferece dizer nesta véspera de feriado 
mesmo antes de sair do escritório rumo a casa, 
onde jantarei com um prato na mesa ... e talvez vários a voar.... who knows...

segunda-feira, 16 de maio de 2016


As vezes penso que há pessoas que não podem ficar juntas porque seria injusto para o resto do mundo. Juntas talvez vivessem uma felicidade que, de tão rara e plena, seria um atentado à normalidade do mundo - um desequilíbrio. Tem alturas que penso que é um privilégio experimentar essa estirpe de felicidade, que poucos a terão experimentado, poucos terão atingido tais graus de loucura e entrega de alma aberta. Acho até que seria injusto para ele, eu seria com toda a certeza mais feliz, aliás, sei-o. Duvido que ele alguma vez tenha experimentado esta felicidade que falo, que senti. Ou melhor, não, não duvido, sei que pelo menos comigo nunca o experimentou, nunca o sentiu como eu, nunca abriu a alma para que o pudesse sentir, nunca se atirou do precipício sem asas de voo testadas. Nunca sentiu comigo a felicidade que experimentei, nem a infelicidade que me deu tantas vezes de beber. Não tenho, nunca tive, sobre ele o poder dessa felicidade nem dessa infelicidade, dois pratos do mesmo amor, duas intensidades finamente calibradas entre si - justamente equilibradas. Tivesse ele sentido o que eu sinto e estaríamos juntos, não haveria como não estarmos. Escolher não estarmos seria uma sanidade impossível no meio de tanta loucura. E o mundo não seria justo para todos os que não fazem ideia do que é entregar-se ao voo livre sem asas, sem rede, sem nada, senão a felicidade de sentir uma mão na sua, senti-la a mão certa e bastante, o equilíbrio no vento que a vida sopra. Acreditar no voo e não na queda.  Não, não seria justo.
Justo é vê-lo de braço dado com outra mulher e saber que não é, nem nunca será, meu; é pensar nisto tudo enquanto arranjo uma varanda que nunca será jardim. Talvez seja justo pensar assim, talvez me seja mais fácil aceitar esta justiça do que a injustiça que me sentencia à infelicidade, quando a minha felicidade anda de mão dada a outra mão. Talvez o equilíbrio das injustiças resulte mais justo do que o desequilíbrio da justiça. Aceito as coisas justas, contrario as injustiças. Mas a minha varanda nunca será jardim. Ainda que a sinta o meu jardim.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

[foto @lalovenenoso]

Tenho a pele trancada ao toque mas permeável ao negro do mundo.
Talvez as paredes da minha pele sejam demasiado finas para que o mundo de fora não me invada. Talvez a separação entre o de fora é o de dentro seja esbatida, ou tenha sido já demasiado batida. Talvez todos os contextos que me rodeiam me estejam a enegrecer por dentro, a corromper a alma. Demasiados lutos para fazer, demasiadas dores para apaziguar.
Há dias melhores, em que a cabeça obedece ao ritmo do dia, em que procuro forças onde não sei que as tenho, mas ainda que fingidas vão aparecendo e fazendo o seu trabalho - fazer-me escapar dos pensamentos que fazem sentir.  Raros dias a luz entra-me fugidia pelas janelas da alma e esses são dias bons, onde uma paisagem me enternece, onde uma música me entra directa no sorriso, onde uma brincadeira, uma palavra, me aquece a alma pelo caminho da ternura que esconde, onde um sorriso simpático me faz ter fé nas pessoas. Raros, são raros, mas no meio de tudo isto aparecem para me lembrar que a vida já fez sentido, que eu já tive esperança nas pessoas e na vida, que já acreditei que era capaz de muita coisa, que podia viver duma forma que não me definhasse a alma. Agora vou tentando remendar a alma, fechá-la, trancá-la, endurecer as paredes da pele para me defender do mundo tão feio como o vejo, como o sinto. Tento que não me adoeça o corpo em sintonia com a alma, mas as paredes da minha pele são demasiado finas.Vejo pessoas feias, pessoas más, pessoas manipuladoras e indiferentes, ainda que felizes, com as vidas que procuram e querem. Recompensadas por tudo o que não deviam ter feito.
Onde está o mundo bonito, as pessoas com alma, as mãos com gestos atrapalhados de amor? Onde estão para os beber, para os deixar entrar e ficar, afastando as dores que estão a fazer ninho em mim? E o pior, o pior é saber que o pior está para vir e saber que não sou capaz de nada, que tudo me vai sendo tirado aos poucos, dando mais vazio ao vazio que sinto, que não sei combater. Talvez não saiba lutar por nada, só aceitar e fechar-me no abraço dos meus próprios braços, na minha própria pele. Uma pele demasiado fina. Escrevo para purgar os pensamentos, e um pouco de dor, mágoa, incompreensões que já não procuro entender, que aceito apenas como a face negra da humanidade. Aceito tudo com a resignação da falta de forças, de não ter nada por que lutar que possa vencer. Escrevo para a seguir tentar dormir e não voltar a sonhar tudo de que fujo durante o dia: as frustrações, os medos, as impotências face à vida que me acorda todos os dias sem dela conseguir despertar. 
Morreu-me dentro quem me despertava a alma, quem a fazia sentir acompanhada, grande, viva, agora a caminhada é enterrá-lo, continuar a enterrá-lo, juntamente com todas as outras mortes que me doem, que vivem em mim.

terça-feira, 10 de maio de 2016


[foto @gabrielerigon]

  Às vezes acordo com vontade de achar alguma piada à vida, algum sentido, alguma coisa. Normalmente não encontro, é cada vez mais raro o dia em que algo em mim brilha, reluz duma vida qualquer que um dia eu me convenci, e senti, que tinha. Devia estar louca. Não tenho nada, não é meu, senão não me faltava quando mais preciso, acho que roubei essa vida no fundo do brilho do olhar de alguém. Falta-me isso, falta-me tudo, como se me apagassem a luz, como se já não houvesse caminho, como se o ar fosse apenas um remédio para me manter viva sem cura.

segunda-feira, 9 de maio de 2016


Entra no meu carro depois de me pedir boleia. Pediou-me boleia ainda estava eu de costas para ela a entrar para o carro, virei-me e conheceu-me... diz oh ainda por cima és tu, agora tens mesmo de me dar boleia! Não a via há anos a não ser ao longe assinalando os encontros pr acenos e pouico mais, vou sabendo de algumas coisas e pela manutenção do sentido de humor pelo facebook. Senta-se e fecha a porta, sempre leve e animada como a conheci, com uns olhos verdes vivos e um sorriso alegre quase permanente na expressão. Tem agora, à volta dos olhos, desenhadas as teias do tempo que se vai embrulhando na vida, mas que não lhe embargam a voz sempre enovelada de animação, de vida - a animação que admiro e gosto por em mim a ter em falta. Acomoda-se, puxa o cinto, e diz-me:

- Pahhh estou deprimida sabes o piropo que me atiraram hoje?
- Nope... diz lá.
- A "senhora" está óptima.... "a senhora"??... "a senhora" pahh?? a sério??? "está óptima"?? mas kéistooo???... senti-me atingida na minha auto-estima por um insulto!!.... estou velha, é o que é!!
- Olha para a próxima o melhor é sair no Porto... lá somos todas meninas... mas, olha, sabes a mim o que me disseram?? ... estava um gajo meio a melgar-me, mas sem chatear na verdade, e vem um amigo dele e pergunta "ele está a insistir um bocado, mas realmente é porque és um escândalo..." ahahahha
- Um escândalo?? Olha, estás a ver? Ficaste melhor servida do que "a senhora" aqui...
- Escândalo?.. a sério? mas desde quando a escandaleira é uma coisa boa, é que eu não fui avisada!?... eu que adoro que não dêem por mim, que levo a discrição quase ao ponto da transparência.. escandâlo??... não é piropo que se apresente, acho que o pessoal anda com medo de exagerar nos piropos, não vá a gente mandá-los prender ou assim... ehehhehe

E rimo-nos pronto, já o sol tinha descolado do horizonte e a viagem até porta de casa dela fez-se entre galhofa, perguntar da vida uma da outra, descobrir que estamos as duas separadas, que fomos as duas quem quis a separação, as duas com prole e todos os problemas associados, e conversa sem dizer nada de jeito... o que bem vistas coisas, é uma coisa muito boa. Fui bem disposta para casa e com vontade de mais encontros destes às seis da manhã...

quarta-feira, 27 de abril de 2016

... há certos dias em que realmente só com muita paciência... 
o problema é que é coisa em que sou parca (mesmo muito, digamos), 
e ao fim de repetir pela quinta vez a mesma coisa, transforma-se a pouca paciência em muita raiva acompanhada de vontades assassinas... 
se continuam a esticar a corda ainda mato alguém à dentada ou fulmino-os com um olhar... como alguém dizia se o "olhar matasse só tinha olhos para ti"...eu aqui até conseguia dividir o olhar por várias criaturas...
Irra, que raio de gente mais estúpida e dia mais enervante!!

terça-feira, 26 de abril de 2016


De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exacto.

Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem

Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.

Hilda Hilst

"E te lembrando (...) que eu te esqueça", que te esgote de mim, da memória, da alma, de cada poro onde te reténs. Onde me tens e me respiras. Que um qualquer amor, que não se compare ao desamor que quero por ti - que de tanto o desejar é amor ainda e tanto: só sente desamor quem ama ainda...-, me desfoque os sentidos de ti, que me desafogue a alma do teu mar, do teu ondular que me embala os dias quando distraio os olhos no horizonte da uma qualquer parede que nunca chego a ver, do som das ondas que me fazess sentir ressoar  no âmago do ser que um corpo pode ser, desaguando sempre nos teus olhos cheios de alma que me parece minha, que não me banhes como o luar conquista o oceano inteiro só para lhe lembrar que só o reflecte, sem lua é só escuridão líquida. Que eu te esqueça não me lembrando que te esqueci - essa incoerência de desamar ser só uma forma de amar enraivecida pela solidão. O desamor é  amor só. Que provavelmente só não pode ser chamado de amor. 
Que eu seja amada sem a amargura de não ser amada por ti.
Que eu seja amada sem o desatino de não te querer amar.

terça-feira, 19 de abril de 2016


- o que é q gostas mais em mim?
- dessa tua cabeça doida...e tu em mim?
- gosto de como somos juntos. Não consigo ser assim sem ti. E assim, contigo, não me custa ser. Sem ti custa-me muito ser. Não sei explicar, como se a existência me pesasse. A minha e a dos outros...
...gosto do teu sentido de humor, das tuas parvoeiras, da tua malandrice, da tua ternura, de como me tocas, de como me olhas as vezes, de como te ris. Gosto de ti, pronto. Da maneira como te mexes, como me mexes. Das tuas inseguranças dos teus medos do que te faz frágil e da vontade de dar colo e força... Não sei explicar...
- eu só sou assim porque é tudo o tenho de ti, só consigo ser assim contigo. Só contigo me sinto assim.
- então por que é não gostas de mim pah?? 
Eheheh
(Conversas parvas e tontas)