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quarta-feira, 7 de agosto de 2019



Um chapéu fechado 
guarda o sol que abrirá amanhã

Uma cama com lençóis de clara brisa 
onde me deito com a escuridão 
e acendo todos os segredos que apaguei

Uma rede onde o olhar se balança  
nas estrelas que não caem, que ficam.
as que caem soltam-me sonhos no regaço 
que não caem, nem ficam.

A lua escuta a noite comigo 
e manda calar-me os gritos de silêncio

domingo, 21 de julho de 2019

[foto @la.melancolique]

Sentados no murete em frente à tela.
Vinte centimetros entre nós. E eu tive vontade de menos, não sei porquê. Apeteceu-me proximidade, talvez até que me tocasses. Talvez. E no entanto há sempre o medo, o medo de me arrepender, de, se, ou quando, me tocares, eu não esteja lá, não como estive tanto tempo por quem não mereceu. Não te chegaste e eu não me mexi. Rimo-nos, falámos e estivemos, com vinte centímetros de permeio. A medida de alguma coisa, ou de coisa nenhuma.

sexta-feira, 28 de junho de 2019


Não sei se a porta estava aberta ou se ma abriram. A casa era antiga, os tectos altos, havia uma sensação de imponência aligeirada. A casa não estava vazia, mas não se viam móveis. A luz entrava alta e permanecia. Entrei num salão de paredes amarelo muito claro mas envelhecido, gasto. É então que me fala, pergunta-me pelo irmão e eu não sei, digo que não sei dele, nem quero. Há um porquê  interrogado no sorriso que lhe cobre os dentes, e talvez por isso lhe diga, sem responder, que saí de onde já não queria estar, que estou bem e ele, tenho a certeza que também. Ouve-me como quem procura com os dedos e de olhos fechados, os interstícios de silêncios entre palavras. Olhei-o para o descobrir absorto em mim, imediatamente antes de haver na sua boca um trejeito (sorri, talvez seja coisa de família, sussurra-me a memória) de ironia, ou de sabedoria oculta e misteriosa, que eu fingi não ver enquanto me virei para as grandes portas brancas, descascadas pelos serões passados, que davam para para o que pensava ser uma varanda, mas não, era um alpendre virado para o jardim decadente, amolecido, escuro. Levantou-se um vento que soprava ruídos e restos de passados no ar. Levantava o que estava no chão e derrubava árvores grandes mas ocas, como cascas em pé. Em pé de vento. E eu não percebia nada, a ventania soprada do vazio - assusta-me o vento como poucas coisas. Tento voltar para trás mas já não há portas, e de repente reparo no tecto, almofadado com o vento a brincar entre a tinta descolada e o esqueleto da casa. E fiquei encantada sem saber porquê. Era bonito sem ter porquê, percebi que gostava de olhar o efeito sem o descortinar por completo. Talvez haja alguma beleza magnética na decadência, nas ruínas, nos destroços do que já foi esplendoroso, ou pareceu. Não sei. O vento desapareceu e ele voltou, meio torto, meio coxo, nem consegui perceber, mas percebia-se que tinha sido um homem lindo, com altura e porte, ossatura da face bem definida, olhos magnéticos. Deveria ter tido aquele ar de quem caminhava sabendo o que queria, ou pelo menos, aparentá-lo, e agora estava ali, a guardar uma casa que não sentia vazia, mas sem mobília onde se possa viver. Agora tudo isso estava demasiado descoberto, não tinha caminho, mas tinha ainda uma beleza qualquer guardada, muda, mas familiar, como se o conhecesse de outras camadas. Chegou e abraçou-me disse-me qualquer coisa de eu não ter perdido o calor. Abraçou-me e uma paz cheia invadiu-me. Não percebi. O despertador, demasiado madrugador, também não. Deixei o sonho onde estava, vim-me embora, mas o abraço durou-me até agora. Até agora, só.

domingo, 23 de junho de 2019




Às vezes ainda sinto o abraço como se estivesse lá dentro. Quase sinto o calor, os braços à minha volta, aquela força que é segurança boa, a cabeça encostada ao peito onde quis fazer casa, o cheiro da pele, a tranquilidade de estar no momento, ser tanto o momento que é como se toda a vida fosse minha. Como se o tempo acabasse ali, e começasse. E, afinal, não houvesse essa coisa a que chamam tempo, que traça fronteiras e faz contas, até cobra taxas. Às vezes parece que quase sinto debaixo do nariz a pele que afinal nunca teve o cheiro que lhe dei. Dizem que há coisas de pele, de cheiro, de química, de paixão. E que têm um tempo. Há momentos sem tempo, isso eu sei. Ficam nas fotografias que tiramos sem máquina, e que as que tiramos com máquina, tempos depois, nos lembram e nos roubam por nada nos tirarem, pelo contrário, quais tiranas, amarram-nos ao tempo aprisionado no tempo que passa.
Talvez as coisas tenham um tempo, sim. E talvez esse tempo acabe.
Para eles ainda não acabou. E eu acho lindo. Nada dessa beleza se me amargou. E quero. Quero o abraço pelo lado de dentro, não quero quase memória. Não quero quases. Quase nunca. Quase sempre... quase.
Os pensamentos trespassam-me, mas o comboio não pára. Só as palavras encontram apeadeiro, quase perdidas, recupero-as no último relance duma fotografia que podia ser minha, se a minha vida tivesse sido real.

sábado, 1 de junho de 2019

Das coisas que mais gosto na minha casa é ter um pôr-do-sol só dela, só nosso. Não, não é a fita de cor a deitar-se sobre o horizonte, não é a paisagem que todos da zona verão a mesma, é como tudo isso nos invade o olhar de fim de tarde ao som do chilrear que corre os céus dum lado para o outro e deixa a cadela maluca, é a delicadeza de como as cores entram em casa sem licença e se colam às paredes da sala como se fossem de cá. Como se finalmente chegassem a casa, e então pudessem descansar do dia, fechando devagar os olhos.
Das coisas que mais gosto na minha casa é ela saber coisas só minhas. Ter maluquices só nossas.


Sinto que não me sentes.
Não te sinto.
E o que mais sinto,
é esse não sentir
teu, que é meu.

E nele aconchegada,
aninho-me,
sonho sozinha.


quinta-feira, 30 de maio de 2019

[ foto @stevemccurryofficial, modificado para preto&branco]

Aquela maneira que ela tinha de se apoiar na própria sombra. De fechar os olhos embalada pela respiração da terra, como sua, como o balançar do colo duma mãe que ela já não lembra. De rir com o canto dos olhos e pelas rugas traquinas do nariz empinado. De comer os doces com as mãos que os faziam. De amar sem mãos, nos silêncios das distâncias nunca ausentes. De falar como se todas as histórias fossem contos rematados de alma. Mesmo quando são de encantar, ou principalmente essas, que a vida tem sempre como desencantar de vida. De realidade.

(.... e como está a vida encantada de noite, agora na minha varanda. como se está bem, e a noite quente, deitada aqui. )

quinta-feira, 16 de maio de 2019

[foto via @bnwsouls]


É como se tivesses morrido.
Com a diferença de ter sido eu a matar-te. Em mim, para mim, por mim. 
Um luto em legítima defesa pela sobrevivência dum futuro
que ainda quero apanhar, espremer com mãos, pele e boca de amor - viver.
Tempo que mataste durante demasiado tempo. 
Que luto para que não tenha morrido contigo. Comigo.


quarta-feira, 15 de maio de 2019





... se não festejarmos a vida sem razão alguma, 
nunca saberemos festejá-la cheios de razões.

[dou por mim a pensar que talvez o segredo esteja em escolher o que temos, 
mais do que ter o que escolheríamos... 
mas que há uma parte importante que é também escolher algo por que lutar, 
algo que se queira com a força do que vem de dentro, com alma, com a crença numa felicidade por que nos queremos bater. 
Às vezes a felicidade também passa por batermo-nos por alguma coisa, por acreditar em algo, por nos arriscarmos, sabendo que podemos perder o que nunca chegámos a ter, 
deixando cair sonhos entre as passadas do caminho que vamos trilhando, 
mas, sabendo que escolheríamos sempre o que temos, o que não nos falha,
o que nos permite ir semeando sonhos perdidos pelo caminho e levantarmo-nos com a possibilidade de um sorriso, que são as mãos que temos na nossa. Sempre. E os dias que ainda não vivemos, mas são nossos. Ainda.]



quinta-feira, 9 de maio de 2019

[Jorge Roque, in Nu Contra Nu]

Tudo e nada.
Não esperar nada e saber que tudo pode acontecer.
O bom, o pior mal, e até o que nem se dá conta que já foi.

Talvez continue à espera de esperar alguma coisa
Dizem-me que isso ainda é esperar
Mas esperar o quê?

A esperança?
que veio no comboio das  nove
que não partiu?

Há vezes que parece que a alma volta a ter a forma do corpo.
Não sobra, nem transborda.
Está justamente medida em si, em mim.

Pareço, em pequenas gotas de tempo que escorrem dias, anos, outras vidas inteiras, voltar a sentir a alma cheia, onde o vazio já não é tanto ausência, mas o espaço que guarda o futuro, o porvir,
talvez uma réstia de esperança por ocupar no tempo. Talvez.

Talvez não seja nada
Pode ser tudo

O comboio não partiu
Mas partirá?


segunda-feira, 29 de abril de 2019

O caos não a deixa parar, 
ou ela não pára com medo de perder o equilíbrio e cair. 
de cair em si, sem ter o que a ampare.
exorciza o caos na pele transpirada de movimentos 
que a trazem à tona da luz
 ainda que ninguém regresse do caos 
sem um passado de chumbo com pé no futuro. 
...e nos interstícios do caos o silêncio dá-lhe música.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

[foto @bird.ee]

E quando a vida nos despoja de nós mesmos? Quando toda a dor e todo o sofrimento nos fazem abrir mão de tudo, quando deixamos de ter força para fechar as mãos connosco dentro - aguentando-nos enquanto podemos e temos de aguentar, e depois deixamos ir tudo porque achamos que já ninguém precisa de nós? Que somos um estorvo que não queremos ser, quando já não queremos ser nada? Quando nos falam de coisas que foram conversadas, ontem, a semana passada ou há vinte minutos, que foram ditas, que percebemos que quem nos fala sabe do que fala, e em nós apenas se abre um  imenso buraco negro... de vazio e confusão e vergonha? Não fazemos ideia do que falam, estamos perdidos, sem caminhos. Quando de repente acordamos longe de tudo ou de nada, fora de nós, e não sabemos onde estamos. Todas as ruas levam a um qualquer desconhecido e não sabemos qual a direcção para vir à tona, para nos regressarmos, para nos voltarmos a ser e a sentir, para encontrarmos o caminho para casa? Donde cada vez menos queremos sair? Lá ainda não nos perdemos.
Como fazemos quando a vida despoja a vida em vida das pessoas que amamos? Como fazemos? Como dizemos que percebemos tudo, que percebemos o medo, o pânico, a vergonha até, no buraco negro que se desenha no rosto quando se cai no desconhecido que devia ser conhecido, mas que queremos só que tenha vontade de melhorar, de viver? Que sabemos que esta vida se agarra a quem nos agarra a ela? Que a vida não é obrigação de cumprir tempo, nem o tempo nos liberta dela - a vida é o tempo. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

[foto @paeulini, modificada para p&b]

Estou estranhamente triste, uma tristeza seca, uma solidão de antípodas. Só tenho vontade de fugir de tudo, de ir para longe de tudo. E no entanto, é quando a solidão nos afoga de dias, que já estamos nesse sítio onde tudo nos é distante, em que todos os fios que nos fazem mundo já se desfizeram. Pairamos sozinhos no vazio, pesados como cada dia que nos afunda. Queremos fugir, mas já estamos tão longe donde alguma vez nos sentimos perto. De algo, de alguém. E no fundo talvez só se queira fugir disto, desta distância, desta segunda pele que nos fecha a alma. esta solidão que não deixa a alma respirar. Cada respiração é uma troca. E a alma tenho-a vedada, asfixiada. Quero fugir de tudo para onde me sinta. Se ainda for um dia possível voltar a sentir, a sentir-me. Trocar impressões de alma, respirar proximidade, sentir intimidade de pele - até pelo seu avesso.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Os olhos ardem e a cabeça estala como se não me coubesse, acabo por adormecer no sofá por volta da meia noite, sem dar por isso, mudo de poiso e não há maneira de poisar. Desacordada mas sem dormir dou voltas ao que não sei dar a volta, não consigo, desisto. E queria tanto desistir, de tudo, sem me saber desistir de nada, sem pensar. A cabeça, essa martela-me por dentro, outra vez, não me cabe, não lhe caibo, uma de nós está mal e tem de se mudar. Está tudo mudado e eu na mesma, e a cabeça.
Fumo mais um cigarro conto os carros que ainda passam para não pensar no que não sei como será. Para não pensar que não sei, e pensar como se soubesse, enganando-me, não o pensando. Nunca nos conseguimos enganar. É como jogar xadrez contra nós.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

[foto via @bnwsouls]

A noite absorve os gestos, os casacões esbatem os movimentos de quem passa - são vultos sem gente. Caímos nas garras da noite, onde todos os gatos são pardos. Gatos que dizem cair sempre de pé, e que morrem seis vezes antes da morte derradeira... e nunca por queda, por que será então? Se há isso do amor duma vida, eles terão sete, se calhar vem daí terem de saber cair sempre de pé, e se não morrem da queda, talvez morram de amor(es), afinal. Sete vidas, sete amores, sete mares para navegar sete dias de cada vez, com sete noites para confundirem quem os vê passar. Vi agora, enquanto fumava o último cigarro, um a atravessar a rua aqui em frente, não sei se estava de volta para cá ou de regresso para lá, nem qual vida caminhava.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018


Do que eu tenho mesmo saudades, do que sinto mais falta, de quando eu era viva, é da vontade. Aquela vontade inteira e premente, urgente e permanente de alguém que queremos e iremos ter. Uma vontade que se acalenta devagar, até o poder encostar à parede e fazer-me engolir-me inteira pela boca dele. Ter-me inteira pelas mãos dele, pela pele, pela boca, e assim saber-me de cada canto que sou, sentindo-o, vibrando. Deixar a vontade correr a rédea solta, matando a fome de sede, enganando a sede com mais fome - que assim nenhuma nos mata, e nenhuma nunca se sacia, nos sacia, de nós, da vida, da vontade. Da vontade que corre nas veias, que é motor do coração, que o faz bater e ser, sem tempo, sem conjugação, sem passado e sem futuro, sempre, no infinito do agora que é presente de vida. 
O que me faz falta é uma vontade assim para acalentar, vontade para respirar e viver até tudo sucumbir à minha volta e o mundo se desmoronar na inexistência do que não é feito dessa vontade, desse querer, desse ter daqui a pouco esse muito, esse tudo que se consome todo sem cerimónia e não se gasta, porque a fome não se mata de sede, e a sede de fome não se engana com dias cinzentos, bebe-se da pele com pele. 
As paredes estão vazias. Deram-me como morta. 
O que sinto falta de quando eu era viva é da vontade de querer viver, que não cabendo em mim, era a minha medida perfeita. Vontade de respirar sem estar ligada à máquina duma vida mecânica, respirar por obrigação e não por convicção. Não ter por que respirar agora, se daqui a pouco não vou perder o fôlego nem descompassar o doido do coração a galope doutro coração.
Do que eu tenho mesmo saudades, do que sinto mais falta, de quando eu era viva, é de me sentir viva, sentir como se a vida valesse a pena - essa maluca impossibilidade, fé dos loucos.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

[foto de Bernhard Luettmer]
Vim no comboio em contramão, de frente para a origem que me vai fugindo dos olhos e de costas para o destino. Percebi que há pessoas assim também na vida - eu. Vejo primeiro passar a imagem que já passou, em vez de ver a imagem que me irá passar - vejo depois o antes e não antes o que depois será. Ponho o olhar no que foi, o que me deixou, o que deixei, e não no que me espera, o que espero. Vejo afastar-se de onde venho, de costas voltadas para onde vou. 
Difícil seria chegar se não tivesse embarcado no destino certo. Vim no comboio certo, cheguei. 
Onde consultamos as linhas e os horários da vida?

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

[foto de Mikael Sundberg]

Há tempestades que nos extinguem. Primeiro o fogo, depois a vida. Duram demais duras demais, sobrevivem à vida que nasceu connosco, mas que morre antes de nós. Uma só gota transborda o copo. A voz de certas palavras como que, outra vez, nos puxa pelos colarinhos, arrasta-nos além do limiar da sobrevivência funcional. Deixamos de funcionar. Quebram-nos a ilusão duma possibilidade mecânica de realidade, onde nos movemos disfarçando normalidades que não nos cabem. Não funcionamos, o botão não liga, não obedecemos aos comandos, desligaram-se os fios que nos desligavam de nós, que nos mantinham distantes dos sítios onde nos sentimos - onde se sente a dor e a felicidade. 
"Tens de fazer pela vida"... e os fios desligam-se. 
Há anos - já lhes perdi a conta - que faço pela vida, por a continuar a manter, por acordar, por me forçar a funcionar, trabalhar e pagar as minhas contas. Por não me entregar à falta que me faz a vida. Mas não chega, tenho de fazer mais pela vida pelos vistos, é pouco. E tenho de concordar, porque vida isto não é. E as palavras, com voz e mote próprio voltam sempre, e sempre sem licença, vão tocando em pontos que vão doendo. Somos atirados para o abismo da solidão profunda, aquela que não se escolhe, mas se quer -  cada vez mais -, onde o silêncio é bálsamo, é a armadura que nos defende, que nos protege de nos tocarem por dentro das feridas e nos rasgarem os finos fios que nos prendem às rodas do mundo. Aquela frase, não sei porquê (ou talvez sim) trouxe-me a história do burro, que quando finalmente estava habituado à fome, a lidar bem com não ter o que o alimentasse... curiosamente, morreu. De fome.
O copo transbordou. Abri mão, algo se partiu em mim, menos a vontade de partir. Tudo se inunda de água. E ninguém para apanhar os cacos.

domingo, 18 de novembro de 2018

[foto @ranbeneli]

Como lutar essa luta do luto pela vida que nos morreu? 
... nós somos tanto as nossas perdas, como as mastigamos, como as engolimos ou cuspimos.
Como nos levantamos, e o tempo em que, derrubados e arrasados, nem nos mexemos, esperamos só. Ou desesperamos.
Ou desesperados, esperamos forças como chuva.
Nós somos tanto, mas tanto, do que já perdemos, do que já não temos, e já não somos.
Do que nos fica do que nos foi levado, do que está perdido, mas guardado nas sombras do nosso olhar sobre tudo.
E como vivemos depois de tudo, como respiramos, sabendo que é tão pouco viver. Como nos mentimos e enganamos, enfeitiçamos com sorrisos a esperança para a trazermos no bolso do avesso dos dias, como quem doira a pílula que nos agoniza.
Como acordamos sabendo que este tempo não é nosso, como se o nosso tempo tivesse morrido noutra vida.


[talvez seja do tempo, deste que vejo do lado de fora das janelas mas onde pareço afundar-me como se fôssemos um só, talvez seja da chuva pequenina a pedir lareira para crescerem rios em nós, que lavem e alimentem a terra dos frutos por vir, ou talvez seja só o cansaço cansado de ser, ou talvez nada, não sei, mas este tempo caiu-me assim em palavras. Ou saiu-me. E a papoila, que gosto tanto - selvagem, duma fragilidade cheia de força, de sobrevivência que agarra a terra, é como uma beleza, mas triste - tão ao jeito das coisas que se ajeitam tão bem no por dentro de mim... e ao escrever isto acabo de me lembrar que sonhei que tinha tido outra filha... e com ela nos braços, acabada de ser, assim pequenina, com um calor imenso e doce, eu estava, ao mesmo tempo, apavorada, porque não sabia que nome lhe dar, não sabia o que lhe chamar. Não tinha nome para ela, como se fosse uma existência em branco que me criava pânico. Como se não soubesse quem ela era, mesmo sendo minha, talvez mais minha  ainda por isso. Lembrei-me por causa da papoila, mas não sei porquê. Coisas doidas como eu...]

sábado, 10 de novembro de 2018

[foto @yilmaz_photography]

E no meio dum cinzento como os outros, as mãos tropeçam num qualquer gesto de sempre, param, caem da superfície do estar, os olhos fecham-se, mergulham por trás do que foi, o olhar acorda para o adormecido, e sem razão que se destrince a alma chove pela pele, e as mãos, essas, sem tropeços, apagam a alma da pele, num gesto que atravessa do ser ao estar. Sem tropeços. E voltamos à superfície dum cinzento feito cimento de quotidiano.