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quarta-feira, 7 de agosto de 2019


... quanto vale a “doçurazinha de carneiro”?... e de que é feita? Tão depressa a doçura deslaça e se aponta o dedo acusador, como se passa rapidamente para o outro lado do dedo. E vice-versa. Juízes neste mundo há muitos, não podemos julgá-los mas não nos podemos deixar julgar por eles, ou não por qualquer um. As leis divinas regem o céu, na terra as divindades escasseiam tanto como a justiça, a coerência ou a razão. Já a ironia abunda e abusa onde há vaidade de sobra. 

[o livro é diferente do que pensava, muito diferente, já há várias páginas marcadas, estou a gostar e quase a acabar...]

domingo, 14 de julho de 2019

Agustina Bessa-Luis, in Antes do Degelo 

Há coisas tão particulares e imensas que as palavras não cabem. Não há diálogo possível, nada consegue, ou pode, ser dito, depois de tudo que ficou por dizer no que foi dito, e desdito.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

"Um sol branco e desapaixonado brilhou lá no alto, no céu. Na altura, desejei afiar-me nele até me tornar santa e esguia como a lâmina duma faca."

Sylvia Plath, in A Campânula de Vidro

Comprei este livro na Feira do livro em Lisboa, quando lá passei durante o ano passado, vi-o e não hesitei, tinha há muito curiosidade pelo livro, e curiosamente, algum receio. Sabia pelo que havia lido que era autobiográfico e pelo que sei da vida dela, seria por isso um livro, não só pesado e denso, mas com muitas probabilidades de me tocarem de formas e em sítios que prefiro deixar quietos não desbravar. Quando comecei a lê-lo surpreendeu-me, era leve, fácil, corrido. A única página que foi dobrada foi aquela onde esta frase estava, porque li-a e vi, transparente, o suicídio onde ele, na história, ainda não se apresentava. Mas li, claro como água, expresso duma forma extraordinária, que descreve tão bem, tão nitidamente, uma dor que não deixa respirar, como um punhal de lâmina fina na alma da carne, o mesmo que matará o inferno de não conseguir, nem querer viver, assim.
O livro parece, de repente, mais à frente, descambar por completo, sem que consigamos identificar exactamente o porquê (ou eu não consegui, isto é)  o que aconteceu, para de repente, duma vida assente numa relativa normalidade, se cai num carrossel onde é o suicídio - ou a ideia dele - a única força motora. Fiquei a pensar se a vida será assim, tudo normal até um ponto, a partir do qual tudo se precipita num abismo que não sabemos navegar, nem queremos. A falta de vontade de tudo, a falta de um objectivo ou sentido para o que quer que seja, a necessidade de não se querer sentir mais o que se sente - ou de não se querer sentir mais, ponto. O que me impressionou foi esta clivagem, como se aparentemente não tivesse sido um processo, como se tivesse havido ali uma disrupção que alterou e impossibilitou o status quo, o ir levando. E esta frase, no entanto, mostrava já que algo latente se cozinhava no dia-a-dia que se pretendia normal e suportável, que se fazia normal, que se disfarçava sem se saber que se estava a disfarçar, que doía sem ainda se saber como ou porquê, onde de repente e sem aviso, parece que se vive o mundo dentro duma campânula de vidro que não vimos crescer à nossa volta, e que nos isola de tudo, que não deixa respirar o mundo, ser como as outras pessoas.

domingo, 20 de janeiro de 2019

“(...)’Que importância tem o cérebro’, disse Lady Rosseter, levantando-se, ‘comparado com o coração?’
‘Também vou’, disse Peter, mas deixou-se ficar sentado mais um pouco. Que terror é este? que exaltação é esta? pensou ele para consigo mesmo. O que é isto, que me enche de uma incrível emoção?
É Clarissa, disse ele.
Pois ela estava ali. “

Virgínia Wolf, in Mrs Dalloway

E fecha-se o livro com uma sensação de vazio, em que tudo está dito mas nada se desenrolou. Ou talvez sim. Porque há coisas que vão além da explicação, da razão, da acção. Como este simples facto: não somos donos de nós mesmos, podemos, quanto muito, comandar o cérebro - e nem sempre, e nem sempre é fácil - discernir a razão, ou até perdê-la, endoidecermos. Talvez haja loucuras por deixar o coração ao volante da vida, ou porque a razão deixou de servir para explicar o inconcebível.
Mas a verdade é que o que nos controla nós não controlamos, não somos sequer fomos de nós mesmos. Como se habitássemos algo ferido de vontade própria, que somos nós, o mais profundo de nós, mas que não somos ou não sabemos ser.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Costumo ir pondo numa prateleira, por ordem os livros que vou lendo durante o ano. Esta é a prateleira de 2018. Ou foi. Depois arrumo-os por outra ordem, ainda que deixá-los assim por cronologia de leitura, ocorre-me agora, seria também uma organização gira, com outro significado, onde poderia identificar a altura da vida em que os tinha lido. Talvez não fosse tão fácil para procurar depois um qualquer livro... mas era uma ideia gira que do agora me lembrei, ao escrever isto, mas de qualquer forma este foi o meu ano em livros, falta aqui o que pernoitou para 2019 em fase de leitura: Mrs Dalloway.
Tenho por hábito copiar as passagens dos livros que vou lendo e me fazer parar para pensar para os blogues que vou tendo. Gosto de, de vez em quando, procurá-los, relê-los, outras vezes lembro-me dum qualquer trecho sem quê nem para quê, e sei que escrevi alguma coisa sobre isso e vou ler. É a forma de registo do que me marcou, ou do que gostei, ou do que me fez questionar. Afinal, como tudo o que vou deixando por aqui. E percebo que este ano foram poucos os excertos que copiei para aqui, e que de todos aqueles livros, olho e vejo uns quatro... o Jorge de Sena, o Kundera, o Sándor Marai e o Casmurro. Só depois me ocorrem o Benedetti, de que tanto gosto da escrita e poesia, o diferente Cortazar em oito contos e a Clarice que fez estranhar tanto este livro, e talvez por isso me tenha também marcado mas não me ocorra entre os que mais gostei. Olho e vejo um livro que gostei de ler, escrito por médicos ( uma iniciativa privada e que um amigo do meio me ofereceu por saber que gosto de ler), cada um uma história de um transplante, uma vida que permitiu outra vida de continuar, gostei da humanidade dos relatos e de ficar a perceber mais alguma coisa do que será o processo de um transplante e o modo como as equipas e médicos vivem também estes dramas. 
 Percebo pelos bocadinhos de livros que aqui fui deixando os que gostei mais e acho que este ano gostei (realmente) se calhar de poucos. Pode ser que este ano mude... na prateleira de livros na calha para ler estão uns tantos de boas expectativas e curiosidade de ler. Por enquanto ainda não acabei o da Virgínia Wolf e sendo o primeiro dela que leio não me está a arrebatar, mas há coisas (algumas, só algumas) que vêm com a convivência, que crescem em nós, que elas mesmo crescem e nos conquistam, por isso, quem sabe pode ser o caso. Ou outros casos. Às vezes gostava que isso acontecesse mais vezes e com muito mais coisas.
Bom dia!

sábado, 5 de janeiro de 2019

“A vantagem de envelhecermos, pensava Peter Walsh, saindo de Regent’s Park, com o chapéu na mão, era simplesmente esta: que as paixões permaneciam tão fortes como sempre, mas nós adquiríamos - por fim! - esse poder que transmite à vida o seu supremo sabor - a capacidade de nos apoderarmos da experiência e rodá-la, devagar, diante da luz.
Era terrível confessa-lo (tinha voltado a pôr o chapéu), mas agora, aos cinquenta e três anos, já quase dispensamos as pessoas. A própria vida, cada momento seu, cada gota, aqui, neste instante, agora, ao sol de Regent’s Park, era o suficiente. Demasiado, até. Uma vida inteira era demasiado curta, agora que alcançamos esse poder, para dela retirarmos o pleno sabor, para dela extrairmos cada grama de prazer, cada cambiante de sentido; agora, que prazer e sentido se tornavam muito mais sólidos, e mais impessoais, do que haviam sido até então. Era impossível que ele voltasse a sofrer como Clarissa o tinha feito sofrer.”

Virgínia Wolf, in Mrs. Dalloway

Rodarmos a experiência nas nossas mãos - como algo nosso, mas que cabe fora de nós o suficiente para a rodar à luz, para lhe ver as rugas, os defeitos e as intemporalidades perfeitas. Para, apesar disso, o relativizar no tempo, e do tempo. Para com isso todo o tempo saber melhor, saborear-se melhor, ser tempo melhor. Quase não precisar de pessoas - para isso, para ir ao tutano de cada instante. Para isso ser suficiente, para parecer até demasiado, às vezes; para sabermos como não voltar a sofrer como já sofremos, para sabermos segurar cada experiência nas mãos com um olhar honesto mas acutilante, justo mas egoista, que temos sem o esforço de o procurar... para uma alma bastar e ser a nossa, inteira. Queria isto tudo, mas antes dos cinquenta três se faz favor... se bem que se essa for a idade para os homens, pode ser que haja esperança... dizem que as mulheres costumam entender a vida mais rápido que os homens. Se calhar. Nao sei. Sei que esta clarividência me dava um jeitão na prática da vida. Só vos digo. E se lhe reconheço os contornos, falta-me segurá-la nas mãos. Ou a luz.

(mas na verdade, agora que penso nisto, depois de escrever o que escrevi, o que eu gostaria era da oportunidade de poder vir a ser tão magoada como já fui. só da possibilidade disso, obviamente. porque então estaria intacta a minha capacidade de entrega e de amar. de sofrer também. só se aprende a não sofrer demais depois de ter sofrido demasiado)

domingo, 23 de setembro de 2018

“Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; 
tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.”

Machado de Assis, in Dom Casmurro 

Há gente assim, tanta, cheia de grandes orgias, lábia e lata, ou erudição e conhecimentos, mas tão virgem no amar. Nas pessoas, homens e mulheres, no darem-se, no entregar o que se é. No simplesmente ser e viver.
As pessoas que só sabem foder acabam fodidas. Normalmente com a vida, com elas, com tudo. A dúvida é se as que sabem, e querem, amar, acabam amadas. Gostava de acreditar que sim. Gostava.

[acabei com o Casmurro, venha o próximo]

“Assim, apanhados pela mãe, éramos dois e contrários, 
ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio”

Machado de Assis, in Dom Casmurro

Há quem use as palavras, as frases, até os factos, para não dizer nada, para esconder debaixo de tudo, e cada coisa, a verdade; e há quem diga tudo, se revele, se confesse, se traia até, calando todas as palavras, na vã esperança de o silêncio nada dizer.

sábado, 22 de setembro de 2018


“- Há letras inúteis e letras dispensáveis - dizia ele. - Que serviço diverso prestam o “d” e o “t” ? Têm quase o mesmo som. (...) Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo ofício; 4 é 4, e 7 é 7. E admite a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se exprime por 11. Agora dobre 11 e terá 22; multiplique por igual número, dá 484, e assim por diante. Mas onde a perfeição é maior é no emprego do zero. O valor do zero é, em si mesmo, nada; mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. Um 5 sozinho é um 5; ponha-lhe dois 00, é 500”

Machado de Assis, in Dom Casmurro

Às vezes coisas sem grande nexo ou sentido aparente, entram na minha cabeça de outra maneira, como se atrás do que não diz nada se dissesse alguma coisa, alguma coisa tão clara que se deveria ver. Mas nem sempre vê. Nem sempre vemos o que temos à frente, ou ao lado. Podemos olhar, ou ler, mas ver mesmo, nem sempre vemos. 
Não sei se vi todas as pessoas que por mim passaram, vi algumas, sei que poucas ou nenhuma me viram. 
Mas o que fiquei a pensar, e  me fez fechar o livro, é como é triste viver (ou apenas conviver, ou até só trabalhar) com alguém que nos vê como zero, e não perceber que ao lado de quem (realmente) valha alguma coisa, juntos, se podia valer tanto, ser tanto... é que olharem e verem um zero é nada, mas verem o quanto juntos se pode ser, é também acharem-se no outro. Valerem com o outro num ganho que só fazem juntos.
Há muita gente a achar-se um zero porque são tratadas como valendo nada, um dia percebem que podem servir (ou que têm servido sem perceber) para aumentar os outros, e quando crescem só o aceitam se forem vistos como par. Não como ferramenta ou utilidade.

O zero pode ser nada, mas pode ser aquele pequeno nada que torna um num milhão.

[e agora vou ali ao rio refrescar a alma que o sol ferve no corpo... adorei aquele spot. Não gosto de repetir sítios onde fiquei, mas este sou capaz de um dia abrir uma excepção...]

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Milan Kundera, A Brincadeira
Parece, às vezes, para algumas pessoas, que apesar de tudo hão-de ser compreendidas e por isso perdoadas. E muitas vezes assim é, mas não sempre, não para sempre. E muitas dessas vezes estas pessoas não tentam compreender quem querem que os compreenda, como se só eles existissem ou importassem ou sentissem. Um dia, que às vezes chega, as pessoas que sempre tentam compreender e perdoar tudo, mudam de morada. Outras vezes fingem não saber ou perdoar porque não sabem mudar, e perdoar ou fingir é só um evitar tomar consciência que existem abaixo da linha de água do viver. Debaixo de uma mão, de que não se libertam,  que os empurra e mantém lá.
A Brincadeira acabou.
Venha o próximo.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018


“(...) concupiscência e ternura, dor e gosto furioso de viver, fome violenta de vulgaridade bem como de carinho, sede de um segundo de prazer, bem como de eterna posse.”

Milan Kundera, in A Brincadeira 

Fecho o livro, ou fecha-se-me aos meus olhos sem dar por isso, por causa daquilo - fica-me a navegar as ideias sem razões, em total ausência de razão, só fica. Não me lembro de ler resumo tão perfeito do que seria amar com toda a pele uma alma. Porque é isto - para mim pelo menos - a ternura que não desfaz o desejo, o amar a alma através do corpo, desejar a pele, mais além do desejo, pelo que guarda no seu por dentro. E a força selvagem - furiosa, como diz Kundera - do querer, do querer a pessoa inteira. Quase como um engolirmo-nos  e fazermo-nos parte do que não tem partes. Assim não tem.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

[foto @nurukimondo1]

“-Perguntar o quê?... - diz em voz baixa, com uma ênfase depreciativa, como se fizesse troça de si mesmo. - O que é que se pode perguntar das pessoas com palavras? O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?... vale pouco - diz com determinação. “

Sándor Márai, in As velas ardem até ao fim

A realidade, a verdade das pessoas está no modo como vivem, como fazem a sua vida e as suas escolhas. A vida que levam é a resposta do que são, do que valorizam, do que realmente acarinham. Da pessoa que são. Não é o que dizem. As palavras são tão maleáveis como ar, que tanto cabe numa garrafa redonda como numa caixa quadrada. As palavras, na maior parte das bocas, nada valem, há uma facilidade de dissociação entre as palavras que se dizem e o que se pensa, sente ou faz. Entre o que se critica ou defende com veemência, e as atitudes que se têm. A única coisa que se pode ler do outro sem erro, é o que ele faz. E se estivermos atentos, e quisermos mesmo ouvir, por vezes grita, mas o nosso medo muitas vezes não nos deixa ouvir. Durante muito tempo ensurdece-nos. Até que percebemos que enquanto não escolhermos ouvir, nunca vamos deixar de ter medo, nem nunca vamos assustar-nos com razão da verdadeira realidade - evitamos tanto o susto como a vida.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

[foto @tarasovm]

“Em todos os poderes humanos existe um ligeiro, delicado e quase imperceptível desprezo por aqueles que dominamos. Só podemos dominar inteiramente almas humanas, se conhecemos, compreendemos e desprezamos muito discretamente aqueles que são forçados a render-se.”

Sándor Márai, in As velas ardem até ao fim

Se dominam desprezam como consequência da superioridade, da superioridade que leva os outros a renderem-se a esse domínio. É assim que vêem. Sentem-se superiores ao outro, porque ele se deixa dominar por eles. É verdade, e essa superioridade leva a um certo desprezo mesquinho e fino - ténue, aparentemente; mas feroz e cruel se acontece entre pessoas próximas (e parece-me que é talvez das situações mais frequentes),  que supostamente se gostam. O problema é que não se pode gostar verdadeiramente de quem se despreza, a quem nos achamos superiores, não se pode amar alguém sem que haja admiração por essa pessoa, apesar de todos os defeitos que tem, e lhe conhecemos -porque o balanço final é sempre de admiração, mesmo que às vezes misturada com exasperação. Depois há ainda outro problema, é que parece que nunca chegam a entender que não são eles que são superiores, são os dominados que lhes dão, ou permitem, essa suposta superioridade, é uma concessão, é fruto duma devoção, dum afecto, dum lado do amor, esse subjugarmo-nos. Não por serem superiores mas pelo afecto, o amor, a amizade, ser superior. Nunca percebem isso, fazem disso uma coisa de ego, quando o outro, o dominado, faz o contrário, em reverência à relação, preserva-a.  Ou tenta. Quando se acha tratado como dominado, não pela natureza e necessidade das realidades a cada momento, mas fruto dum consistente e mascarado desprezo, tudo pode desmoronar. O dominado não é inferior (ou não tem necessariamente de ser apenas por se deixar, até certo ponto, dominar), ele só decide conceder superioridade ao outro - decide, escolhe, não é coisa de nascimento ou natureza, não é resultado dum combate de forças, é optar sempre por não lutar, submetendo-se em nome da relação que valoriza... 
... muitas vezes até ao dia em que percebe que está sozinho na relação, que apenas ele valoriza e tenta preservar a relação, submetendo-se, concedendo uma sensação de superioridade ao outro, de que ele abusa, menosprezando-o.

domingo, 12 de agosto de 2018

[foto @juliansell.fotografie]

“(...) tal como o desejo surge entre pessoas de uma forma inconsciente e desfigurada, quando alguém, pela primeira vez, quer separar do mundo o corpo e a alma de outra pessoa, para a possuir de uma maneira exclusiva. É esse o sentido do amor e da amizade. A amizade deles era tão séria e silenciosa, como todos os grandes sentimentos que duram uma vida inteira. E tal como todos os grandes sentimentos, continha também um certo pudor e sentimento de culpa. Uma pessoa não pode apropriar-se impunemente de outra, separando-a das restantes.”

Sándor Márai, in As velas ardem até ao fim

Há pessoas que separamos do mundo, que separamos de todas as restantes, a essas damos mais, damos tudo, mas por serem tão diferentes, aos nossos olhos, de tudo, para nós tão melhores que todos os outros, que acho que também exigimos mais, muito mais. 
E não, não nos apropriamos de alguém impunemente, de alguma forma fica-nos para sempre, paradoxalmente porque nos demos, porque demos tudo. Até nos sobrar apenas vazio.

domingo, 5 de agosto de 2018



(...) “a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo e que se vai aproximar.”
Do prefácio de A Paixão segundo G.H., Clarice Lispector

Como o que poderia, ou deveria, unir afastou mais, atravessar o seu oposto - leio estas linhas e é o que percebo, o que penso e retiro, constato, afinal. As pessoas de alma já formada são as que sabem que tudo chega devagar e às vezes pelo lado oposto. A minha será formada? E qual é o meu lado oposto? Por onde me chego pelo meu avesso? Por onde me vejo pelo que não sou?


(Clarice Lispector, in A paixão segundo G.H.)

“A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prémio.” - suponho que é verdade, a desistência é prémio quando se fez tudo, quando se construiu, quando se chegou lá e depois de tudo isso, de saber que fizemos tudo, desistimos, não porque fomos vencidos, mas por escolha. Por poder escolher desistir, por ter ganho o direito de desistir. Por ter construído, feito tudo e, também, exactamente por sabê-lo. O prémio é talvez desistir sem (ter de) desconstruir. Talvez. Saber que se conseguiu e deixar ir, qualquer outra forma será sempre o reconhecimento de um falhanço, de uma derrota, se calhar, de termos simplesmente sido vencidos, ou de não termos, sequer, verdadeiramente tentado. Talvez.
Esta não era a página do fim, mas é muito melhor que a do fim. Acabei.

Nao percebo como dizem ser o melhor livro dela... ou se calhar percebo, porque acho que muitas vezes quando não se percebem as coisas dizem que elas são muito boas, como que insinuando que só os muito elevados as podem compreender e, logo, gostar... então muita gente diz adorar e ser muito bom - à laia do que acontece com muita “arte moderna” -,  e eu queria mesmo era perceber como, e se, o entenderam - e já agora, se mo podiam explicar, dizer o que concluíram. Porque há partes boas sim, muito boas, passagens extraordinárias, não nego, mas o melhor livro dela? Há partes que me são incompreensíveis (o problema é  meu certamente, também não o nego, não terei capacidades suficientes) e outras onde acho que se vai contradizendo ao longo do livro. Talvez seja propositado porque é a descrição duma epifania tão longa como uma viagem de várias fases, talvez se vá contradizendo, aprendendo, mudando de ideias... mas torna as coisas confusas e sem lógica ou fio condutor. E eu sem lógica sinto-me perdida, talvez. Há partes do livro em que dei comigo a pensar que ela estava numa trip só dela... e das duras.

segunda-feira, 21 de maio de 2018


Anaïs Nin, Uma Espia na Casa do Amor

Quando não temos nada para dar, fugimos? Dando abandono?
Quando não sabemos como fazer-nos inteiros no outro que se dá inteiro, mordemos? Como quem quer da carne fazer a alma da sua própria carne? Sem conseguir?

quarta-feira, 21 de março de 2018

[foto @waynefisherphotography]

"Não, não é. O amor não é cego, nós é que somos cegos para ele. A gente olha e não vê. E, quando vê, já passou a ocasião. Tanto faz que seja, porque tivemos alguém que julgávamos que queríamos, como porque não tivemos quem só depois percebemos que afinal a gente queria. E o pior ainda não é isso. O pior é a gente, mais tarde, saber que nos era indiferente alguém que julgámos desejar muito."

Jorge de Sena, in Sinais de Fogo

[A multidão que aqui vejo, tanta gente que identifico e aqui cabe... só o verbo "ter" se desdobra e recurva para abarcar outros, como amar, adorar ou desejar... mas a essência do que é dito permanece imutável... Alguém que quis alguém que, quando teve, afinal já não queria, era tarde, e não, não "vale mais tarde, que nunca"... porque depois não vale nada. Porque depois a indiferença vale tudo, naquela altura em que daríamos tudo para, afinal, ter visto aquela pessoa que não percebemos a tempo que não podíamos perder e já perdemos. Tudo fora de tempo, tudo tarde, ou cedo demais.
O fogo cruzado dos amores com intensa falta de pontaria, que mata quase todos por lhes não acertar, e salva quase nenhuns dos que acerta.  E chegar ao fim e perceber que andámos sempre enganados, trocados, perdidos, num reconhecimento póstumo e impotente.
Andarei, também eu, perdida no que está diante dos meus olhos? ou terá o amor de morrer para que o saiba, nessa certeza fria e inerte,  por dentro das veias? ]

segunda-feira, 12 de março de 2018




“Um grande amor aquele vazio inominável, em que se debatiam tantas atitudes contraditórias de atracção e de repulsa? Na verdade, eu detestava a Mercedes e desejava-a sequiosamente. Não. Amava-a profundamente, e não a desejava senão como uma ocasião de precisamente esquecer, nos braços dela, que a amava. Tanto. Tão dolorosamente. Tão enciumadamente. Tão orgulhosamente. Tão envergonhadamente de continuar a amá-la e desejá-la.”

Jorge de Sena, in Sinais de fogo 

[Será assim o amor? De atitudes contraditórias? De detestar e desejar e amar?
É um pouco assim que sinto amor, entre detestar tanta coisa e ao mesmo tempo amar por algumas dessas mesmas razões, que não me beneficiam ou facilitam a vida, mas que aprecio, e todas as outras sem razão nenhuma... ama-se só porque sim, porque o amor nos tem, e mais nada. Há algo que aqui é dito que me faz muito sentido, é quando estamos nos braços de quem amamos que nos esquecemos que amamos, como se precisássemos desses momentos para descansar do amor que temos vivendo-o. Se calhar só se descansa do amor vivendo-o. Ou talvez nesses momentos não tenhamos consciência de que amamos, porque o amor nos absorve, nos consome, nos engole -  entregamo-nos inteiros e nada resta de tão nosso que chegue para ter consciência lúcida do que for. Talvez por isso esses momentos sejam de liberdade total, libertamo-nos até de nós e da consciência dum amor que nos leva, ainda que momentaneamente, a consciência de ser. E isto é coisa para ser uma sensação viciante.

Falha-me a vida, tão indiscutível e rigorosamente como um relógio que nunca perde o tempo certo do tempo, e eu volto a mergulhar em palavras que não são minhas para escapar à minha vida e encontrá-la nas palavras dos outros.]

[foto @qiurii]

"Confiança, orgulho, ternura, contentamento, um quebranto de cansaço e também um desejo reacendido só de pensar nela e não de pensar no que fizera com ela: tudo isso eu sentia, me dava um andar leve, quase dançado, e era inteiramente novo. Eu já sentira, noutras ocasiões, um pouco disto ou daquilo; não sentira porém, tudo e tão intensamente (...) Era como se, na vida, nós, de vez em quando, após uma experiência nova, descobríssemos que ainda crescíamos, que ainda não tínhamos deixado de ser crianças. E que havia, dentro de nós, possibilidades infinitas de plenitude. (...) Mas não era que deixássemos muitas vezes de ser crianças, não. Nem uma experiência nova. Não tinha sido afinal uma experiência nova. Tinha sido, pelo contrário, a mesma experiência de sempre, como nova. E nisso estava toda a diferença. (...) de cada vez que acontecia uma experiência destas, era como se um novo grau de consciência e de sensação nos relegasse a uma memória distante e imprestável tudo o que antes, igual experiência tivesse sido. Todavia, distante e imprestável, não por inútil, e sim por superada."

Jorge de Sena, in Sinais de Fogo

[Quando de repente tudo o que está para trás parece reduzir-se a nada, a um mero caminho até aqui, agora, onde percebemos a possibilidade da plenitude em cada poro. E o depois, onde voltamos ao nada que encontrámos, depois de tudo, no antes. Voltamos ao antes sem nada ser como dantes. De repente os vazios substituem o que entendíamos por bom, por razoável, por normal. Agora é tudo nada, o normal é nada, é pobre, é anormal.]

Havia alguém que me dizia que eu devia ser das únicas pessoas que conhecia que mal acabava de ler algo, era capaz de me pôr a falar, ou a escrever, do que tinha lido, entendido e sentido. E foi um hábito, ou uma espécie de ritual de encerramento da leitura, que ganhei há anos. Muitas vezes, depois de acabar de ler um livro, vou rever as partes que marquei, que me fizeram parar e mastigar devagar, porque me disseram mais que o resto, porque me falaram mais ao ouvido do coração, porque talvez fossem mais minhas. Por vezes vou registando esses trechos ao longo da leitura, outras espero acabar o livro (como desta vez, na maior parte dos excertos) para então me dedicar aos que quero deixar registado para a minha memória futura. Deixo-os aqui, como tantas das coisas que me tocam ou me passam pela cabeça ...

domingo, 11 de março de 2018

[foto @tarasovm]

"(...) aquele corpo que, como a minúcia me fez entender, não era tanto a Mercedes como o meu próprio corpo realizado noutrem. Não a metade ideal que se procura. Não a mulher pela qual, em nós, somos homens. (...) Mas eu mesmo como amor que se materializa, como realidade que se torna espaço e forma, como sexo que perde a sua solidão de instrumento, para adquirir a independência de uma solidão autónoma e imprevisível, em que o sexo não é uma parte que estrutura e que domina um corpo, um eixo em torno do qual roda a vida, mas um centro onde ela se detém, um todo em que ela se concentra como coisa viva, e não como coisa vivida.
(...) Ela levantou-se, e começou a vestir-se. Quando se penteava, eu pensei que, de facto, eu não podia amá-la. Ela era o meu amor. Nada me ficava com que ter-lhe afecto. Eu fechei tranquilamente os olhos, certo de que, assim, eu a teria sempre, tal como ela queria ser sempre minha."

Jorge de Sena, in Sinais de Fogo

Estas últimas linhas lembram-me uma frase, das que colecciono entre as mais bonitas,  que me disseram em resposta a eu dizer que tínhamos estado muito tempo longe, que tinha estado sem ele, que ele tinha estado sem mim... que não, que nunca tinha estado sem mim, que estava sempre com ele, nele, porque me pensava e me lembrava todos os dias, bastava-lhe parar um pouco ou fechar os olhos, que era impossível ele ficar sem mim, eu estava nele. Será isto amor? a impossibilidade de nos dissociarmos totalmente? porque estamos no outro e o outro em nós? Mesmo quando não estamos perto? Será o amor essa coisa que se forma com duas almas, aquelas duas almas em que um encara o outro como amor, quase sendo impossível de dizer se se gosta ou não, se se ama ou não, porque, se é já amor o que nele os dois juntos são, como dissociar qualquer das partes, para saber se ama ou não ama?