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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

... confiem em mim, é um boa política. Para toda a gente.

Entrei na caixa de mail errada como quem entra na sala errada e se depara com o que não quer. Fiquei a olhar para a resposta em rascunho por enviar datada de alguns meses. Os mesmos da decisão de não responder, mas também não apagar, sabe-se lá porquê esta ultima parte... Tal como quem entrou numa sala que não era o destino procurado, mas está em sua casa, numa divisão não muito visitada, dá-se o caso de mexermos nalgumas coisas que estão em cima da mesa, esquecidas, ou apenas ali abandonadas da última vez que a divisão ainda era parte viva da casa, altura em que não era ainda museu.  Antes de decidirmos fazer daquela sala museu das coisas que, a certo ponto, não quisemos mais, que recusámos, mas que existiram. Demais até. Reli o mail, pouco curto, num misto incerto de sensações, e nenhumas boas... E digo-vos só: não sei porque não acerto no Euromilhões, tudo o que lá está escrito, assim aconteceu. Tudo como previ. Tudo o que chegou a ser dito foi esquecido, tudo o que foi prometido foi mentira, toda a confiança que me foi afiançada foi deitada por terra, mentida sem problemas, tudo que foi avisado ignorado foi, para que o resultado fosse nada resultar dali. Resta-me a dúvida da intencionalidade de tudo, dúvida de que já não quero, sequer, aclaração. Só me fico aqui a pensar se tenho também a chave vencedora, o bilhete premiado, no bolso, e só não sai porque não jogo... será? Pelo menos naquele bolso sou muito rica, e sábia. Mas só naquele bolso, do que nunca foi jogado, daquilo em que nunca me apostei inteira, ali, onde acerto a previsão de que nada de bom me sairia dali. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019


... impressionante como chamamos casa a um sítio onde dormimos durante meia dúzia de noites. Dizemos "vamos para casa"... e há uma certa estranheza neste hábito. Não é "casa", casa é mais do que um tecto onde guardamos as nossas coisas e dormimos durante uns dias. Ou devia ser, mas parece que não distinguimos. É tudo a mesma coisa. E quando regressamos deste sítio a que chamamos "casa" também dizemos que "vamos para casa". Então, tudo é casa...? há não só estranheza, mas promiscuidade neste pensamento. E não é verdade, nem tudo é casa. Casa é onde estamos, onde vamos descansar, onde procuramos refúgio, protecção, e para onde queremos voltar - é o nosso regresso, isso é verdade. Mas é mais do que isso, é onde somos nós, onde nos sentimos parte, onde as coisas nos espelham, onde o ambiente tem tudo a ver connosco, onde tudo é familiar, até o cheiro, único, nosso... A questão é se levamos isso connosco para onde vamos, e fazemos casa de cada sítio onde ficamos, mesmo que só enquanto lá estamos? Então o que é ser "casa" realmente? É de onde não temos vontade de sair (a não ser para, temporariamente, chamar casa a outro tecto) ou o sítio para onde temos sempre a certeza de poder voltar? 

Depois há quem diga que há pessoas que são "casa"... lembro-me, sem saber porquê. Os pensamentos são como as cerejas, e piores que as conversas. Há coisas que pensamos e conseguimos não dizer, só não conseguimos é impedir de nos lembrar, ainda que percebamos que lembramos, com o tempo, de formas diferentes. Suponho que isso é aprender, ganhar perspectiva, amadurecer - crescer. Só não sei se as lembranças através dos pensamentos, se nós. Ou se há, sequer, diferença.

sábado, 27 de julho de 2019


“Gosto de ver o teu nome no visor do meu telemóvel”. Escreveram-me ontem, depois duns tempos a trocar mensagens. E não me sai da cabeça. E pergunto-me porquê. Aquilo tocou-me. Não sei explicar, tocou-me duma maneira que não sei explicar. De que talvez até tenha fugido de pensar. De como há coisas que nos magoam e procuramos não ver. É um misto de sensações e coisas que me remexeram o por dentro. O meu nome no visor: coisa tão simples. Que é agradável a alguém. Talvez como o sorriso que tantas vezes eu não dava conta que sorria ao ver todos os dias, ou quase, o visor do meu telemóvel. E depois esta sensação, a certeza, que durante tantos anos não fui tratada como merecia, como me dei. E fui eu que deixei.

domingo, 21 de julho de 2019

[foto @la.melancolique]

Sentados no murete em frente à tela.
Vinte centimetros entre nós. E eu tive vontade de menos, não sei porquê. Apeteceu-me proximidade, talvez até que me tocasses. Talvez. E no entanto há sempre o medo, o medo de me arrepender, de, se, ou quando, me tocares, eu não esteja lá, não como estive tanto tempo por quem não mereceu. Não te chegaste e eu não me mexi. Rimo-nos, falámos e estivemos, com vinte centímetros de permeio. A medida de alguma coisa, ou de coisa nenhuma.

domingo, 14 de julho de 2019


Deve ser arte dizer-se a uma pessoa o contrário do que se diz a outra, 
conseguindo mentir às duas. 
Se não for arte há-de ser pelo menos coisa de um grande artista...

[Hoje, já não sei porquê dei comigo a pensar isto, enquanto as mãos pensavam outras coisas. Talvez haja sítios na nossa cabeça que as mãos atarefadas não ocupam sempre. 
Agora, chegada a casa, aqui parada e a degustar o frio da noite ao som dos carros que passam e das vozes de esplanada, surge-me outra vez. Agora, as mãos quietas, mexem na memória do dia para me relembrar isto. Não sei porquê, é apenas uma constatação, não uma conclusão. Deve ser pela curiosa duplicidade da coisa, dos contrários que não se anulam nem se reforçam... ou porque há que dar reconhecimento aos artistas. Não sei.]

terça-feira, 9 de julho de 2019



Às vezes ainda me pergunto se pensarás se estragaste a tua vida quando me conheceste, ou  quando não ficaste comigo, até ser já tarde demais para haver essa hipótese. Depois lembro-me que não pensas nada disto: não estragaste a tua vida, nem pensas sequer se estragaste em alguém alguma coisa, e lembro-me, de vez e para sempre, que não pensas em nada disto, que provavelmente nem pensas, que foges de perguntas a que tenhas de dar resposta. E de respostas que não te dêem o que queres. Fazes só o que sempre fizeste: nada. Nada, a não ser fazer o contrário que disseste vezes sem conta. O contrário, sempre. Em tudo e em todos os lados, a toda a gente. Cumpres todas as promessas ao contrário. É curioso, pareces o contrário de ti mesmo.
Às vezes esqueço-me que já esqueci isto tudo e tropeço-me no tempo enrolado nos dedos parados. Aquieto aqui as palavras e ponho-os a mexer a outras músicas. Que eu possa dançar.
Às vezes não me pergunto nada. E a música é boa. E eu deixo-me ir.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

[foto @peterwyss]

...caramba, o nosso maior, melhor, bem é a saúde dos nossos filhos, de todos os que amamos sem questões. Daqueles que precisamos para que os dias sejam inteiros. O resto nao é nada, é só paisagem que muda de janela.
Tudo pode mudar do dia para a noite, o espaço vazio à nossa volta cresce, como ervas daninhas alimentadas pela morte. Pelas várias mortes. A que nos toma uns, e os outros que morrem para nós, oferecemo-los a outras vidas onde a nossa não vive. É devastador o efeito da maturidade, do tempo e da vida na negociação dos espaços, os que mantemos ocupados, os que vagamos e os que a morte nos arranca, em que o vazio nunca se ocupa e ocupa-nos tanto.

domingo, 16 de junho de 2019



Passeio a Pintarolas a cheiros e o silêncio pensa-me, tem uma batuta que me orquestra os pensamentos, ainda que nem sempre os afine ou os musique... Olho para trás e percebo que tive pessoas fracas na minha vida. Talvez seja um padrão, talvez elas me escolham, talvez eu me tenha deixado escolher para tentar de todas as maneiras que sabia, fortalecê-las, fazê-las olhar para dentro e verem mais do que julgavam encontrar, e ver o que eu via além daquela insegurança. E com isso fazer-me amar, será? ( e talvez isto diga muito das minhas inseguranças, da minha própria fraqueza)... Mas acho que se fortaleceram, que se viram melhor do que até aí conseguiam. Sei-o. Que lhes dei isso de mim, arrancado, rasgado de mim, talvez. Só não sei se me enfraqueceram. Talvez o nosso inconsciente nos diga que as pessoas fracas não nos esmagam, que não nos magoarão (e isto é certamente insegurança, medo, mais uma vez, fraquezas minhas). O inconsciente está errado. Magoam. E eu tenho de, e vou, mudar o padrão. 

[já alguém da blogosfera, há uns anos, me dizia, tu precisas dum gajo que não tenha medo de te pôr os pontos nos i’s, de tos apontar, que te olhe de igual, não de cima, mas certamente não de baixo, alguém que te veja e te mostre - alguém que faça por mim o que fiz por outros.]

domingo, 9 de junho de 2019

Ontem houve festa. Coisas do Oriente, olhos em bico e afins. Arranjei vestimenta de acordo, e fui com vontade, dancei, ri-me, voltei cedo. Ouvi que seria muito mais feliz se fosse menos inteligente, que sou um desperdício e não me sei aproveitar da vida e do que ela me deu, por um lado, e por outro que tenho uma cara que alguém gosta muito de olhar. Achei piada, não aprofundei... Fugi como sempre faço, não sou boa com elogios. Observei espécimes de relance que me levantaram questões, e responderam a outras. Realmente, apesar de metade da cidade ter sabido de determinada história e o facto de, curiosamente, pouca gente ter acreditado responde-se olhando para a criatura - para as duas criaturas, na verdade, mas ontem só estava lá uma -ninguém acreditou que ele fosse "comer aquilo", ainda por cima "tinha melhor em casa" (ouvi-o várias vezes, e de mais do que uma boca) que só podia ser invenção, boato, má-língua. É engraçado este fenómeno - fiquei a pensar nisso - porque, acaso achassem que afinal o que tinha em casa era pior, todos acreditariam à primeira, nem precisavam das ditas provas, aliás, até acrescentavam várias histórias à história, enfim, o costume... Concluo que as aparências realmente podem ser um bom alibi (o que também explica muita coisa...). Neste caso, maior parte das pessoas que soube ilibaram-no por estas razões, os que sabiam efectivamente a verdade, espantaram-se de tal modo que nem queriam acreditar. Pareciam sedentos de algo que os deixasse acreditar no contrário, qualquer coisa que fosse, o que não aconteceu: era verdade, verdadinha. E não foram os supostos altos padrões morais apregoados por certas criaturas envolvidas que levaram a que não acreditassem, não, isso nem foi tido em conta (talvez nesses ninguém acredite mesmo, lhes pareçam tão falsos como o resto, não sei) foi mesmo a incredulidade de ceder a tal criatura, só podia estar em desespero... Parece que ele se revelou um moço que não sabe dizer que não a borlas, sejam elas quais forem - se lhe aparecem à frente, sem dar trabalho, ele aproveita. Há gente assim. Dessa ideia ele não saiu ilibado, mas condenado, sendo culpado ou não. Talvez também sirva de publicidade, agora qualquer uma acha que tem hipótese... e parece que tem mesmo... mas ainda me ri para dentro a pensar nisto tudo, e lá andava uma avezinha à volta da criatura, não sei quem era, nem se tem história por trás, nem quero saber, só concluo que o moço tem sucesso. Parece o outro: só precisa de se encostar ao balcão que elas aparecem e caem que nem tordos... o que ainda me fez rir mais, na verdade. A vida tem as suas ironias, ao menos que nos dêem para rir... No meio disto tudo e de copos sempre atestados o cansaço, mesmo depois de dormir tão bem na noite anterior apareceu para me levar, e eu fui. A cama soube-me a mil e uma noites, soube-me bem.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

[imagem @iwitchalice]

Há sítios donde só se sai pelo próprio pé.
Há sítios em que o mais difícil é sair pelo próprio pé.
Ficamos sem pé, e sabemos. 

Como ter vertigens e um abismo para aprender a voar.
Só o medo de nunca voar nos empurra.


(Hoje o despertar foi assim, com frases a colarem-se ao lado de dentro da pele ainda por acordar.)

quarta-feira, 22 de maio de 2019

[foto @nicoladavidson]

Uma mesa atravessa as discussões, é percorrida por argumentos que nem poisam os pés na travessia. Do outro lado, uma mulher feia, mas que podia ter algum encanto, como em tudo para mim, não é o cabelo palha-de-aço que a desfeia, nem o ar meio sem gosto que apresenta e que poderia passar quase despercebido, é todo um estar que não sabe ser, e não fosse a aparência de falta da vacina anti-raiva, ou um ou dois xanax matinais, poderia ter alguma graça, um sentido de humor inteligente, um discurso acutilante, uma ironia fina que sabe dizer o que quer, e como todos os feios poderia ser extremamente interessante ainda, mas não, nada disso.
Por cima da mesa olham-me como se me soubessem sem nada saber de mim, vêem-me como se tivesse tudo e não me conhecem o tempo rasgado por baixo da pele, a luz que me roubaram dos olhos os anos que me esqueci que passaram, nem as feridas que não se vêem, os golpes e remendos que trago camuflados em palavras assertivas e aparentemente nada incertas. Trago-me guardada por baixo de camadas de mim mesma que poucos conhecem. Ou vêem.
Olham para mim e pensam que tenho tudo.
Dá-me uma tremenda vontade de rir, mas não os desminto, excepto numa coisa que não tenho: pachorra para gente pequenina mas prepotente; estúpida mas com poder. 
É uma combinação que não me combina. Nem dantes, nem agora, desenganem-se. Eu não mudei.

quinta-feira, 9 de maio de 2019


Treze anos, e não são de azar, pelo contrário, ainda que me façam perder a paciência numa base diária... Está quase do meu tamanho, mas maior que eu. Mesmo que lhe veja tudo, ou quase, o que eu tenho de pior, a resposta aguçada, o temperamento algo inquieto, a doçura demasiado reservada e a franqueza demasiado dura. Alguma coisa de bom também terá herdado, espero. Espero principalmente que lhe tenha conseguido transmitir o que para mim é mais importante no carácter dum ser humano: a honestidade, a lealdade e a noção de justiça, cimentados num pensamento crítico. Só me pergunto se isto não será contraproducente para a sua felicidade. E se não é isso o mais importante de tudo. Mãe há treze anos e tenho mais perguntas que respostas. Ela merecia melhor, ainda que de mim tenha tudo o que consigo ser de melhor.

terça-feira, 7 de maio de 2019

... mas quando deixam de o conseguir, 
quando já não lhes aparam o jogo, 
é como uma ofensa, quase uma traição.
Como se os únicos que pudessem ter e impor limites fossem eles. 
Ainda que nunca os tenham em relação aos outros, 
aqueles a quem acham que podem fazer tudo e desfazer tudo.
Às vezes, deixar de ser bonzinho e aguentar tudo, não é ser mau,
é virar costas a quem nunca nos soube apreciar e dar a mão.


quinta-feira, 2 de maio de 2019


Como um paradoxo.
Há um alívio no desígnio cumprido 
que não leva o peso de o ter cumprido. 
Deixa o peso do que nos levou.

domingo, 28 de abril de 2019








O título puxou-me "Estamos focados naquilo que queremos ou no que os outros acham certo?”, é uma pergunta muito pertinente, e de repente fez-me pensar e repensar algumas coisas, talvez as expectativas sejam uma espécie de medos, também nos bloqueiam, nos condicionam, nos prendem em teias que nós mesmo tecemos.
Vale a pena ler a entrevista, apanhei isto por aí no fakebook, e não tenho alergia a livros de "auto ajuda". Haverá de tudo como na farmácia e como sempre, mas podem ser escritos por pessoas que sabem do que falam. É talvez uma espécie de noções/ferramentas de psicologia expresso (neste caso não é psicóloga, mas coach e explica a diferença), mas não têm de ser ocas por estarem generalizadamente simplificadas, depois a inteligência de cada um (aqui às vezes a porca torce o rabo, pois...) servirá para reflectir e retirar disso o que ajudar. Ou simplesmente para pensar sobre os assuntos sobre outras luzes. Não me parece que sejam receitas ou mapas do tesouro, mas também é certo que nunca cheguei a mais do que folhear algum... 
Neste caso fala-se de mudança, de insatisfação, do marasmo que uma vida se pode tornar. E eu que estou no vértice de várias mudanças, umas já decididas e concretizadas, outras para breve, gostei de ler a entrevista. Fiquei a questionar-me se também já andaria insatisfeita há muito tempo. É estranho perguntarmo-nos algo que parece que deveria ser de resposta imediata, intrinsecamente sabida e conhecida. A verdade é que mudei o que tinha de ser mudado, cumpri o que estava a sentir (como sempre fiz) e a pensar - deixei de escavar o mesmo buraco -, resta saber se isso por si só leva consigo a insatisfação e o marasmo. E se nos perdoamos não termos feito mais cedo o que havia para fazer e perceber.
O tempo tem de fazer assentar o tempo do que foi, ainda não houve tempo, mas há que abrir novas janelas e deixar que a vida entre. Outra vida. Outras vidas.

[e a vista da janela da cozinha já mudou, vejo flores novas e laranjas de cor viva. A resposta à mudança pode ser um não, mas ela acontece com ou sem a nossa  resposta ]

sábado, 27 de abril de 2019


[foto de Fan Ho]

Hoje os quarenta anos chegaram-me ao espelho, aos ossos, aos olhos pelo lado de dentro. Hoje caíram-me os anos que dizem que não tenho, que não pareço - que não são meus, se calhar. Não sei por quê hoje, talvez o dia cansativo e tão cheio de ontem, talvez todos os que me trouxeram aqui, agora, e ao depois também.
O espelho confessou-me que o amor é o único que previne o envelhecimento. Não porque deixemos de acumular anos e decepções e cansaços, mas porque deixamos de o tomar como uma ofensa. Passa a justo contrapeso de amar, de continuarmos a ser, de viver.
...será que realmente se vive sem amar?... E sem ser amado? (pergunto-me sem quase dar por isso quando as palavras me saem pelos dedos...)
Quando nos sentimos amados, há um olhar - aquele olhar, único, ou que tomamos por único - que pousa em nós e nos vê, vê-nos só a nós. Vê acima de tudo, muito abaixo da pele, vê o que somos quando já não nos parecemos connosco. Do tempo em que nos lembrávamos de ser e de ainda ir ser muita coisa, ainda ir fazer tanta coisa, e viver tudo. Vê além do tempo que embaça a pele e dela parece escorrer, e com isso faz-nos desaparecer dentro de nós, faz-nos cair para dentro de nós, onde só está quem amamos. Onde guardamos quem nos ama. É um olhar sem idade, de essências, essencial à vida, antídoto do tempo.

[a culpa deste post, a inspiração da coisa, já percebi (graças ao comentário do Cru), é da JI...não se faz JI, ficaram-me as tuas palavras a brincar por baixo da luz dos dias, muitos dias, até me trazerem os anos que não sentia, à luz... só te perdoo porque, pronto, és moça da mesma (boa) colheita do magnífico ano que nos viu nascer. e bem, vamos esperar :)]


sábado, 20 de abril de 2019

[Manuel Bandeira, 50 poemas escolhidos]

Dei-me agora conta que não dei conta que aqui há dias fez dez anos do dia em que percebi que o meu casamento estava acabado sem eu saber. Até aí ponderava apenas se estaria a ruir, a afundar-se lentamente, a perder-me aos poucos. Mas não, nesse dia percebi que já me tinha perdido, ou esse dia não me teria ficado na memória. Separámo-nos oito meses depois, mas não acho que tenha sido um nascimento prematuro, ou uma morte. Talvez apenas o reconhecimento dessa morte tenha demorado demasiado, como tantas demoram se as negarmos e nos formos deixando morrer também. O que aconteceu naquele dia fez-me perceber: tinha chegado o ponto de dizer basta. Fui honesta e disse-o, tomei a decisão e separei-me. Também me lembro da data em que saiu de casa, há datas que me ficam gravadas, é normal, suponho. E recordá-las também. O que não achei normal foi só uns dias depois me aperceber que já tinha passado aquele dia - dez anos sobre esse dia. O dia em que me caiu a ficha, o dia que me obrigou a olhar para dentro e assumir o que via. Foi também o dia em que me roubaram os dez anos seguintes. E eu deixei. Por muito pouco não chegou aos 10 anos completos, para voltar a cair a ficha, outra. Das duas vezes disse basta, não quero mais isto, cada um à sua vida - frase que ouvi muitas vezes, e desta vez, não a tendo dito exactamente assim, senti-a. Talvez seja importante sermos nós a tomar a decisão, ser uma escolha nossa fechar a porta. Enquanto não foi, a porta esteve sempre aberta se voltassem, e nestes dez anos voltaram sempre, sempre, até que a fechei. Foi preciso ser eu a fechá-la. Nunca fui atrás de ninguém, mas de cada vez que voltaram não encontraram a porta fechada, mas os braços abertos de saudades. Até que não, já não. Chega, chegou. Esta ficha demorou mais a cair, é verdade. 10 anos é muito tempo, não me ter dado logo conta desse marco talvez seja um sinal de que o tempo perdido já se perdeu. Para mim. É bom sinal.

[os nomes talvez nunca cheguem a ser como os outros, talvez tragam sempre agarrados um sorriso, ou  um esgar, não sei, o tempo sobre tudo o decidirá.]

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Resultado de imagem para elegia filme

Fim de semana de filmes, de passear por casa, de habitar o sofá, de chá e bicharada. E mesmo na despedida do fim‑de‑semana, este filme. Até uma certa parte havia um certo reconhecimento duma antiga perplexidade por perceber certa cobardia, uma incompreensão de certas perspectivas, da mentira até. Depois, a uma qualquer altura, instantes talvez, chegar a reduzir a intrincada (i)lógica de alguns homens (que se tropeçam em justificações injustificáveis e se estatelam em verdades que lhes doerão mais), a uma clareza tal que se resume a uma simplicidade que não se coabita, a simplicidade da solidão (e há-a sob tantas formas...) por medo de ser abandonado, que acaba por ser estupidez apenas, simplificando. Mais à frente, por outro lado - ou do outro lado -, aquilo que muitas vezes não parece óbvio, o medo de afinal nunca se ter sido amada, mas apenas à beleza e à juventude que diziam gostar de ver ( ou de certa forma possuir, como um qualquer antídoto do envelhecimento dele), o medo do desejo perdido com a perfeição do corpo. O medo de nunca ter deixado de ser invisível, da beleza que dizem ver impermeabilizar o ser, de nunca ter sido vista além, de não lhe ter chegado a ser alguém. De parecer tão facilmente poder ser substituída por outra beleza que surgisse, pois nada lhe era mais além de beleza e juventude - exactamente o que, afinal, apavorava o outro de medo. E fica-se a pensar nos medos cruzados de cada um, e no tanto que isso altera decisões e vidas, no tanto que nos marcam as saudades do que não se fez, por medo de depois, se calhar, ter de viver com perdê-lo - ter de sobrevivê-lo. Como se assim a certeza de o perder não fosse mais segura, palpável até, e o idílio de o viver algo eterno nunca vivido, mas a única realidade.
E quando uma pessoa trinta anos mais velha, subitamente, tem provavelmente mais vida pela frente, toda a perspectiva muda, e de repente o tempo que não se queria perder para a frente, ficou perdido para trás, irrecuperável. E assim, curiosamente, não é (aparentemente) tão assustador arriscar o tempo que resta, que sendo menos o torna aceitável... Só se fica, só se tenta, quando já não há nada a perder?
E acabo o filme a pensar como é estranho tudo isto, porque é que se aceita aproveitar, viver, quando se sabe que vai acabar, ou que já nada, ou quase, resta; e não se arrisca quando não há esse perigo no horizonte? 
O tempo... sempre o tempo (lembro-me agora e aqui do post que escrevi ontem, esta coisa do tempo toma-me muito tempo de pensamento...), a nossa perspectiva da vida é a nossa perspectiva do tempo, do tempo que temos, do tempo que já perdemos, do tempo que não poderemos aproveitar, e daquele que pensamos que nos resta... isto e todas as desculpas que usamos com o seu apelido, quando são apenas filhas bastardas da estupidez. Mas uma coisa parece-me verdade, há um tempo certo para agarrar a oportunidade, para ficar, para tentar.. Depois disso já não há tempo, mesmo que tempo não falte, falta o resto tudo que o tempo foi levando da altura certa.
[é por isso, ou melhor, por isto, que digo sempre não concordar com o que se costuma ouvir “mais vale tarde que nunca”. Não, quando, para algo, é tarde, já passou, já não vale a pena, que se refastele no nunca... o que às vezes é difícil é reconhecer quando se tornou tarde. ]

terça-feira, 26 de março de 2019


Depois de três semanas avariada, quase uma semana fechada num pavilhão a trabalhar para melhor acomodar o vírus, outra a tossi-lo como se não houvesse amanhã, depois, achar que estava melhor  e resolver ir trabalhar à tarde uns dias da semana passada, ficar muito pior e voltar a enclausurar-me, eis que parece que o vírus desistiu de mim, quatro dias após de clausura total parece que percebeu que não ia mais passear comigo e parece que se foi. A tosse quase que já foi. E é então que faço aqui este balanço, antes de ir à tarde para a labuta. Percebo que nestes dias só liguei a televisão já noite avançada e mesmo antes de resolver acobertar os ossos e dormir, o que é bom, dediquei-me a outras coisas, lembrou-me tempos antigos, onde não precisava de a ligar para não ouvir o cérebro, para não pensar muito, para deixar o tempo passar sem que me moesse. Passou e não me moeu, pelo contrário, acho que ficava bem mais uma semaninha em casa, mesmo enclausurada, bastava-me o sol na varanda, os livros, o computador e música ( que faltou nestes dias).
A doença (se for uma coisa de trazer por casa, assim ligeira, convenhamos, claro) só dá jeito para nos dar tempo se o conseguimos aproveitar, entre ataques de tosse ou afins, e eu consegui aproveitar. Nos dias que me fechei em casa acabei um livro; li poesia que tinha guardada e pesquisei mais, guardei, e adorei; por causa disso andei a passar os olhos por este blog desde os seus primórdios, comecei por procurar só poesia e acabei a ler-me sem etiqueta. Percebi que faltavam muitas etiquetas e etiquetei bastante. Perguntei-me até se faria sentido o trabalho, com as intenções e projectos que me andam a rondar as atitudes. Achei que fazia, fica tudo mais arrumado, mais fácil para eu procurar o que quiser. Surpreendi-me por gostar de me ler algumas coisas, algumas coisas parece que se safam ainda assim, e quando começo a ler, lembro-me de as escrever a todas (algumas sei até onde as escrevi e o que pensava e do que falavam atrás das letras), ainda que às vezes me custe a crer que fui eu que as escrevi, não sei onde as vou buscar, assim palavras acabadas - aparecem-me, é o que é, e é um fenómeno estranho, como se se escrevessem sozinhas e eu fosse só a mão. Comecei outro livro, escolhi-o por causa duma entrevista que li, e que fez saltar da calha dos livros por ler para o agora, um que lá tinha da Agustina. Fiz uma pequena lista de livros que quero, encomendei um por impulso, por ser um livro antigo e com história, que me apareceu no feed dum livreiro amigo, que devo receber hoje. O que eu não fiz foi escrever. Estou mesmo sem vontade, tenho já dois livros lidos (acabei o Fio da Navalha e gostei, bastante até, mas continuo a achar o Servidão Humana melhor), com páginas marcadas à espera que pegue neles e registe aqui ou noutro lado essas passagens, mas não me apetece, apetece-me ler e pensar baixinho, às vezes até conversar, mas ando com os dedos preguiçosos de me pescar fundo as letras para deixar escrito alguma coisa que me saia de dentro. Se calhar não me quero remexer no fundo, onde o depósito dorme e está assente. Se calhar estou numa de aforro, guardo tudo. Ou ando só preguiçosa e invento desculpas. É capaz de ser isso.
Hoje a deambular por aí deparei-me com esta nova versão do Ironic, que sempre gostei muito, e agora teve um upgrade ;)) até a ironia da vida tem novas versões... mas está giro e deu para rir, deixo-vos aqui.

Bom dia! 

terça-feira, 19 de março de 2019


Ontem vi um filme (é o que dá estar de molho, estou a ben-u-ron, pastilhas para a garganta, xarope, livro e filmes... tem de haver algum alado bom, né?) sobre um psicólogo que me fez lembrar algumas questões que volta e meia me põem a pensar. Milgram é o nome do psicólogo, e dedicou-se ao estudo do ser humano como ser social, ou seja a influência da sociedade - ou melhor ainda -, do grupo, no indivíduo, e nesta perspectiva o poder da autoridade e da obediência. Através duma experiência chegou à conclusão que 65% dos indivíduos aceitaram inflingir choques (supostamente, ninguém estava a ser sujeito a choques eléctricos, mas os indivíduos da experiência não sabiam) noutra pessoa porque lhes era dito que a experiência era assim, e que a responsabilidade, caso algo corresse mal, não seria deles. E com esta informação as pessoas (65% delas) continuavam a inflingir choques de voltagem crescente até atingir os 450 volts (voltagem que lhes era no início informado de que era perigosa), de forma consciente, ainda que visivelmente a contragosto, mas continuando a obedecer às regras duma experiência voluntária. Ou seja, não eram patrões, nem superiores, nem havia efectivamente nada que os obrigasse, a não ser repetirem-lhes que eram as regras da experiência e que eles não seriam responsabilizados. Só 35% das pessoas recusaram tais regras, levantaram-se e negaram-se a continuar a submeter choques a outro indivíduo, sem qualquer custo, risco ou castigo.
Quando pensamos nisto à luz do Holocausto muito é explicado - aliás Milgram é judeu e a escolha do seu tema fulcral de investigação não é alheio ao que se passou na II Guerra. Também já Hannah Arendt falava na banalidade do mal, mas ali, ali vemos gente como toda a gentes sem qualquer tipo de coerção ou risco, fazer a uma escala menor o que foi perpetrado durante a guerra a milhões. E, como se leva a concluir, basicamente com as mesmas justificações. Afinal cumpriam ordens, obedeciam a uma autoridade, até poderiam ser castigados caso não o fizessem (o que na experiência não acontecia). Na verdade nós deixamos de lado a moral e até o que pensamos e os princípios que seguimos face a algo que se apresente como autoridade, e como normalidade, como regra. E isto é tremendo. Onde fica a nossa cabeça? onde é que pensamos por nós? Onde é que deixamos de seguir os outros porque é suposto, porque é a norma vigente, ou porque representam autoridade, ou simplesmente porque "é a lei"? 
Se algumas vezes dei comigo a pensar algumas destas coisas, verdade seja dita, não tanto relativamente ao holocausto, ainda que não saiba dizer porquê, talvez porque todo o mundo, à excepção dos nazistas, concordava que era uma atrocidade. Ser contra não era ter de ir contra nada, era estar de um dos lados. Ser contra e ir contra tudo só sendo militar alemão e negar-se, opor-se, lutar contra, dizer "eu não faço". Mas recorrentemente penso, se tivesse vivido na época da escravatura, o que pensaria eu? Quando ainda não se falava ou pensava em abolir a escravatura, como veria eu a questão? Como pensaria eu, com tudo o que me rodearia na altura? Teria coragem de pensar por mim? E pensaria bem? 
Como será que eu teria reagido à experiência? tinha ido até ao fim ou tinha-me recusado a continuar a certo ponto? 
Sei que não sou cobarde ao ponto de culpar tudo e mais o que apareça por não conseguir o que quero, ou não fazer pelo que quero, não invento mil razões que me desresponsabilizem, não digo que fiz mal ou que deixei de fazer isto ou aquilo por causa do outro, ou porque a vida foi contra e eu nem tentei, isso acho que não faço, não me desresponsabilizo inventando desculpas, justificações para as minhas fraquezas. Mas quem serei eu na verdade numa questão destas? O que faria eu? O que pensaria eu? O que defenderia?
Só a mim é que inquietam estas questões?
Estaria eu nos 35%?